Emprestar a Deus

Correia da Fonseca

Chama-se Isabel Jonet e foi a mais falada presença televisiva na passada semana. Não pela eventual excelência da sua presença mediática nem pelo brilho da sua capacidade oratória, mas pelo que disse e em princípio não poderia dizer. É frequente ouvir-se dizer que em democracia a asneira é livre, mas será decerto consensual que também essa liberdade há-de ser usada tendo em conta alguns limites, designadamente os que a decência aconselha e os elementares interesses nacionais impõem. Ora, aconteceu que Dona Isabel Jonet, que é a suprema patroa do Banco Alimentar Contra a Fome, colidiu com uns e outros causando verdadeiro escândalo público. Como se não tivesse a menor ideia dos abismos de miséria que já por todo o País foram cavados pela política de governos que se aplicam a tirar aos pobres para que não sejam incomodados os ricos e sobretudo os muito ricos, como se nem sequer soubesse das estatísticas oficiais que nos falam de cerca de dois milhões de portugueses abaixo do nível internacionalmente reconhecido como o limiar da pobreza, sobretudo como se a própria função que exerce não a tivesse posto em contacto directo ou indirecto com tragédias engendradas pela pobreza, Isabel atreveu-se a afirmar publicamente que o País precisa de empobrecer mais. O País isto é, inevitavelmente, as gentes que o habitam. Perdoe-se-me se capitulo perante a tentação de transgredir as regras que aconselham a que estoicamente se enfrentem com tolerância e até cortesia as mais indignantes infâmias, mas perante esta não resisto a dizer que, ao contrário de uma outra Isabel que há séculos entrou na memória colectiva dos portugueses como tendo sido santa, Dona Isabel Jonet, não tendo transformado pão em rosas, transformou palavras em esterco. Venenoso.

Santos investimentos

É incompreensível, ou quase, que Isabel Jonet tenha cometido este atentado brutal contra a sensibilidade da esmagadora maioria dos que a terão ouvido e até contra a sua própria imagem pública. Podemos admitir que não terá medido bem as suas palavras, o que na verdade significará que não sabe bem o que diz e não fica nada bem a quem quer que seja, muito menos à presidência que exerce. Podemos também admitir que o pensamento e a suposta estratégia do grupelho que neste momento governa Portugal ganharam excessiva influência no pensamento de Isabel Jonet, isto admitindo obviamente que Dona Isabel pensa. Mas não será absurdo admitir que Isabel Jonet, que está investida na simpática função de dar de comer a quem tem fome, expressamente prevista na santa doutrina como uma das obras de caridade, tenha bem presente a antiquíssima fórmula mais ou menos popular que ensina que «quem dá aos pobres empresta a Deus». Nestes tempos em que está muito desenvolvida a prática de empréstimos maiores ou menores, nacionais ou internacionais, desde as minúsculas casas de penhores até aos transnacionais mercados financeiros, parece possível que Dona Isabel encare a sua própria acção de suprema distribuidora de esmolas como um investimento no invisível e obviamente misterioso património divino. Neste contexto, será compreensível que a excelente senhora encare um maior empobrecimento do país como uma ampliação de oportunidades: mais pobres corresponderão a mais esmolas, a mais empréstimos a Deus praticados sob o seu comando, digamos utilizando o jargão da especialidade que a mais mercado. E, é claro, a mais dividendos que não deixarão de ser pontualmente pagos a Dona Isabel Jonet, estando fora de qualquer dúvida a absoluta e sacratíssima idoneidade do tomador do empréstimo. É certo que durante tais operações será inevitável que alguns sofram, mas todos os grandes negócios suscitam danos colaterais, como se diz quando se trata de guerras com explosivos, sangue e morte. E neste caso os danos nem serão assim tão graves, pois bem se sabe que os sofrimentos aquém-tumulares dos que tiverem de sofrer as agruras múltiplas da miséria serão largamente compensadas no céu, séculos dos séculos afora, durante toda a eternidade. Será, pois, um verdadeiro «happy end». Como adequadamente se dirá usando a clássica fórmula da língua falada no outro lado dos mares.