Noite eleitoral
Como se sabe, a noite eleitoral na televisão foi longa, como aliás é habitual, e desta vez tão longa que nem chegou a terminar, pois o seu epílogo normal que, seria a informação total dos resultados das eleições autárquicas em todos os distritos nacionais, foi inviabilizado por grandes atrasos nas contagens aqui e acolá. De qualquer modo, a noite televisiva deu para ver e ouvir muita coisa e, talvez o mais importante, para nos apercebermos de que as operadoras portuguesas de TV têm as suas predilecções e os seus fastios. Assim, a sua maior predilecção em matéria político-partidária é, a julgar pelo que se viu e ouviu ao longo do serão, pelas chamadas candidaturas independentes, sem prejuízo de talvez ser interessante descascar algumas dessas candidaturas para se ver o que têm dento, e entre todas elas sobretudo para a de Rui Moreira, vencedor no Porto. Eu perdi a conta a quantas vezes ouvi, no todo ou em parte, o discurso de vitória de Rui Moreira, mas tenho poucas ou nenhumas dúvidas de que o ouvi mais vezes que o de António Costa, vencedor na capital. Poder-se-ia pensar que Rui Moreira é mais bonito, já que o aspecto físico pode legitimamente contar em televisão, mas afigura-se-me que a explicação é outra: a de que há muito o País anda a ser submetido a uma espécie de campanha anti-partidos que naturalmente dá à luz o apreço superlativo pelos que se proclamam independentes. Por sinal, a independência de Moreira ficou um pouco manchada pelo expresso apoio que lhe foi dado pelo CDS-PP e que ao candidato nem sequer terá ocorrido rejeitar exactamente para sublinhar a sua independência. Mas o que talvez mais me impressiona, e não decerto apenas a mim, insignificante eleitor da região de Lisboa, é que suspeito de que sem os votos do CDS-PP o agora presidente da Câmara Municipal do Porto poderia não o ser, ou sê-lo em circunstâncias diferentes das conseguidas. E talvez caiba aqui uma confissão pessoal: é que sempre que ouço um discurso anti-partidos ou leio um texto inspirado por esse sentimento, se é que de sentimento se trata, recordo a voz sempre um pouco enrouquecida do doutor Salazar, esse santo homem, que muitas vezes se empenhou a lembrar ao bom povo português que os partidos eram uma peste que se impunha proibir, extinguir, odiar. A exemplo da Alemanha nazi e da Itália fascista.
O fastio
Mas falou-se lá atrás não apenas de predilecções das operadoras de televisão mas também dos seus fastios, e entre estes parece-me avultar o fastio pelos comunistas em geral e pelos comentadores comunistas em especial. Assim, vimos na passada noite de domingo que quer a RTP como a SIC e a TVI organizaram o seu painel de comentadores, e que cada um deles era abrilhantado por figuras de especiais qualificações para o efeito. Por exemplo, na TVI lá estava o professor Marcelo; na SIC e RTP estavam António Vitorino e Morais Sarmento a palrar longamente. Porém, tive a maior das dificuldades em descobrir nessas maiores ou menores equipas de comentadores uma presença comunista até que, finalmente, lá lobriguei António Filipe, então silencioso mas que espero tenha chegado a intervir um poucochinho. Mais tarde, noutro canal, deparei com Miguel Tiago: também não cheguei a ouvi-lo, mas é de crer que o tenham deixado falar ainda que por pouco tempo. É claro que também ouvi Jerónimo de Sousa, que aliás não podia ser ignorado sem fragoroso escândalo, mas esse obviamente fora do quadro dos comentários, tal como Bernardino Soares, vencedor em Loures, que eu só ouviria fugazmente na manhã de segunda-feira, creio que por força de atraso no apuramento dos resultados. E quanto a vozes e imagens de comunistas, foi tudo o que a minha esforçada vigilância conseguiu para além de breves passagens pelo C.T Vitória no quadro de rondas de reportagem por todas as sedes de campanha. De qualquer modo, não se diga que esta escassez foi resultado da minha inabilidade para sintonizar o canal certo no momento adequado: estou convencido de que resultou, isso sim, do fastio das operadoras pela imagem e pela palavra dos comunistas. Fastio que é maleita crónica. Mas, lembremos, ilegal e transgressora da democracia.