Entrevista a Tiago Vieira e Filipe Ferreira

Defesa da soberania une povo sírio

Na Síria estão em acção muitos mercenários

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Face aos relatos difundidos pela generalidade da comunicação social relativos à situação na Síria, Tiago Vieira e Filipe Ferreira admitem ter partido com expectativas ensombradas quanto ao que iriam encontrar. Na verdade, constataram que a vida em Damasco e Lathakia – as cidades que visitaram integrados numa delegação composta por organizações de 24 países – prossegue com relativa normalidade.

As ruas apresentavam o movimento de «cidades agitadas», com «pessoas ocupadas pelo quotidiano», por aqueles dias «rodeadas de propaganda eleitoral», lembrou Tiago Vieira. «Os cafés, bares e lojas, os transportes e os serviços públicos funcionavam sem sobressaltos e os mercados encontravam-se abastecidos de produtos frescos», acrescentou Filipe Ferreira, isto apesar das autoridades admitirem que os ataques dos bandos armados nas zonas agrícolas têm afastado muita gente do trabalho no campo, com consequências na produção de bens, e das sanções impostas pelas potências imperialistas terem algum impacto económico, explicou o dirigente do CPPC.

A imagem de um país repleto de polícias e militares revelou-se igualmente falsa. «Alguns membros da delegação que integrámos notaram mesmo que nos seus países a presença de forças da ordem é muito mais ostensiva», disseram.

A quebrar a normalidade, apenas as medidas tomadas para a protecção dos edifícios públicos, o que não causa estranheza dados os ataques bombistas dos últimos meses na Síria.

«Um dia estávamos a jantar no centro de Damasco e um amigo telefonou-me muito preocupado com as informações que estavam a ser difundidas em Portugal. Disse-me que se falava de bombardeamentos e caos na cidade. Eu respondi-lhe que não se passava nada», relatou Tiago Vieira.

«Isto não quer dizer que não há combates. Há. Mas o ambiente de conflito e insegurança permanentes é falso», afirmou.

 

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Conflito manipulado

 

A manipulação da informação sobre os acontecimentos na Síria foi, aliás, uma das marcas mais impressivas da viagem, referiram. «Chegámos a sentir-nos perplexos com a diferença entre a realidade que observávamos e a informação veiculada pelos media», frisou Tiago Vieira.

Saliente na experiência de Tiago Vieira e Filipe Ferreira, também, «o grande sentimento de unidade daquele povo, não necessariamente em torno do governo, mas em defesa da soberania e independência do país», esclareceu o dirigente da JCP.

«Foi interessante ouvir as críticas ao governo sírio, mas, ao mesmo tempo que o faziam, as pessoas repudiavam os actos terroristas», aduziu ainda Tiago Vieira.

«Abordavam-nos na rua pensando que éramos observadores da ONU. Explicávamos que não e elas prosseguiam a conversa, pedindo que, nos nossos países, descontruíssemos a ideia criada em relação aos acontecimentos na Síria», disse, por seu lado Filipe Ferreira.

Para o dirigente do CPPC, outro facto relevante foi o apuramento dos dados do conflito. «As autoridades disseram-nos que, em média, são mortos pelos terroristas 15 soldados por dia» e «admitiram que actualmente os confrontos ocorrem no Norte do território e nas zonas de fronteira com o Líbano e a Turquia», sobretudo «com incursões relâmpago».

«Ninguém nos ocultou a realidade», insistiu Filipe Ferreira. Para além da liberdade de que gozaram para falar com a população, «vimos a entrega de corpos de soldados mortos às respectivas famílias. Visitámos hospitais e falámos com militares feridos que, na sua maioria, nos diziam ter combatido bandos onde operavam estrangeiros, facto que reforça a ideia de que na Síria estão em acção muitos mercenários».

Os representantes do governo com quem os membros da delegação falaram «também nos confirmaram que são precisamente esses mercenários os responsáveis pela esmagadora maioria dos mortos nas manifestações», chegando mesmo a «descarregar metralhadoras contra os manifestantes para criar o tal clima de medo e caos que tem sido propagandeado», precisou Tiago Vieira.

 

Futuro nas mãos do povo

 

Integrados no programa da visita acolhida pela União Nacional de Estudantes Sírios, estiveram, igualmente, contactos e reuniões com várias organizações políticas, sociais e sindicais sírias, com líderes religiosos e comunitários.

O balanço que Tiago Vieira e Filipe Ferreira fazem destes encontros é positivo, sobretudo porque permitiram perceber que a contestação a certas orientações governamentais é real e encarada pelo regime com normalidade, e que essas mesmas «políticas de cariz neoliberal, de privatizações» estiveram na base do «agravamento do desemprego ou a subida da inflação», destacou Tiago Vieira.

A questão é que, a dada altura, «as facções reaccionárias que pretendiam transformar o movimento reivindicativo num promotor da guerra civil e da intervenção estrangeira escorraçaram as organizações de cariz progressista».

Filipe Ferreira vai mesmo mais longe e recorda que «grande parte da oposição desvinculou-se do caminho violento e, percebendo que estava em causa a soberania e independência, encetaram um processo de diálogo com o governo e uniram-se em torno da ideia de que o futuro do país só pode ser decidido pelo povo sírio».



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