Vitória total do Exército Vermelho (conclusão)
Ao longo de todo o mês de Dezembro a ‘Wehrmacht’ tinha tentado reforçar as suas posições defensivas usando um sistema de pontos absolutamente sólidos divididos por linhas de defesa intermédias. Tirava partido de fortificações anteriormente abandonadas pelo Exército Vermelho ao longo da margem esquerda do rio Rossoshka e tinha minado todos os sectores por onde pudessem passar tanques até à própria cidade de Stalinegrado.
Restava ao Exército Vermelho lançar-se na gigantesca tarefa de libertação das terras vastas e férteis que o Dão e o Volga banhavam e da cidade de Stalinegrado onde a revolução de Outubro tinha triunfado para que o mundo novo fosse construído
Mas já sabemos que as condições gerais em que von Paulus procurava resistir, acatando as ordens irraccionais do Führer, eram precárias. Contra si, marchariam três exércitos soviéticos, o 65.º (Batov), o 21.º (Chistyakov) e o 24.º (Galanine), equipados com tudo o que havia de mais moderno, incluindo artilharia pesada de todos os calibres e lança-foguetes. Esses três exércitos desenvolveriam a operação principal. Mas também o 57.º exército (Tolbukine), o 62.º (Chuikov), o 64.º (Chumilov) e o 66.º (Zhadov), retirados à Frente de Stalinegrado contra a vontade de Yeremenko, entrariam em acção nos seus respectivos sectores ainda que com objectivos mais limitados. Os dados, portanto, estavam lançados. Rokossovski, representando o futuro que resistia ao passado e o vencia, tinha o seu poderoso ataque preparado e avançaria em fúria. Paulus, pelo contrário, estava perdido. Era em Berlim que os lobos uivavam.
O ultimato de Rokossovsky que von Paulus recusou
Recebido o assentimento do Kremlin, Rokossovski, com a colaboração de alguns dos principais generais ligados à Frente do Dão (Voronov, Malinine, Golovanov, Galadzhiev e outros) avançou para a inevitável destruição do grupo de Friedrich von Paulus, mas começou com a preparação do ultimato. Todos estes homens sabiam muito de estratégia, tácticas, preparação e controlo de tropas, recursos, logística. Eram cabos de guerra, soldados feitos nas mais modernas academias militares da URSS, mas também filhos da experiência do conflito, gente prática que não estava interessada na produção de um documento literário. Entretanto, conhecedores da história das guerras e, como comunistas, das misérias e dos sofrimentos que elas provocam no viver dos povos, tinham consciência de tudo o que era necessário dizer ao comandante do 6.º exército da ‘Wehrmacht’, von Paulus. Nenhum comunista estava interessado, evidentemente, em que a derrota de von Paulus apenas se produzisse após uma desnecessária carnificina que levaria a vida a muitos milhares de soldados de ambos os lados.
Eis o texto do memorável ultimato.
«Excelência! O vosso exército, assim como unidades diversas pertencentes ao 4.º exército ‘Panzer’ e outras, não têm quaisquer possibilidades de romper e vencer o envolvimento criado pelo Exército Vermelho à sua volta desde 23 de Novembro de 1942. Todas as tentativas do comando alemão para trazer auxílio às vossas forças sitiadas falharam. Unidades enviadas para vos libertarem foram derrotadas pelas forças soviéticas e ainda há sobreviventes que fogem para Rostov. A vossa aviação de transporte, entregue à missão de matar-vos a fome trazendo-vos rações de combate e, igualmente, medicamentos, munições, combustível, sofreu grandes baixas devido à acção de guerra da Força Aérea soviética. O vosso exército, portanto, ficou a sofrer de fome, de doenças, de frio. E o cruel Inverno russo, o gelo, tudo, ainda mal começou. Os vossos soldados não dispõem de vestuário de Inverno e as suas condições sanitárias são difíceis. Como comandante das tropas sitiadas, V. Exa. tem de compreender que não existem possibilidades reais de sair do anel que vos imobiliza. A vossa posição não oferece qualquer esperança e a continuação da resistência já não serve os vossos objectivos. Tendo em conta esta situação sem saída e para que se evitem mais desnecessários derramamentos de sangue, propomos a vossa rendição e oferecemo-vos as seguintes condições:
1/ todas as tropas germânicas cercadas e chefiadas por V. Exa. devem cessar a resistência;
2/ de uma forma organizada, V. Exa. deve fazer-nos entrega de todo o seu pessoal, dos respectivos armamentos, de todo o equipamento militar, de todos os valores que possuís, tudo em boa ordem; a todos os oficiais, sargentos e praças que cessem a resistência ao Exército Vermelho, garantimos a vida e a segurança e, quando chegar o fim da guerra, o regresso à Alemanha ou a qualquer outro país para onde desejem partir;
3/ todo o pessoal das forças que se rendam poderá manter os respectivos uniformes, distintivos e medalhas, valores pessoais, artigos ou utensílios particulares e, no caso dos oficiais superiores, as próprias armas de defesa pessoal; todos os oficiais, sargentos e praças que se entreguem passarão a receber, imediatamente, rações normais; todos os feridos e doentes, todos os atingidos pelo frio, receberão assistência médica imediata».
