Jovens trabalhadores manifestaram-se no sábado em Lisboa

Este País também é para jovens!

Gustavo Carneiro (texto)
Inês Seixas e Rui Henriques (fotos)

O objectivo de encher o Largo Camões, em Lisboa, estabelecido pela Interjovem/CGTP-IN para a manifestação nacional de jovens trabalhadores realizada no sábado, foi cumprido. Vindos de todo o País e dos mais variados sectores de actividade, milhares de jovens percorreram as ruas da Baixa lisboeta dizendo bem alto que rejeitam o convite do Governo para emigrar e que não desistem de viver e trabalhar no seu País – com direitos e com salários dignos.

Image 10097

De todas as palavras de ordem entoadas pelos manifestantes ou inscritas em cartazes, uma resumia na perfeição as principais exigências dos jovens trabalhadores portugueses: Queremos trabalho, exigimos direitos. Fossem do sector ferroviário ou da hotelaria, enfermeiros ou operadores de call-centers, tivessem ou não emprego, os manifestantes reclamaram trabalho com direitos e deixaram bem claro que não desistirão destes objectivos. A luta é a nossa arma, quem trabalha não desarma, repetiram.

Durante a marcha, que se iniciou na Praça da Figueira e terminou no Largo Camões, passando pelo Rossio e pelas principais ruas do Chiado, os jovens não deixaram ninguém indiferente à sua combatividade e alegria. Muitos, vendo-os passar, não contiveram as palavras de incentivo e apoio. Quem sabe se os seus próprios filhos ou netos não sofrem dos mesmos problemas dos jovens que ali se manifestavam? O que é bem provável, sabendo-se que meio milhão de jovens até aos 35 anos estão desempregados e que a precariedade afecta mais de um milhão e 200 mil trabalhadores, jovens na sua maioria.

No início da Rua Garrett, Jerónimo de Sousa saudava os jovens manifestantes, que devolviam o cumprimento, num sinal claro de reconhecimento do papel ímpar do PCP na luta pelos direitos de quem trabalha. Integrado na marcha vinha Arménio Carlos, secretário-geral da Intersindical.

 

Não desarmamos

 

Chegados ao Largo Camões, que rapidamente ficou repleto, os manifestantes ouviram as intervenções da coordenadora da Interjovem, Anabela Laranjeira, e de Arménio Carlos. Falando em nome dos jovens trabalhadores, a jovem sindicalista começou por garantir que «estamos em luta e não desarmamos». Depois de uma greve geral em que «participámos em força, rejeitando as alterações à legislação laboral que nos retiram direitos e aumentam o desemprego, voltámos à rua, não só porque estamos descontentes e não podemos aceitar a situação em que nos encontramos mas porque temos soluções e exigências que têm de ser ouvidas».

E desengane-se quem pensar que a luta termina aqui. Como deixou bem claro Anabela Laranjeira, «voltaremos à rua e voltaremos aos nossos locais de trabalho para lutar e para mostrar que é possível combater o desânimo, que é possível resistir, sindicalizar mais companheiros de trabalho, trazer à luta mais amigos». Ainda segundo a dirigente sindical, «há milhares de jovens no nosso País, muitos deles hoje aqui presentes, com disponibilidade, capacidade e criatividade suficiente para construir um futuro melhor».

Pelo mesmo diapasão afinou Arménio Carlos, valorizando a «grande participação juvenil» na greve geral de 22 de Março, apesar da precariedade em que trabalham muitos dos que a ela aderiram. Depois da greve e do seu impacto, o fundamental é continuar a luta nos locais de trabalho pela passagem a efectivos dos trabalhadores com vínculos precários e pelo aumento dos salários, acrescentou.

O secretário-geral da CGTP-IN, após explicitar o conteúdo negativo das alterações à legislação laboral (cozinhadas pelo Governo, patronato e UGT e aprovadas na generalidade pela troika PS, PSD e CDS), garantiu que a luta vai prosseguir contra a sua aplicação nos locais de trabalho.

O Hino da Intersindical, A Internacional e A Portuguesa marcaram o fim de mais esta grande acção de luta, com a promessa de que no 25 de Abril e no 1.º de Maio os jovens trabalhadores estarão novamente na rua a exigir direitos. Até lá, como repetiram em uníssono por diversas vezes, a luta continua nas empresas e na rua.

 

Ser jovem em Portugal...

 

Meio milhão de jovens estão no desemprego, representando 59 por cento do total dos desempregados.

A maioria dos 400 mil trabalhadores que ganham o salário mínimo são jovens ou mulheres. Depois dos descontos, o que levam para casa coloca-os abaixo do limiar de pobreza.

Mais de um milhão e 200 mil trabalhadores têm vínculos precários. A maioria é jovem.

Mais de 60 por cento dos jovens vivem em casa dos pais por não terem condições para iniciar uma vida independente.

 

Trabalho com direitos!

 

Na moção aprovada pelos manifestantes no Largo Camões, a Interjovem/CGTP-IN reafirmou as suas principais exigências: um forte combate à precariedade e ao desemprego, pelo trabalho digno com direitos; a exigência de que a um posto de trabalho permanente corresponda um vínculo de trabalho efectivo, rejeitando as propostas do Governo que promovem a precariedade ao incentivarem a contratação a prazo através do financiamento dos salários com dinheiros públicos.

A moção exige ainda horários de trabalho dignos que permitam aos jovens ter uma vida pessoal, rejeitando a imposição do banco de horas, o trabalho gratuito durante os dias de folga e os feriados, a redução em 50% do pagamento do trabalho extraordinário e a eliminação dos descansos compensatórios. Reclama-se ainda o aumento real dos salários, nomeadamente a actualização do salário mínimo nacional, começando com a proposta de aumento de um euro por dia.

A estrutura juvenil da CGTP-IN rejeita ainda a limitação do acesso a direitos elementares como o trabalho, a educação, a saúde, a habitação e a cultura.



Mais artigos de: Em Foco

<font color=0093dd>Grande dia de luta em Lisboa</font>

Mais de 200 mil pessoas manifestaram-se, sábado, em Lisboa contra a Proposta de Lei n.º 44/XII – Reorganização Administrativa Territorial, que substitui o Documento Verde –, já aprovada na generalidade, que pretende extinguir cerca de um terço das 4259 freguesias do País. Momento singular de luta, este protesto juntou a alegria e a determinação de um povo em defesa do Poder Local democrático, conquistado com a Revolução de Abril, que, agora, a pretexto das imposições da troika, o Governo quer destruir.