A reportagem desaparecida
Como é habitual, espreitei com a antecedência adequada a programação da RTP1 para domingo, dia 6: lá estava ela, apetitosa, convidativa, com um título que abria espectativas, «Reportagem – Onde Param os Correios?». Para mais, em pleno «prime time», palavras que em português atlântico significam «horário nobre», no caso logo a seguir ao Telejornal. Não havia que hesitar: com o apetite mais que aguçado, instalei-me confortavelmente diante do televisor, limpei cuidadosamente as lentes dos óculos, apurei o ouvido, suportei resignado os inevitáveis minutos de publicidade e esperei. Eis, porém, que no televisor surgiram as primeiras imagens do que se configurava como um fenómeno estranhíssimo: a transmissão no canal principal da RTP de uma reportagem cujo tema de fundo seria a música dita clássica, género que, como desde sempre se sabe, a estação pública considera inteiramente inadequado à grande maioria dos seus espectadores. Era uma reportagem com o título de «Notas de Encanto» e cujo tema era a distribuição de prémios a jovens instrumentistas portugueses. Continuei a ver e ouvir, naturalmente, na convicção de que estava perante uma extravagância da RTP1, que também tem direito a elas, e que seria coisa de pouca duração: de um momento para o outro, acreditava eu, aquela deriva iria terminar e chegaria, enfim, a anunciada «Reportagem – Onde Param os Correios?». Não chegou: terminada a «Notas de Encanto», logo se lhe seguiu a repetição de um telefilme protagonizado por Rita Blanco e Fernando Luís, produto que julgo ter sido transmitido pela primeira vez em Maio passado e repetido em Agosto, isto se os meus pobres registos não me enganam. Enfim, coisa que não era urgente rever. E é claro que até ao fim da emissão nunca se falou da reportagem que havia sido anunciada até na imprensa «de referência». Talvez o melhor fosse esquecê-la: a reportagem sumira-se, a RTP calara-se acerca do sumiço, e pronto.
Onde pára a reportagem?
A questão, porém, é que não era fácil esquecê-la. Recorri à Net para saber alguma coisa acerca da reportagem desaparecida e encontrei um texto decerto com origem na RTP ou seus arredores. Assim: «Onde Param os Correios?» é uma viagem por estórias de vida com uma marca comum: os correios. O soldado do ultramar que escrevia cartas de amor, a funcionária do guichet do tempo em que não existiam computadores, ou o carteiro de Trás-os-Montes que entregava os vales com o dinheiro de França. Neste regresso ao passado, cruzam-se as estórias do presente. As estações dos CTT que encerraram e os receios que a privatização alimenta. «Onde param os Correios?» que fazem parte da vida dos portugueses há quase 500 anos?”. Perante este texto, estava provado que a reportagem existia, que não era um produto fantasmagórico imaginado por alguém. Também pela Net soube que se tratava de um trabalho da jornalista Rita Ramos com imagem de Rui Silva e edição de Pedro Pessoa que, espero, continuem bem de saúde e sem contratempos de qualquer ordem, isto é, que não sejam penalizados por supostamente terem sido abelhudos ou simplesmente inconvenientes. É que, como bem se compreende, abordar na RTP o tema dos Correios e da sua importância passada e actual é hoje um atrevimento de algum modo semelhante ao de pisar terreno armadilhado. Como é costume ouvir-se dizer em certas circunstâncias, «não será oportuno» falar dos Correios, da sua história passada e da sua utilidade actual, no momento em que o Governo está à beirinha de os vender talvez por qualquer preço, indiferente até ao facto de os Correios serem fonte de algum lucro para o Estado tão carecido de receitas. Falando de «terreno armadilhado», não direi que implica risco de explosão, o que seria excessivo, mas direi que implica inevitáveis suspeitas de que pode ter originado qualquer coisa parecida com um acto de censura interna praticado à última hora. É claro que já não há censura, isso acabou há perto de quarenta anos. Mas, então, onde pára a reportagem?