Uma canção para Rachel Corrie
Estava eu a revisitar Ângela Davis quando soube da notícia da morte de Rachel Corrie. Enquanto recordava a militante negra, nascida nos Estados Unidos, mais precisamente no Alabama, um dos estados mais racistas da Norte-América, em 1944, um e-mail que, com propriedade, foi intitulado por quem mo enviou «isto nunca iria aparecer na TV», deu-me conta da morte de Rachel, de 23 anos, militante do Movimento pela Justiça e Paz, que partiu para o terreno onde lhe parecia que presenças como a sua poderiam fazer a diferença, juntou-se ao Movimento Internacional de Solidariedade (palestiniano) e foi para a faixa de Gaza, onde bulldozers israelitas destruíam (e destroem) casas de famílias palestinas «mesmo com gente dentro» (palavras suas).
Corrie pôs-se à frente de uma dessas escavadoras, mas a máquina não parou. Na sua ânsia de reduzir a escombros a casa apontada como alvo, seguiu adiante, esmagando o «pequeno obstáculo» que, por sinal, era um ser vivo, humano, revoltado, com sonhos a reclamar o seu direito de um dia serem realidades, com muita vida pela frente, ali a ter um ponto final precoce, estúpido e irracional.
Paul McCartney cantou um dia «Ebony and Ivory» («Ébano e Marfim»), num dueto com Stevie Wonder. A canção dizia que «ébano e marfim vivem juntos numa harmonia perfeita, lado a lado nas teclas, no piano, ó deus, porque não nós?», numa bela cantiga anti-racista. Fui por aí, porque «isto está tudo ligado» (Eduardo Guerra Carneiro) e juntei Ângela e Rachel nessa harmonia, a mulher de ébano e a de marfim, na harmonia perfeita de uma luta contra as opressões, racistas, xenófobas, fundamentalistas, intolerantes ou indignamente prepotentes e, por isso, perversas.
Falta uma canção
Ângela Davis, professora e militante do Partido Comunista dos EUA, esteve presa 18 meses, depois de ser uma das dez pessoas mais procuradas pela justiça (?) dos Estados Unidos, por razões rácicas e políticas escondidas por detrás de uma lei, pelo menos, dúbia, até ser declarada inocente, absolvida de todas as acusações que sobre si pendiam. No entretanto, gente mais atenta manifestou-se diariamente pela sua libertação e absolvição e a sua situação mereceu ser exposta em canções de referência na música pop-rock. John Lennon e Yoko Ono lançaram «Ângela», cantando «sister, you're still a people's teacher. There's a million diferent races, but we all share the same future in the world» («irmã, ainda és uma professora do povo. Há um milhão de raças diferentes, mas nós partilharemos o mesmo futuro no mundo»), e acrecentando «they gave you everything but the jailhouse key. They gave you everytihng but equality» («deram-te tudo menos a chave da prisão. Deram-te tudo menos igualdade»).
Também os Rolling Stones se aliaram a Ângela, compondo e interpretando «Sweet Black Angel» («Doce Anjo Negro»). Dizia a cantiga que «she's a sweet black angel, no a sweet black slave» («ela é um doce anjo negro, não uma doce escrava negra»), e exigia «free de sweet black slave» («libertem a doce escrava negra»).
Sabemos a força que uma canção pode ter, principalmente se quem a compõe e interpreta estiver em situação de poder mobilizar os que têm a felicidade de conjugar a música com a vida. Por isso, e para além de continuarmos a estar, de outras formas, ao lado de todas as Ângelas e Rachels do mundo, porque não desdenhamos as lágrimas que nos nascem por ouvirmos e entoarmos juntos as canções que lembram feridas que um futuro melhor há de fazer cicatrizar, digo apenas, e não é pouco: falta-nos uma canção para Rachel Corrie. A letra pode ter como mote as palavras do poeta António Cardoso: «cuidado com o verde a nascer à superfície de mim, depois de enterrado...»