Milhares em Belém exigem demissão do Governo e convocação de eleições

Povo reclama poder decidir

«Um Go­verno que agrava a ex­plo­ração e o em­po­bre­ci­mento, junta mais crise à crise, am­plia a gri­tante de­si­gual­dade so­cial no nosso País e pro­move um ajuste de contas com Abril, com a de­mo­cracia e a so­be­rania na­ci­onal, não pode con­ti­nuar em fun­ções, mesmo que surja agora em versão re­cau­chu­tada», afirmou Ar­ménio Carlos, no pro­testo que a CGTP-IN pro­moveu sá­bado, junto ao Pa­lácio de Belém, para exigir a de­missão do exe­cu­tivo PSD/​CDS e a re­a­li­zação de le­gis­la­tivas an­te­ci­padas.

«Com a luta vamos der­rubar o que resta deste Go­verno»

Mesmo afas­tada umas cen­tenas de me­tros da re­si­dência ofi­cial do Pre­si­dente da Re­pú­blica (PR), a mul­tidão que se con­cen­trou no final da Rua dos Je­ró­nimos es­ten­dendo-se pelos jar­dins fron­teiros, fez ouvir a Ca­vaco Silva pa­la­vras de ordem como «função do Pre­si­dente é correr com esta gente» ou «fartos de al­dra­bões, que­remos elei­ções». Res­pon­dendo a uma con­vo­ca­tória feita três dias antes, os tra­ba­lha­dores, de­sem­pre­gados, re­for­mados, pen­si­o­nistas e jo­vens que ali es­ti­veram ex­pres­saram o clamor que per­corre o País.

A tem­pe­ra­tura atí­pica obrigou ao can­ce­la­mento do des­file ini­ci­al­mente pre­visto, mas o facto não re­tirou con­tun­dência à ini­ci­a­tiva, le­vando o se­cre­tário-geral da CGTP-IN a notar que «mesmo com este calor tór­rido, não de­sis­timos». Re­feria-se à de­ter­mi­nação que se ob­ser­vava e às mo­bi­li­za­ções que têm ocor­rido de forma per­ma­nente «pelo fim do pacto de agressão e a po­lí­tica de di­reita», par­ti­cu­lar­mente evi­dentes na «ex­cep­ci­onal greve geral de 27 de Junho».

A va­lo­ri­zação da adesão e apoio mas­sivos à pa­ra­li­sação já havia sido su­bli­nhada por Isabel Girão, da In­ter­jovem, para quem «com a greve der­ru­bámos Gaspar e Portas» e «com a luta vamos der­rubar o que resta deste Go­verno». No mesmo sen­tido, Ar­ménio Carlos con­si­derou a «luta in­ces­sante» como «de­ter­mi­nante para o des­gaste do Go­verno e para as con­tra­di­ções que se ve­ri­ficam no seu seio».

«Nunca, na his­tória re­cente de Por­tugal, um Go­verno com mai­oria par­la­mentar viu re­du­zida tão ra­pi­da­mente a sua base so­cial, o que con­firma a va­li­dade da luta e a ne­ces­si­dade de a in­ten­si­ficar para pôr termo a esta po­lí­tica de de­sastre e saque, de de­si­gual­dade so­cial e de­la­pi­dação da ri­queza na­ci­onal», a qual, de­ta­lhou, «em dois anos impôs pe­sados sa­cri­fí­cios aos tra­ba­lha­dores e ao povo; des­truiu a ca­pa­ci­dade pro­du­tiva e impôs uma re­cessão eco­nó­mica sem fim à vista; mar­ti­rizou os tra­ba­lha­dores e os pen­si­o­nistas com im­postos, ao mesmo tempo que em­purrou o dé­fice para os 10 por cento; pri­va­tizou em­presas e ali­enou re­cursos na­ci­o­nais, com a dí­vida a au­mentar 48 mil mi­lhões de euros; roubou fe­ri­ados e dias de fé­rias, re­duziu a re­tri­buição pelo tra­balho ex­tra­or­di­nário e fez do de­sem­prego o quo­ti­diano de mais de um mi­lhão e meio de tra­ba­lha­dores».

Cumpra-se a Cons­ti­tuição

Na al­tura em que mi­lhares de pes­soas es­tavam con­cen­tradas em Belém, Passos Co­elho, Paulo Portas e os res­pec­tivos apa­re­lhos ul­ti­mavam, nas costas do povo e contra a sua von­tade, a re­cau­chu­tagem go­ver­na­mental. Ig­no­rava-se qual o fi­gu­rino que cos­tu­ravam.

Na ver­dade, tal pouco im­porta. Os re­mendos apli­cados num ga­bi­nete der­ro­tado nas ruas e o «triste es­pe­tá­culo que en­volveu Passos e Portas nos úl­timos dias», mos­tram com cla­reza a «ob­sessão pelo poder a qual­quer preço» e a «ló­gica dos troca-tintas». Sa­li­entam, igual­mente, que «PSD e CDS fogem das elei­ções “como o diabo da cruz”, pois sabem que vão ser pe­na­li­zados nas urnas», frisou o se­cre­tário-geral da cen­tral sin­dical.