O ultimato, escrito para ser feito chegar à posse do inimigo a 8 de Janeiro de 1943, assegurava, ainda, que o Exército Vermelho prepararia, com a dignidade adequada, a forma como a resposta de von Paulus seria recebida e propunha que tal acontecesse até ao dia 10 de Janeiro. No fim, avisava que se as condições descritas não fossem aceites, a Frente do Dão seria compelida a proceder à completa destruição das tropas sitiadas cabendo a total responsabilidade por tal decisão ao comando germânico. O histórico documento era assinado pelo coronel-general de Artilharia Voronov, como representante do Comando Supremo, e pelo tenente-general, Rokossovski, que lideraria o ataque final como comandante da Frente do Dão.
A Alemanha ficava a saber, portanto, quem eram os homens que procederiam ao assombroso ataque final que liquidaria para sempre o 6.º exército da ‘Wehrmacht’. A entrega deste documento, tão especial, seria organizada pelo general Vinogradov, chefe dos serviços de ‘intelligence’ da Frente do Dão, e este, para levar a cargo a sua delicada missão, constituiria um pequeno agrupamento de voluntários que incluiria um trompete, para avisos. A mensagem soviética seria entregue pelo major Smislov, escolha do próprio Vinogradov, que teria um intérprete consigo, o capitão Diatlenko. Mas como seria, na realidade, realizado o contacto com o comando do 6.º exército nazi? Já um grupo de destacados cidadãos alemães entre os quais se contavam o anti-fascista e dirigente comunista germânico Walter Ulbricht, e os escritores Erich Weinert e Willy Bredel, agia lado a lado com o general Vinogradov, na tarefa de produção e distribuição, por via aérea, de panfletos dirigidos ao simples soldado alemão comum em que a desesperada situação lhe era explicada. Também usavam a rádio e foi, na verdade, por este meio, que von Paulus e o seu Estado-Maior se confrontaram com o aviso de que uma missão de paz da Frente do Dão do Exército Vermelho composta, por homens desarmados empunhando bandeiras brancas, surgiria em determinado local e a determinada hora. Nessa área, já as operações militares tinham sido suspensas.
Recebida a tiro, a missão de paz enviada por Rokossovsky não conseguiria estabelecer contacto e teve, por isso, de retirar. Entretanto, sem perder a calma, o Estado-Maior em Moscovo (Vassilievski e Antonov) sugeriu que a missão de paz se repetisse na zona Sul das posições alemãs onde se preparava para intervir o exército de Tolbukine e seria nestas circunstâncias que os voluntários pela paz voltariam à sua complexa e perigosa missão. Nestes termos, a 9 de Janeiro, os delegados de Rokossovski foram abordados, finalmente, por oficiais nazis a quem recusaram entregar a carta-ultimato de que eram portadores alegando que só o fariam ao próprio von Paulus no respectivo posto de comando. Não houve objecções. Os oficiais inimigos vendaram-lhes os olhos usando ligaduras e o major Smislov, acompanhado pelo capitão Diatlenko, partiu, assim, para o desconhecido de todos os desconhecidos.
Após cerca de trinta minutos de marcha, quando as ligaduras lhes foram, finalmente, retiradas, viram-se entre um grupo de oficiais superiores da ‘Wehrmacht’. E notaram que um deles, ao telefone, anunciava ter a missão de paz soviética chegado mas insistia em entregar a missiva de que era portadora a von Paulus, pessoalmente, e a ninguém mais. Os oficiais germânicos disseram, então, que os termos da oferta soviética já eram conhecidos posto que os tinham ouvido através da rádio e que a resposta era negativa. Nestes termos, rejeitado o ultimato de Rokossovski, restava ao Exército Vermelho lançar-se na gigantesca tarefa de libertação das terras vastas e férteis que o Dão e o Volga banhavam e da cidade de Stalinegrado onde a revolução de Outubro tinha triunfado para que o mundo novo fosse construído. O sangue de milhões de homens correria, então.
O assalto final
Nos primeiros dias do ataque final da Frente do Dão, os progressos foram limitados. Mas, na tarde de 12 de Janeiro de 1942, unidades dos dois exércitos soviéticos mais envolvidas na operação, o 65.º e o 21.º, conseguiam eliminar a saliência de Marinovski, que o inimigo ocupava. A zona de ataque do 21.º (Chistyanov) era a mais avançada em territórios onde o inimigo já oferecia a mais desesperada resistência. Aí, atingido o rio Rossochka, as tropas dos referidos exércitos teriam de proceder a algum reagrupamento de unidades antes de poderem continuar aquilo que seria o histórico e final assalto às posições de von Paulus. A 15 de Janeiro, tendo avançado apenas cerca de 20 quilómetros, o Exército Vermelho deparava, enfim, com o sistema interno de defesa nazi que era constituído por fortificações gigantescas, por zonas minadas, grupos de ninhos de metralhadoras, inúmeros tanques e outros veículos inutilizados que serviam de entrincheiramentos pelo que se posicionavam quase enterrados no gelo.
