Escabrosos percursos das igrejas ibéricas

Jorge Messias

«O fascismo foi buscar à Igreja uma das bases fundamentais da sua concepção social: o corporativismo. Mas, como a Igreja sempre fez, o fascismo surgiu condenando o liberalismo e decretando a sua falência. E, face ao ascenso do Socialismo, a burguesia necessitou, simultaneamente, de preparar-se para o ataque militar de liquidação do Estado proletário, promovendo uma reestruturação dos restos da organização social que tinham sobrevivido à falência do liberalismo» (Luís Maranhão, dirigente comunista brasileiro, preso, torturado e fuzilado em 1974).

«Quando a economia capitalista entra em colapso e a classe trabalhadora marcha para o poder, então, os capitalistas voltam-se para o fascismo como saída. Mas o fascismo não pode resolver os seus problemas porque nele, do ponto de vista económico, nada se modifica. Na economia fascista, como na economia capitalista, são básicos a propriedade dos meios de produção e o lucro» (Leo Hubermann, jornalista e escritor norte-americano, «História da Riqueza do Homem»).

«A burguesia imperialista recorre ao terror nas situações de crise, quando a sua dominação é questionada mas, de modo geral, prefere governar apoiada no Parlamento, no Direito Eleitoral e noutros institutos democráticos que mascaram a sua ditadura. Tendo concentrado nas suas mãos o ascendente económico e o poder político e tentando prolongar, a todo o custo, a sobrevivência do sistema capitalista, a burguesia monopolista nunca deixou, em diversos momentos da História, de recorrer aos métodos terroristas de governo… aproveitando as fases em que a correlação de forças sociais se mostra extremamente desfavorável aos trabalhadores e aos partidos revolucionários» (Partido Comunista Brasileiro citando Lénine).

As vantagens que as igrejas católicas ibéricas obtêm com a presente crise do capitalismo são evidentes. Tal como revelam desvantagens como a de uma exposição pública excessiva da sua própria imagem.

A austeridade orçamental arruína os trabalhadores e as classes médias, enquanto passa ao lado das grandes fortunas e dos privilégios da Igreja católica, «blindada» por concordatas leoninas e reforçada na sua retaguarda por espessas teias conspirativas e pactos ocultos. Em Portugal, é o que se sabe e se revela actualmente nos processos do BPN ou do Espírito Santo, nas revelações de Fátima, na área da pedofilia, etc. Em Espanha, os «bancos» mais escandalosos são o Santander, o Bankia, o Sabadell e as grandes vedetas do Opus Dei e da Companhia de Jesus. Mas há outros bancos e outras redes cuja natureza surge agora à luz do sol. Muitos, muitos outros mais!…

Os resultados sociais e financeiros são fundamentais para a compreensão da crise, em Espanha e em Portugal: o desemprego real atinge 5 639 500 trabalhadores em Espanha (20,7% da população activa); em Portugal, com uma superfície igual à de uma grande província espanhola, estão desempregados mais de 1 200 000 trabalhadores (cerca de 25% da população activa). Os dados são da OCDE. Nos dois países, mais de seis milhões e meio de cidadãos estão forçadamente inactivos. Eles próprios e as suas famílias vivem abandonados a uma pobreza e a um desespero galopantes. E os empréstimos conseguidos no estrangeiro são sempre encaminhados para os bancos ou para os accionistas das empresas do grande capital. Não criam postos de trabalho nem desenvolvem o país. Portugal entrou em roda livre. Está claramente em banca-rota.

A riqueza produzida em todo o mundo é sugada pelo grande capital. O dinheiro abunda nos cofres-fortes dos banqueiros, sobretudo nos que são geridos pelo Banco do Vaticano e vão do Luxemburgo às Ilhas Caimão. Em todo o mundo, porém, 900 milhões de pessoas nada têm para comer.

O saque generalizado que os banqueiros laicos e os banqueiros-monges tentam impor ao povo faz-se através de variadas formas de extorsão e com as roupagens brilhantes da democracia, dos princípios da Ética, da sã distribuição da riqueza, etc. O escabroso caminho do capitalismo busca apoios aparentes em tudo aquilo que deseja eliminar.

Uma dessas formas de ocultação faz-se a partir das concordatas em vigor entre o Vaticano e os estados do Sul da Europa ou os estados emergentes de raízes católicas baseados em territórios dos antigos impérios coloniais onde a Igreja ainda detém poder político de decisão.

Curiosamente, este tema tem sido pouco abordado.

(continua)



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