Policiais gastronómicos

Francisco Mota

No variado mundo da literatura policial, que é um género considerado menor, mas cuja classificação recuso totalmente, existem vários personagens que no decurso da acção comem e bebem. Nos norte-americanos (a maioria) comem coisas como pão com bacon e ovos estrelados, ou hambúrgueres com cebola frita acompanhados com chá ou, nalguns casos de cerveja. Nos ingleses acabam todos a tomar chá e scones, às cinco da tarde, mas aqui as referências são poucas, porque os ingleses não sabem comer.

Hoje queria contar coisas de três autores europeus, em que a trama da história deixa lugar importante para o bem comer.

O primeiro é Georges Simenon, autor francês, que criou o personagem do Inspector Maigret, senhor de fato completo, chapéu, ar de classe média baixa, com grandes capacidades dedutivas, mas que não se importava nada de interromper as investigações para ir comer a casa, onde a sra. Maigret lhe tinha preparado algum prato da rica e variada cozinha tradicional das províncias francesas. Se comia nalgum bistrot (tasca) procurava sempre algo de sincero e verdadeiro que lhe recordasse a França eterna, na boca e não no nacionalismo bacoco.

O segundo é o catalão Manuel Vázquez Montalbán, jornalista, político, escritor, autor de obras sobre jornalismo que se estudam nas universidades e sobretudo um enorme gastrónomo e um excelente cozinheiro. Inventou o detective Pepe Carvalho (filho de murciana e de galego), que elevou nas suas histórias policiais (a primeira das quais se chama «Eu matei Kennedy») a gastronomia ao nível da arte. Pepe Carvalho conhece ao pormenor toda a geografia comestível e bebível de Barcelona e arredores, mas também os lugares mais importantes de toda a Espanha gastronómica. Não estou a falar dos grandes restaurantes, que nunca saem nos seus livros, mas dos grandes bares ou tascas de lugares longe de Barcelona como Cuenca, Albacete, Murcia entre outros. Quando Pepe se encontra num beco sem saída nalguma investigação, vai para a sua casa de Vallvidrera (uma encosta donde se vê toda Barcelona) e põe-se a cozinhar de madrugada. Quando está quase a terminar telefona ao seu amigo Fuster, para que se levante da cama e venha cear com ele. Os pratos de Pepe vão desde as coisas muito simples, mas no seu ponto exacto de momento, frescura e simplicidade, até pratos complicados invenção sua ou baseados em receitas catalãs, espanholas ou estrangeiras, onde não raramente introduz elementos da sua própria criatividade. Conhece todos os vinhos, bagaços, whiskies, genebras e qualquer outro elemento alcoólico. Recebeu o prémio de «melhor escritor policial europeu» e existe um livro chamado «as receitas de Pepe Carvalho» que suponho esgotado. Montalbán morreu no aeroporto de Bangkok, quando esperava sentado numa sala a chamada para entrar no voo para Madrid. Bangkok era a escala da sua última viagem à Austrália. O seu último livro, dividido em dois volumes, chama-se «Milenio» e ao lê-lo sente-se que Pepe Carvalho (ou seja, Manolo Montalbán) dá a volta ao mundo com o seu eterno auxiliar Biscuter, como a despedir-se deste mundo. Aparecem personagens que já conhecemos doutros livros e esta revisita soa ao adeus definitivo. O segundo volume saiu já depois da morte de Manuel Vásquez Montalbán.

O terceiro, chama-se Andrea Camilleri é siciliano e dá aulas na Academia de Arte Dramática, de Roma, tendo sido durante 40 anos autor de guiões e director de teatro e televisão. Em 1994 criou a figura do Comissario Montalbano, chefe da esquadra de Vigàta e homem de grande cultura, ainda que não faça gala dela. O nome Montalbano, segundo o próprio Camilleri, deve-se a que é um nome com sonoridade siciliana e também como homenagem a Vázquez Montalbán, de quem é grande admirador. Aliás, as referências a Pepe Carvalho aparecem habitualmente nos seus textos «...nesta situação em que estou, que faria Pepe Carvalho?» ou «...sentia-se cansado mas tinha uma enorme vontade de ler a novela de Montalbán que tinha recebido essa manhã». Camilleri é um autor com enormes recursos e muitas vezes resolve os assuntos do Comissario Montalbano com partes de livros, policiais ou não, com poemas de Dylan Thomas, de poetas italianos e duma longa lista de autores. As histórias são inteligentes e baseadas na dedução, que é a linha comum dos três autores de que falamos hoje. O comissário gosta de comer e diz-nos o que come. Ao contrário do seu admirado Pepe, Montalbano não cozinha. Come basicamente comida siciliana que é composta basicamente por peixe «...97% da gente de Vigàta come peixe todos os dias. E os outros 3%? Perguntou o seu ajudante Fazio. Essa percentagem corresponde aos recém nascidos». Salmonetes, biqueirões, cavalas, sardinhas, sargos, pescadinhas, polvinhos, mariscos locais, tudo isso passa pela goela de Montalbano, sem esquecer a «pasta» que come com os mais variados vegetais ou molhos de peixe. Num arranque definitório das suas preferências escreve «eu sou como Maigret e só como coisas da minha terra e não como Pepe Carvalho que cozinha pratos que poriam o estômago de um tubarão a arder».

Como outros autores não gastronómicos (Chester Himes, Dashiell Hamett, etc.) estes três escritores revelam nas suas histórias os laços do poder e a realidade dos conflitos sociais. Está lá tudo, mas parece que não está.

Lamentavelmente a novela policial portuguesa, que já viveu bons dias, está calada e talvez metida na gaveta. Leiam estes autores que vos darão um respiro à pornografia do Poder que nos manda e vos parecerá, erradamente, que estes governantes e os seus chefes nunca existiram.



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