A aproximação das múltiplas unidades do Exército Vermelho que entrariam em acção tornava-se mais difícil, ainda, devido ao aparecimento de ‘zonas proibidas’ que muitas toneladas de arame farpado protegiam. O gelo envolvia toda a cena de guerra e a temperatura ambiente era, normalmente, de 22 graus centígrados negativos. Como era evidente, o general Rokossovski sabia que a destruição deste sistema defensivo só seria conseguida sustentando-se um abundante derramamento de sangue e que muitos filhos da URSS tombariam ali. Mesmo assim, as unidades dos generais Chistiakov e Batov, principalmente, entregavam-se à luta com extrema generosidade devido a que a instrução política recebida lhes indicara que estavam ali para defender o futuro, o seu próprio futuro e o de milhões de famílias soviéticas, um futuro que a bestialidade dos hitlerianos e a do capitalismo em geral pretendiam travar. Do lado germânico, entretanto, futuro era o que já ninguém via porque a morte espreitava. Só se recebiam abastecimentos, víveres, principalmente, através de aeronaves que, a coberto do profundo manto nocturno e apesar do bloqueio aéreo, ainda conseguiam aterrar nos dois ou três aeródromos que também integravam o sistema defensivo de von Paulus. A resistência, entretanto, não passava de um pesado, dramático adiar da inevitabilidade, como o ultimato soviético sugerira.
O fim aproximava-se. Quando apenas três quilómetros separavam as tropas dos dois generais soviéticos acima referidos daquelas que pertenciam ao lendário 62.º exército, de Vasili Chuikov, as forças germânicas sitiadas compreenderam, finalmente, que seriam cortadas pelo meio. Então, a fúria cresceu e, com efeito, na manhã de 26 de Janeiro de 1943, estabeleceram-se os primeiros contactos entre os dois grupos de tropas do Exército Vermelho que, em Krasni Oktyabr e em Mumayev Kurgan fecharam o anel de cerco que efectivamente dividia os sitiados nazis ao meio. Entre 10 e 25 de Janeiro, os nazis tinham perdido cerca de 100 000 homens e, a 31, perante seis exércitos que se acumulavam para o golpe final, von Paulus, achando-se sem reais alternativas e apesar das bravatas e das ameaças do Fuhrer, aceitou, finalmente, entregar-se.
Vejamos, agora, como o general Rokossovski descreveu a detenção do comando nazi e a consequente libertação final de toda a zona do Dão e do Volga e da cidade de Stalinegrado: «Prisioneiro, o marechal de campo von Paulus, acompanhado por todo o seu Estado-Maior, foi trazido nessa mesma noite de 31 para o quartel-general da Frente do Dão. Foi com uma compreensível impaciência que eu, Voronov e um intérprete, sentados a uma pequena mesa num também pequeno compartimento iluminado com uma só lâmpada, esperámos que von Paulus fosse trazido à nossa presença. Por fim, a porta abriu-se e um oficial de serviço apareceu informando-nos de que o preso acabava de chegar. O oficial afastou-se um pouco e indicou ao marechal de campo nazi que entrasse». O que Rokossovski, Voronov e o intérprete viram, então, foi um homem alto mas erecto num uniforme de general, que se perfilava em posição de sentido, atentamente. Os soviéticos convidaram-no a que, com eles, se sentasse à mesa sobre a qual se achavam diversas caixas de charutos e, de marcas russas, maços de cigarros. Diria, mais tarde, o general que defendera Moscovo, heroicamente, no inferno de Volokolamsk: «Ofereci-lhe os charutos e os cigarros e eu próprio dei lume a um e também fumei. Voronov não fumava. Depois, convidámos o preso a que tomasse connosco uma chávena de chá quente, o que o marechal aceitou e agradeceu. A nossa conversa não teve o carácter de um interrogatório. Falámos de assuntos correntes e, principalmente, sobre as condições dos prisioneiros de guerra. Paulus manifestou-se esperançado em que o não compelíssemos a responder a perguntas que pusessem em causa os seus juramentos de militar, mas isso, não o fizemos nem o faríamos. Apenas sugerimos que ordenasse ao grupo Norte das suas tropas que cessasse uma resistência que não fazia sentido. Ele disse-nos que, como prisioneiro de guerra, já não tinha o direito de dar ordens. O nosso encontro terminou. Paulus foi conduzido às confortáveis instalações que lhe tinham sido preparadas».