A mentira do ano

Correia da Fonseca

A dama chama-se Fá­tima, nome de­voto e ino­cente, é su­posto ser sábia nos me­an­dros de uma visão eco­nó­mica que consta ter sido ex­por­tada de Chi­cago para o mundo su­bal­terno e par­ti­ci­pava num pro­grama de aná­lise e de­bate dos pro­blemas que an­gus­tiam os ci­da­dãos por­tu­gueses, em­bora uns muito mais que ou­tros. Foi aí que a dada al­tura, por­ven­tura à falta de me­lhores sa­be­do­rias, a cri­a­tura disse e re­petiu que nós, os por­tu­gueses, du­rante vá­rios anos an­dámos a con­sumir acima das nossas pos­si­bi­li­dades, pre­su­mindo-se em con­sequência que as agruras que muitos já estão a viver, mais as que cla­ra­mente já se per­filam no ho­ri­zonte pró­ximo, de­correm dessa le­viana gula co­lec­tiva de todos nós. Na ver­dade, a sen­tença de­bi­tada por estas pa­la­vras ou por ou­tras destas muito pró­ximas foi capaz de nos sur­pre­ender. Es­tamos ha­bi­tu­ados, é certo, a ouvi-la na boca dos go­ver­nantes ou dos seus arautos e não nos es­pan­tamos por isso: sa­bemos que são gente que há muito se de­sen­ven­ci­lhou do pudor, que se rendeu à ne­ces­si­dade de es­co­lher a men­tira porque a ver­dade depõe inin­ter­rup­ta­mente contra ela, di­gamos que a al­dra­bice faz parte in­te­grante da tris­tís­sima missão que aceitou cum­prir. Aquela cri­a­tura, porém, des­con­cer­tava: di­fi­cil­mente po­deria passar por ig­no­rante, por mera maria-vai-com-as-ou­tras, pelo que a au­dácia de vir para di­ante das câ­maras de te­le­visão re­e­ditar uma im­pos­tura que só po­deria ter o efeito de de­sa­cre­ditá-la surgia como um fe­nó­meno de muito nos ma­ra­vi­lhar. E, é claro, ne­nhum dos res­tantes par­ti­ci­pantes no pro­grama, uns por­ven­tura mais à di­reita, ou­tros menos, se atreveu a cor­ro­borá-la. Pelos vistos, ne­nhum deles era tão tonto ou tão atre­vido.

Mais que uma ca­lúnia

De qual­quer modo, é sa­bido que a enorme men­tira se­gundo a qual os por­tu­gueses, todos os por­tu­gueses, an­daram du­rante largo tempo a gastar acima das sua pos­si­bi­li­dades já vem de longe nos meses e des­cende de uma es­tra­tégia do em­buste cuja pa­ter­ni­dade é atri­buída com razão ou sem ela ao nazi Jo­seph Go­eb­bels, que terá pro­cla­mado que uma men­tira re­pe­tida mil vezes se con­verte em ver­dade nas ca­beças de um povo ou, mais am­pla­mente, dos povos. Não sus­peito de que a dou­tora Fá­tima per­tença cons­ci­en­te­mente à fa­mília po­lí­tica de Go­eb­bels, e alargo aliás o mesmo prin­cípio de ino­cência a todos quantos desde há muitos meses andam a re­petir na TV ou fora dela, sem que se lhes vis­lumbre na cara o mí­nimo sinal de ver­gonha, a versão de que todos os por­tu­gueses se­riam res­pon­sá­veis por um so­bre­con­sumo que terá sido fatal ao País. Porém, esta minha boa von­tade não é tão ex­tensa que me es­queça de que a pa­tranha é ca­lu­niosa para mi­lhões de por­tu­gueses e, mais que isso, é in­fame. Porque in­sinua que a mi­séria que alastra pelo nosso País não é mais que a con­sequência de uma es­pécie de pe­cado co­lec­tivo pas­sível de uma justa pu­nição, e por essa via es­tende aos vam­piros uma es­pécie de jus­ti­fi­cação moral e po­lí­tica. Tem sido dito que esse é também o pen­sa­mento da Merkel, mas essa é alemã, do que por cá se passa apenas sabe o que lhe dizem e so­bre­tudo o que lhe convém saber; Fá­tima é por­tu­guesa e do que acon­tece em Por­tugal não pode ig­norar o que já é tra­gi­ca­mente evi­dente. Não obs­tante, re­correu à re­pug­nante al­dra­bice que tenta res­pon­sa­bi­lizar todos pelo que al­guns fi­zeram e que tem vindo a ser re­pe­tida de tal modo que bem me­rece ser con­si­de­rada, ainda que em con­cor­rência com muitas ou­tras, A Men­tira do Ano. Com­ple­men­tar­mente, sa­bemos também que, quando uma in­fâmia é pro­fe­rida no de­curso de um de­bate que se pre­tende plural, o si­lêncio dos res­tantes par­ti­ci­pantes não chega: a cum­pli­ci­dade por omissão existe e é grave. E é quanto a este ponto que se fica a notar es­pe­ci­al­mente a ha­bi­tual au­sência de um par­ti­ci­pante vindo da es­querda ver­da­deira, da que nunca, nem de longe, se pa­rece com a Merkel, porque tem raízes firmes que um dia, em­bora ainda não se saiba quando, hão-de gerar uma flo­ração. E não sou eu quem o diz: é a His­tória. Que, ao con­trário do que foi afir­mado não há muito tempo e aliás já des­men­tido pelo pró­prio autor do dis­late, não chegou ao fim. E cujo curso nunca nin­guém con­se­guiu travar.



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A pri­meira vez que vi este Pedro, o mesmo gas­tava uma barba à ge­neral Custer, com uma pe­rinha pre­ten­siosa e uns pelos re­cor­tados, que todas as ma­nhãs de­ve­riam levar uma boa meia hora de tra­balho. Coisas de putos e en­ga­ta­tões de bairro, po­deria eu pensar. Mas não gostei. O dito Custer era um im­plan­tador do im­pe­ri­a­lismo e um ge­no­cida, tal como o Hernan Cortez, o Pi­zarro e o nosso tal lou­vado Al­bu­querque, que ma­tavam tudo e todos, com tal de impor a sua von­tade e lei, para sacar o que ti­vesse valor. E não gos­tava que o «amigo» da minha amiga Sandra an­dasse mis­tu­rado com ge­no­cidas nos­tál­gicos.