A defesa de Álvaro Cunhal sobe ao palco
Estreia amanhã, no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, o espectáculo «Um dia os réus serão vocês: o julgamento de Álvaro Cunhal», uma criação original da Companhia de Teatro de Almada. Em cena até domingo, segue depois em digressão pelo País.
Algumas partes do texto podiam ter sido escritas hoje
O desafio colocado à Companhia de Teatro de Almada com «Um dia os réus serão vocês: o julgamento de Álvaro Cunhal» é monumental: dramatizar um episódio marcante da história nacional protagonizado por uma figura admirável e fascinante, recorrendo a um texto que, embora notável, é (pelo menos aparentemente) de difícil adaptação para teatro. Quanto à recriação do episódio, com toda a sua carga dramática e heróica, o actor Luís Vicente, que será Álvaro Cunhal no palco, não é um problema de maior, pois o teatro não pretende ser uma reprodução da realidade.
Já relativamente ao papel que irá encarnar – alguém que, «não sendo “consensual”, é respeitado por toda a gente» pela sua coerência – é outra conversa. Responsabilidade acrescida? Não é bem isso, garante Luís Vicente, pois a responsabilidade «tem a ver com a racionalidade, com o juízo que fazemos das coisas. Isto é diferente, alia consciência política e histórica, consciência estética e artística, é algo que mexe connosco, mas mais do ponto de vista das emoções».
Rodrigo Francisco, encenador e director da companhia, reconhece que se sentiu «intimidado» em algumas fases da criação deste espectáculo, quer quando ficou responsável por ele, após o desaparecimento de Joaquim Benite, quer enquanto estudava e se documentava sobre a dimensão da personalidade e do pensamento de Álvaro Cunhal. «Não estamos a fazer um espectáculo sobre Álvaro Cunhal, não é possível fazê-lo. Vamos pôr em cena o julgamento», precisou.
Superados os obstáculos, e consciente da complexidade do empreendimento, o encenador confia que este espectáculo vai ser capaz de surpreender e emocionar o público – contando, para o conseguir, com um dos melhores actores portugueses, três figurantes, mascarados e silenciosos, um cenário simples, de tela branca (que «não é nada e é tudo», como diz Rodrigo Francisco), luzes, vídeo, fotografia, música, som gravado, um coro de crianças. E, claro, um texto que assumirá o protagonismo principal. O cenário, revela o encenador, «é uma estrutura que tenta pôr em relevo o texto. As palavras do Álvaro têm importância e significado, mas têm um valor plástico em si mesmo».
Impressionante actualidade
O texto da peça – ou 70 por cento dele – é o que Álvaro Cunhal proferiu perante o «tribunal» fascista que o julgou, em Maio de 1950, e que é um dos mais notáveis textos políticos da história do PCP e da própria resistência antifascista em Portugal. Produzido quando o dirigente comunista se encontrava no mais rigoroso isolamento da Penitenciária de Lisboa, sujeito a violências e maus tratos, sem acesso a papel, caneta ou jornais, trata-se de um documento de uma profundidade e vigor impressionantes. E de uma actualidade que por vezes arrepia.
Escrito e dito numa época especialmente dura da história nacional, o início dos anos 50 do século passado, o texto tem, porém, «algumas partes que podiam ter sido escritas hoje», salienta Rodrigo Francisco, que destaca de entre elas a entrega das riquezas do País ao estrangeiro e a submissão económica e política às grandes potências. Serão estes os excertos que terão maior relevo no espectáculo, revelou o encenador. Luís Vicente, por seu lado, considera reconfortante verificar «uma limpidez tão grande, um olhar crítico de um nosso compatriota sobre o seu próprio país, que é o nosso». O actor, que já interpretou inúmeras papéis, garante ser a primeira vez que o fará recorrendo às próprias palavras da personagem, «sem mediação de ninguém».
Mas o espectáculo não contém apenas o texto da defesa de Álvaro Cunhal em «tribunal». Para além deste, que é o fundamental, surgem excertos de «Se Fores Preso, Camarada» e «A Estrela de Seis Pontas», com os quais se procura recriar o ambiente que se vivia então na Penitenciária de Lisboa, onde Álvaro Cunhal esteve preso largos anos, em condições particularmente duras, lado a lado com presos de delito comum. As semelhanças entre este julgamento e o do comunista búlgaro Georgi Dimitrov levaram Rodrigo Francisco a ir buscar as falas dos juízes nazis e colocá-las na peça: «O que é curioso é que as intervenções dos juízes, tiradas do julgamento do Dimitrov, encaixam perfeitamente na estrutura argumentativa de Álvaro Cunhal.»
Emoção garantida
A prisão, o isolamento, a tortura, um julgamento de desfecho previsível são momentos particularmente dramáticos na vida de qualquer revolucionário. Mas, mesmo preso, Álvaro Cunhal teve momentos de felicidade e de imensa criatividade, patente na sua obra literária e plástica, valorizou Luís Vicente, garantindo que essa será também uma imagem que o espectáculo procurará retratar: «Há circunstâncias na vida das pessoas que, por muito trágicas que sejam, temos que lhes trocar as voltas.»
Outro aspecto que o espectáculo procurará agarrar, revela o actor, é a forma como Álvaro Cunhal terá levado a cabo a sua defesa. Segundo testemunhas, tê-lo-à feito «com uma calma olímpica» e, ao mesmo tempo, «transmitindo uma urgência muito grande, de alguém que não queria ser perturbado no seu raciocínio», salienta Luís Vicente. Das vezes que os juízes o interpelavam, acrescenta, «ele não lhes ligava nenhuma e continuava, como se eles não tivessem falado».
A um dia da estreia absoluta, este é já um marco no teatro nacional, ao dar expressão dramática a uma personalidade tão marcante e fascinante como Álvaro Cunhal. Para os que continuam hoje o combate que foi o dele, será sem dúvida um momento de particular emoção. Depois de domingo, o espectáculo ruma ao Algarve, onde estreará no 1.º de Maio, seguindo depois para outros pontos do País.