O «bom caminho» da troika e do Governo
O FMI e a UE aqui estiveram duas a três semanas, no quadro da 7.ª avaliação da troika, e decorridos vários dias de «suspense», concluíram: a execução do programa de ajustamento – pacto de agressão – «continua no bom caminho». É certo que o défice, a dívida e a recessão vão aumentar ainda mais do que previsto, mas tal são meros pormenores. O desemprego – o oficial, não o real – atingirá 19 por cento este ano, mas isso é também um pormenor. Os portugueses dever-se-ão focar, sim, na criação das condições para Portugal voltar aos mercados porque aí encontrarão solução para os seus problemas. Os técnicos da troika referiram ainda que «o amplo consenso político e social continua a ser um importante factor de êxito do programa». É caso para pensar se foi mesmo neste país e neste planeta que os senhores estiveram ou se se terão enganado no endereço.
No passado fim-de-semana, os deputados do PCP ao Parlamento Europeu realizaram mais umas jornadas de trabalho, desta feita, no distrito de Leiria. As jornadas de trabalho fazem parte da actividade regular do trabalho institucional do PCP, a qual permite – em coordenação com as organizações regionais do Partido – conhecer e intervir mais aprofundadamente sobre as realidades sociais e económicas dos vários distritos do País. O que conhecemos e encontramos neste trabalho contrasta diametralmente com as avaliações fantasiosas da troika – mostra-nos as consequências das políticas de direita na vida real de todos os dias. Mas encontramos também os exemplos de resistência e dignidade que hoje persistem em todo o País.
Talvez os senhores da troika e o Governo não saibam, mas a indústria dos moldes tem hoje uma dificuldade enorme em financiar-se porque os bancos – muitos deles, que nós todos recapitalizámos com dinheiros públicos – negam atribuir crédito à economia real. Ou que as empresas de embalagem de vidro portuguesas – devido à localização periférica do País – têm maiores dificuldades em reciclar e são, por isso, extremamente prejudicadas pelas políticas de mercantilização do carbono. Ou que, cada vez mais, em todas as empresas de sectores ligados ao vidro – como as limpezas e os carregamentos – os trabalhadores são contratados como prestadores de serviços, ganhando menos, com menos condições e com a perspectiva do desemprego ao virar da esquina. E que mesmo nas empresas lucrativas – como a Barbosa e Almeida – em consequência da aplicação do Código do Trabalho, diminuiu o valor das horas extraordinárias e foi aplicado o banco de horas. Que, hoje, o sector da cristalaria e da decoração vidreira está completamente asfixiado pelas altas tarifas do gás e da electricidade e que trabalhadores de empresas como a Galvidro vivem diariamente com a ameaça do despedimento colectivo. Será que os senhores da troika e do Governo estão exactamente cientes de que, em diversas autarquias – como na Marinha Grande – se recorre cada vez mais à utilização de desempregados ao abrigo dos programas do IEFP, ao invés de se celebrarem contratos de trabalho por se tratar de postos de trabalho permanentes? E será que sabem que, em consequência do tal Código do Trabalho que impuseram, o banco de horas é aplicado até no sector dos transportes, colocando em causa a segurança dos trabalhadores, dos passageiros e a segurança rodoviária em geral? Estarão cientes de que em várias escolas do ensino Básico e no Secundário – como nos foi relatado no distrito de Leiria – os pais pedem aos professores que levem alimentos para darem aos seus filhos? Saberão que a contracção do investimento público – cujos cortes ainda querem aumentar em mais quatro mil milhões de euros – tem levado ao declínio de várias empresas ligadas à construção civil e do Estaleiro Naval de Peniche? Saberão que depois da aposentação de médicos, sem substituição, no Centro de Saúde em Marrazes, cerca de 13 mil utentes ficarão sem médico de família? Sabem que nas instituições do ensino Superior – como no Instituto Politécnico de Leiria – os cortes no financiamento levam a que as receitas centrais não cheguem nem para pagar os vencimentos e que há cada vez mais alunos a abandonarem o ensino Superior? Terão noção os senhores da troika e o nosso Governo de que os Bombeiros Voluntários de Ansião – instituição na linha da frente ao nível do socorrismo numa região particularmente afectada por incêndios – não têm sequer dinheiro para comprar equipamento de protecção individual para cada bombeiro?
Não têm ideia. Mas mesmo que o Governo e a troika tivessem a noção exacta desta realidade, tal não alteraria a avaliação que fazem da aplicação do pacto de agressão. Para Gaspar, a avaliação foi bem sucedida porque «as medidas dirigidas ao sistema financeiro permitiram preservar a sua estabilidade», o que nos elucida sobre para quem é que a execução do «plano» vai no bom caminho e para quem trabalham Governo, União Europeia e FMI.