De maior gra­vi­dade são os pro­pó­sitos de «um Go­verno que não tem le­gi­ti­mi­dade nem cre­di­bi­li­dade po­lí­tica» agindo «fora da lei e em rota de co­lisão com a Cons­ti­tuição da Re­pú­blica e o povo», alertou, ainda Ar­ménio Carlos. «Re­mo­de­lado ou não, [tentam] apro­veitar o pouco tempo que lhes resta e, no pe­ríodo do Verão, dar con­ti­nui­dade ao ataque a di­reitos, li­ber­dades e ga­ran­tias cons­ti­tu­ci­o­nais, no­me­a­da­mente ao em­prego, a sa­lá­rios e pen­sões dignas e à pro­tecção so­cial».

Fiel aos in­te­resses dos «grandes grupos eco­nó­micos e fi­nan­ceiros», PSD e CDS pro­curam aplicar «os cortes de 4700 mi­lhões de euros na Edu­cação, Saúde e Se­gu­rança So­cial», au­mentar «a ex­plo­ração através da re­dução da re­mu­ne­ração do tra­balho com o au­mento da jor­nada, de mais cortes nos sa­lá­rios, de fa­ci­li­tação dos des­pe­di­mentos e de nova re­dução nas in­dem­ni­za­ções». Si­mul­ta­ne­a­mente, per­se­guem o ob­jec­tivo de re­duzir «o IRC para as grandes em­presas, que acu­mulam mi­lhares de mi­lhões de euros de lu­cros e o au­mento da carga fiscal para a ge­ne­ra­li­dade da po­pu­lação», e de pri­va­tizar mais pa­tri­mónio pú­blico, casos dos «CTT, CP Carga, RTP, TAP ou Águas de Por­tugal».

«Pe­rante isto, o PR (…) tem de res­peitar a von­tade po­pular e as­se­gurar o cum­pri­mento da Cons­ti­tuição», rei­vin­dicou.

Der­rotar a cum­pli­ci­dade de Ca­vaco

Acu­sando o exe­cu­tivo Passos/​Portas de des­cre­di­bi­lizar ace­le­ra­da­mente o País, de des­truir «cen­tenas de mi­lhares de em­pregos e ex­pulsar jo­vens, des­per­di­çando o ele­vado in­ves­ti­mento que o povo fez na sua for­mação» e tor­nando «Por­tugal um país mais en­ve­lhe­cido e mais pobre»; de fazer «crescer os mi­li­o­ná­rios ao mesmo tempo que ge­ne­ra­liza a po­breza e de­clara guerra aos tra­ba­lha­dores, aos de­sem­pre­gados e aos pen­si­o­nistas e re­for­mados»; de «cortar nos di­reitos so­ciais e la­bo­rais» en­quanto pro­move «o es­bulho da ri­queza na­ci­onal e pa­tro­cina a en­trega de mi­lhares de mi­lhões de euros para os BPN, para a banca com as Swaps, e para as grandes em­presas com as PPP», Ar­ménio Carlos ques­ti­onou: «por que es­pera o Pre­si­dente da Re­pú­blica para de­mitir o Go­verno?».

Caso Ca­vaco Silva teime em dar co­ber­tura ao ac­tual Go­verno man­tendo-se cúm­plice com a sua po­lí­tica, tra­ba­lha­dores e po­pu­la­ções «estão pre­pa­rados para dar com­bate», ad­vertiu. «Se acham que os meses de Maio e Junho foram quentes, o mês de Julho ainda o será mais», an­te­cipou, ga­ran­tindo que «es­tamos neste luta para vencer».

 

Pôr fim à po­lí­tica de di­reita

Ar­ménio Carlos es­cla­receu que «para a CGTP-IN, os in­te­resses na­ci­o­nais não se podem con­fundir com in­te­resses pes­soais, com a sub­ju­gação ao me­mo­rando da troika ou com a pers­pec­tiva de cons­trução de co­li­ga­ções go­ver­na­men­tais, agora ou no fu­turo, que te­nham como fi­na­li­dade dar co­ber­tura, com uma ou outra nu­ance, à po­lí­tica de di­reita».

«Por­tugal pre­cisa de uma po­lí­tica de es­querda e so­be­rana que res­ponda às ne­ces­si­dades e an­seios do povo e sal­va­guarde os in­te­resses do País», afirmou, antes de as­se­gurar que dela fazem parte a re­ne­go­ci­ação da dí­vida, o rom­pi­mento com o me­mo­rando da troika e a li­ber­tação de Por­tugal deste e da ameaça de novos res­gates, a re­vo­gação das normas gra­vosas da le­gis­lação la­boral que acen­tuam a ex­plo­ração dos tra­ba­lha­dores, a aposta na pro­dução na­ci­onal e a va­lo­ri­zação dos sa­lá­rios para di­na­mizar a pro­cura in­terna, de­fenda as fun­ções so­ciais do Es­tado e in­vista nos ser­viços pú­blicos.



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