O sabor dos dias magros

Domingos Lobo

O Musgo dos Dias”, de Nuno Gomes dos Santos
Prémio Nacional de Poesia Mário Viegas/2012

Os prémios literários têm servido, em pátria de tolhimentos culturais diversos, e face à tímida iniciativa editorial tendente a abarcar a pluralidade de vozes poéticas que entre nós se expressam, como uma possibilidade de revelação e de divulgação da obra e de reconhecimento público dos seus autores.

A literatura portuguesa, a poesia sobretudo, atravessa hoje um período difícil e controverso face à concentração editorial e à proliferação mediática e comercial da sub-literatura da evasão, fabricada a régua e esquadro, fenómeno recente, inimaginável ainda há uma década, mas que frutifica nos reinos da tronchuda e do rabanete e segue com jactância, vendendo-se como pãezinhos quentes.

Pátria dita «de poetas», expressão que vale o que valem os lugares-comuns, raras são as edições de poesia que entre nós vão além dos 500 exemplares de tiragem, mesmo para autores reconhecidos e com obra vasta. Apesar da poesia ser, dizem, o nosso lídimo território expressivo. Isto, porque os poetas teimam em mutuamente se ignorar, em bravata suicidária, agravada pela ascensão aos lugares de mando de uma tecnocracia possidónia e delirante, culturalmente lorpa, boçal, que pretende reduzir-nos a meros consumidores acríticos e disponíveis para todos os manobristas do capital.

O negócio do livro atende à lógica trituradora do mercado e os seus tentáculos de polvo vão definindo, impondo e estruturando, de modo cada vez menos subtil, o deserto. Adorno afirmou que, depois da 2.ª Guerra Mundial, «escrever poesia era impossível». Vivemos hoje tempos igualmente bárbaros, pelo menos de sub-reptícias tentativas de regresso à barbárie, quando, diz-nos Francisco Duarte Mangas, uma «nuvem negra volta a estender mão fria sobre as nossas cabeças». Por isso, e ao contrário de Adorno, defendo que nunca precisámos tanto de poesia, da voz lúcida, corajosa e transcendente dos poetas; da voz desses desbravadores de caminhos para regressarmos ao sonho, à utopia, ao devir do qual, diariamente, nos querem, os vendilhões, expulsar.

A poesia é um acto de criação solitário, de silêncios brumosos, de debate íntimo e de íntimas interrogações, de exposição inquiridora, no sentido distanciador e brechtiano; uma tentativa de reconduzir o pensamento criativo, osmose sensorial e crítica, ao que o marxismo entendia ser o homem total. A interrogação permanente faz parte do jogo dialéctico entre autor e o cúmplice leitor. A este universo, a estes traços da assunção dialogal e interrogativa, pertence a poesia de Nuno Gomes dos Santos e este seu O Musgo dos Dias. Logo pelo título que nos convoca para esse exercício da aprendizagem, a um tempo contínua e fragmentada, dos dias e do seu evanescente musgo, para um efémero devir e para a descoberta de si, dos outros, com os outros, a partir de tão frágil matéria como a das palavras, sobretudo quando vertidas, com corajosa sageza, no corpo do poema, transportadoras de ideias, de simulacros de vida, desta nossa contínua e estranha forma de estar vivo, à espera, e permanecer expectante mesmo que perdidos nesse fluxo das ideias, da repetição mecânica dos dias, na espera da fuga desejada, tentando encontrar espaço para o grito, para os sentidos mais extensos da vida: e foi assim que a ideia/por ela, em ser ideia, se quedou./e tu permaneceste,/sentado no colo dos teus dias,/esquecido da urgência, entardecendo, ainda e sempre à espera da viagem. Porém/quem espera como tu nem sempre alcança. Há nesta voz as ressonâncias de um desespero em suspensão, de alerta para a necessidade de agir, de agitar os dias insanos: A bica não te acorda./Se acordasse/não sonharias planícies de sobreiros ou de espigas,/pinceladas de papoilas ou de azinho/enquanto o caminhar cansado das passadas/que deslocam o teu corpo/te conduz, obediente e sempre manso,/ao lugar cinzento onde/o quotidiano imóvel te sugere,/que faças o que terás de fazer, farás e já fizeste. É preciso acordar, diz-nos o poeta, para que a monódia dos dias se quebre e nos libertemos desta canga diária, cinzenta, imóvel, repetida, que nos quer mansos, submissos e tributáveis – sobretudo, tributáveis como escreveu o Álvaro de Campos noutras luas, noutras circunstâncias.

A poesia de Nuno Gomes dos Santos tem universos afins, atem-se a uma modernidade conceptual que, apesar de o ser, de autonomamente se afirmar, contém ressonâncias em outros momentos compatíveis com essa abordagem do poema e das suas intrínsecas recorrências, vibrações de outras confinantes estéticas, quiçá metafísicas dado que o poeta se recolhe para pensar, estua nesse limbo, nessa orgânica suspensão, sabendo que os dias passam em nós esculpindo rugas. Sabemos igualmente que há nesta escrita uma identidade, um fluxo discursivo da clareza, de afirmação, mas de diálogo contínuo com o outro, para o outro, mesmo quando lírico, um lírico rarefeito de água pura, atravessa o fluxo discursivo: Olhei-te assim, de frente, e percebi/o silêncio dos teus gestos/esculpindo trovas na espuma ainda quente/de marés vazias.

A poesia é, segundo Armando Silva Carvalho, um modo antigo de descer aos ossos, e é, igualmente, a forma mais perene de fixar a memória, de ordenar o caos, de o poeta se pôr em causa, de individualmente se responsabilizar perante si e os outros – poliédrico espelho de retornos. Nuno Gomes dos Santos sabe-o, mesmo quando a fala, esta inquieta língua, resvala para o sarcasmo com desnudado, acutilante, actualíssimo sentido crítico: Aníbal, diz-nos a elefantina memória de outros tempos, dizia/ que nunca se enganava. Mas, finados os paquidermes,/vem a história a revelar-nos seus enganos e Roma foi,/afinal, quem riu melhor.

A poesia de Nuno Gomes dos Santos faz-se lanho a lanho, palavra a palavra, ergue-se numa impressiva ductilidade, num quase pudor de assumir o lírico que a estrutura, daí as fugas, por vezes rebeldes, para a reflexão sobre os tempos rapaces e ignaros que vivemos, mas sabendo, num colectivo assombro que ouvimos o bater do coração dos dias.

Esta poética constrói-se através de referentes intertextuais, traves cúmplices de um modo íntimo de habitar as palavras, de as morder, de lhes dar forma, sentido(s), de tratar a realidade de um modo exaltante, a um tempo lírico e próximo, reconhecível: Depois, olharam a infertilidade das terras/e o sabor dos dias magros/envelhecendo no velório prematuro dos sonhos. Dos «dias magros» acreditando no despertar dos sonhos.



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