«Andaluzia em Pé»
A terceira etapa da «Marcha Operária Andaluzia em Pé» terminou anteontem em Cádis, tendo partido de El Puerto de Santa Maria em direcção a Puerto Real, onde mais de cinco mil pessoas acolheram os caminhantes.
Uma marcha para despertar consciências
Pouco depois da partida, na manhã de segunda-feira, 27, o presidente do Sindicato Andaluz de Trabalhadores (SAT), Diego Cañamero, anunciou que a acção surpresa da jornada seria a ocupação de uma dependência bancária da La Caixa, ali na cidade de El Puerto de Santa Maria.
Pacificamente, um grupo de manifestantes entrou nas instalações abertas ao público, enchendo o recinto mas sem perturbar o seu funcionamento. Apesar disso, a polícia de choque, que tem «escoltado» de perto os participantes na marcha, usou da força para expulsar os ocupantes, acabando por deter 11 pessoas que conseguiram permanecer no local.
O próprio responsável pelo estabelecimento tentou interceder junto dos agentes, frisando que os manifestantes não tinham provocado qualquer distúrbio ou destruição, e que por isso se recusava a apresentar queixa.
Os detidos acabaram por ser libertados, depois de identificados no comissariado da polícia e acusados de desordem pública. A marcha retomou então a estrada para percorrer 14 quilómetros até Puerto Real, onde milhares de pessoas acolheram com entusiasmo a chegada da coluna de protesto.
Na Plaza de Jesus, em pleno centro, cerca de cinco mil pessoas assistiram às intervenções, proferidas por vários dirigentes sindicais, entre eles o conhecido alcaide de Marinadela, Sánchez Gordillo.
Gordillo voltou a explicar o carácter das acções do SAT: «As nossas acções são contundentes mas pacíficas e é por isso que o governo tenta caluniar-nos e difamar-nos. Este governo é um lacaio dócil dos bancos, que são os verdadeiros responsáveis desta mal chamada crise. Isto não é uma crise, isto é um roubo. E é por isso que não querem acabar com ela, porque não têm nenhum interesse nisso, porque todos os dias nos roubam milhares de milhões de euros».
Já na semana passada, dia 21, durante a passagem pela província de Córdova, os caminhantes ocuparam os jardins do Palácio de Moratalla, propriedade da família real, onde pernoitaram para sublinhar que uma das principais exigências do SAT é a eliminação dos latifúndios e a entrega da terra a quem a trabalha.
Ampla solidariedade
Entretanto, de vários sectores surgem sinais de simpatia e solidariedade activa com as acções do SAT. Logo no início da marcha, há duas semanas, o actor e produtor, Willy Toledo, juntou-se aos caminhantes. Na semana passada, foi a vez do coordenador de Esquerda Unida da Estremadura e deputado, Pedro Escobar, ter encabeçado uma delegação que engrossou a coluna.
Na sexta-feira, 25, meia centenas de activistas, entre os quais estavam o deputado da Esquerda Unida na Estremadura, Víctor Casco, e o ex-coordenador da IU na região, Manuel Cañada, entraram num supermercado Carrefour em Mérida, conseguindo sair sem pagar com quatro carrinhos cheios de alimentos básicos.
A acção, promovida pela Plataforma pelo Rendimento Básico, pretendeu repetir as «expropriações» efectuadas pelo SAT, no início do mês, nas cidades de Écija (Sevilha) e Arcos de la Frontera (Cádis). Segundo informou o deputado Victor Casco, a maioria dos participantes na acção foram detidos e identificados.
Em simultâneo, mais de 500 pessoas já aderiram à campanha de auto-inculpação, em solidariedade com os activistas do SAT que incorrem em penas de três a cinco anos por terem participado nas acções de «expropriação» em Sevilha e Cádiz.
Entre as centenas de subscritores do documento de auto-inculpação, conta-se Julio Anguita, secretário-geral do Partido Comunista de Espanha entre 1988 e 1998, e coordenador geral da Esquerda Unida entre 1989 e 2000.