O pântano do costume

Jorge Cordeiro

No caudal de notícias e comentários a propósito dos mais mediatizados casos que preenchem o atoleiro em que Governo, governantes e sub-governantes se encontram afundados, faltará talvez sublinhar o que de entre títulos, colunas e linhas acaba esbatido. É que para lá do pantanal de podridão ética e insuficiências de carácter daqueles que afinam o valor da palavra que dão pelo mesmo critério das cotações bolsistas – umas vezes para cima outra vez para baixo conforme o que der jeito para ganhar sem esforço à custa de quem seja – está sobretudo uma dimensão de degradação política ditada pela natureza da política de direita e dos interesses de classe que lhe estão associados. O que é relevante não é saber se ministra e secretários de estado mentiram nem sobretudo o lugar em que o fizeram. O que é relevante é que cada um à sua maneira tratou de promover negócios que enterrando o interesses público favorecia o capital financeiro ao serviço e mando de quem estão. O que é relevante não é saber se o ministro Machete apagou do curriculum a sua associação ao percurso danoso do BPN ou da SLN. Desde logo porque sempre se poderia dizer que houvesse justiça a sério e provavelmente a base de recrutamento para a política de direita teria de ser procurado para os lados da penitenciária. Mas principalmente porque o que é relevante é o que se esconde por detrás de percursos daqueles que tendo feito perder milhões ao País ganharam milhões nesse lodaçal da especulação bolsista. É certo que os que difundem e ampliam tais notícias, sem que se negue a relevância que têm, as queiram aprisionar nos limites dos comportamentos, das falhas de carácter, dos juízos morais. Cabe-nos recolocá-los no sítio certo: no das relações da promiscuidade entre os poderes político e económico, no sinuoso e interminável tráfico de influências que propicia, nos interesses que lhe estão associados. Não se trata pois de uma questão de defeito mas sim de incorrigível feitio. Pelo que mais do que apontar a porta de saída às Luísas, Amarais e Machetes deste Governo, o que se impõe é que pela porta ou pela janela saiam Governo e a política a que dão expressão.




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