Primários obedientes

Gustavo Carneiro

Nos dias mais pró­ximos aos da re­a­li­zação do XIX Con­gresso do PCP (antes, du­rante e de­pois) su­ce­deram-se nos di­fe­rentes ór­gãos de co­mu­ni­cação so­cial na­ci­o­nais ar­tigos e opi­niões sobre o Par­tido. Ou, me­lhor di­zendo, sobre ca­ri­ca­turas do que efec­ti­va­mente é o PCP, da­quilo que de­fende ou de como se or­ga­niza.

E houve-os para todos os gostos e à me­dida de todos os pre­con­ceitos. Uns to­tal­mente pri­matas. Ou­tros mais ou menos so­fis­ti­cados. Mas quase todos (salvo raras e hon­rosas ex­cep­ções) do mais pri­mário an­ti­co­mu­nismo. Não por os seus au­tores dis­cor­darem do PCP (di­reito que as­siste a qual­quer um), mas por não haver nessas prosas um mí­nimo es­forço de en­cetar uma aná­lise séria ao Par­tido e ao seu con­gresso ou de travar um ho­nesto de­bate ide­o­ló­gico, com ideias e pers­pec­tivas di­versas sobre as mais va­ri­adas te­má­ticas. Nada! Apenas pre­con­ceito, ódio e medo. Deles, sim. Mas so­bre­tudo de quem prin­ci­pes­ca­mente lhes paga para que digam o que dis­seram e para que calem o que ca­laram. Como bons (não lhe cha­marei «fun­ci­o­ná­rios», pois não me­recem) cães de fila que são.

E só esta sua «pro­fissão» pode ex­plicar que do PCP re­gistem factos tão in­te­res­santes como a lo­ca­li­zação de um seu Centro de Tra­balho pa­redes meias com lojas de roupa de luxo (pouco im­por­tando quem aí se ins­talou pri­meiro e as al­te­ra­ções ve­ri­fi­cadas, nos úl­timos anos, na na­tu­reza e origem dos in­qui­linos de tão fa­mosa ave­nida lis­boeta), e que do Con­gresso que re­a­lizou na se­mana pas­sada re­alcem ques­tões tão pre­mentes como… o seu início a uma sexta-feira.Nem se lhes exigia, por ma­ni­festo exa­gero, que ana­li­sassem o al­cance pro­fundo do pro­jecto de De­mo­cracia Avan­çada e So­ci­a­lismo re­a­fir­mado no Con­gresso ou até mesmo o sig­ni­fi­cado da po­lí­tica pa­trió­tica e de es­querda de­fen­dida pelo PCP e do ca­minho que este aponta para a sua con­cre­ti­zação. Mas po­diam ao menos re­ferir coisas se­gu­ra­mente tão de­sin­te­res­santes como a par­ti­ci­pação, na pre­pa­ração do Con­gresso, de 18 213 mi­li­tantes em 1257 as­sem­bleias, reu­niões e de­bates re­a­li­zados ex­pres­sa­mente para o efeito. Ou o facto tão pouco sig­ni­fi­ca­tivo que cer­ta­mente será o envio pelos mi­li­tantes de 1900 con­tri­bui­ções para as Teses e 600 para as al­te­ra­ções ao Pro­grama, o maior nú­mero re­gis­tado nos úl­timos três con­gressos. E, quem sabe, se não te­riam que dizer, mesmo que de pas­sagem, que o Par­tido «dos fun­ci­o­ná­rios» teve, afinal, entre os 1241 de­le­gados pre­sentes no Con­gresso apenas 191 destas cer­ta­mente tão de­tes­tá­veis cri­a­turas.

Se fossem pagos para serem ho­nestos e sé­rios po­de­riam ainda re­ferir, sei lá, que 34 por cento dos de­le­gados ti­nham menos de 40 anos ou que 161 deles não eram se­quer mi­li­tantes co­mu­nistas à data do an­te­rior con­gresso, em fi­nais de 2008. Mas isto im­pli­caria der­rubar o edi­fício de pre­con­ceitos contra o PCP que custou to­ne­ladas de papel e horas de emissão a er­guer, o que não agra­daria nada aos seus man­dantes, que afinal lhes pagam sim­ples­mente para que obe­deçam.

Que fi­quem des­can­sados pois não lhes fal­tará tra­balho! O PCP an­dará por cá por muitos e bons anos. Mais do que eles, dos que os seus pa­trões e do que este sis­tema ca­duco que tão ze­lo­sa­mente de­fendem.



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