A tragédia em tom menor
Na passada segunda-feira, o «Prós e Contras» trazia um título forte: «A tragédia humana do desemprego». Os mais prudentes, os que acham que a televisão há-de servir mais para fazer esquecer que para fazer lembrar, poderiam até temer que o programa fosse desaconselhável para pessoas mais sensíveis e impressionáveis. Afinal, não havia razão para tais receios. Desta vez, o «Prós e Contras» nem sequer incluiu uma daquelas reportagens que frequentemente introduzem o debate do tema escolhidos, e bem se sabe como neste caso uma reportagem podia trazer-nos situações pungentes, dessas que sobressaltam até os pouco atentos às questões. É certo que a dado passo vieram da plateia os testemunhos de três ou quatro cidadãos desempregados, mas eram, felizmente para eles, trabalhadores não apenas com bom aspecto, isto é, sem sinais exteriores de pobreza e angústia, mas também pessoas que pareciam ter conseguido um relacionamento relativamente pacífico com o desemprego. Ao longo do programa, aludiu-se aos aspectos dramáticos do desemprego, mas sempre com uma grande serenidade, um pouco como quem fala de uma doença que ande por aí a percorrer a sociedade mas sem que alguma vez sejam mostrados os seus efeitos por imagens corajosas e rudes. Para mais, e este aspecto terá sido porventura o mais importante, ao longo do programa foi revelado que para o desemprego existe um remédio de que não se dirá ser remédio santo mas que foi claramente sugerido ser eficaz: o empreendedorismo. O empreendedorismo é óptimo porque pode transformar um trabalhador desempregado num pequeno empresário com futuro promissor, o que logo o integra na sociedade dos negócios que é o grande projecto do modelo socioeconómico dominante. Será talvez o fim da tragédia de que falava o título do programa, embora substituída por uma comédia um pouco sinistra com altas probabilidades de acabar mal. É certo que também ali foi falada a empregabilidade, predicado que permite a vantagem de se concluir que se um sujeito está desempregado há longo tempo a culpa é sua, pois que se desmazelou no cuidado de acumular mais numerosos e mais actualizados conhecimentos profissionais e para profissionais. Na verdade, as estatísticas informam-nos de que as listas de desempregados estão cheias de trabalhadores com altas qualificações técnicas e académicas, mas nem por isso a invocação da empregabilidade deixa de ter um efeito atenuante ou mesmo dissuasor da responsabilização deste formato de sociedade que tem o desemprego como seu produto mais importante e significativo.
Este homem é perigoso
Foi a estreia de Arménio Carlos, o novo Secretário-geral da CGTP, num «Prós e Contras», e terá havido alguma curiosidade quando à sua prestação, ainda que não tenha sido a sua primeira presença na TV. De qualquer modo, é certo que foi a Arménio Carlos que Judite de Sousa entregou a primeira intervenção da noite, e não será absurdo admitir que disso se terá ela arrependido, pois ao longo de todo o restante tempo do programa nunca mais Arménio Carlos voltou a ter oportunidade para repor verdades ou introduzir factos, nem sequer lhe tendo sido permitido responder, no final, a uma última provocaçãozinha de um dos patrões presentes. Arménio Carlos tem uma voz clara e firme, o que obviamente ajuda nas prestações televisivas, e apresenta razões firmes e claras, daquelas com que poucas vezes os telespectadores portugueses deparam ao longo de horas e horas de televisão. Quando, logo nos minutos iniciais, demonstrou que muitos dos trabalhadores portugueses estão em curso de empobrecimento mesmo quando (ainda) têm emprego, por força do grau de exploração a que estão submetidos, esse dado fundamental não teve contradita e foi esclarecedor. Ao longo do programa, vimo-lo a tomar abundantes notas decerto porque esperava poder apoiar-se nelas em intervenções seguintes que não chegaram a acontecer. Mas bem se poderá dizer que, mais tarde ou mais cedo, num «Prós e Contras» ou noutro programa, se Arménio Carlos nele estiver as imposturas não perdem pela demora. Se a RTP ou outra das operadoras de TV deixarem, naturalmente, o que poderá revelar-se difícil. Porque, está visto, este homem é perigoso para as mentiras dominantes.
Este homem é perigoso
Foi a estreia de Arménio Carlos, o novo Secretário-geral da CGTP, num «Prós e Contras», e terá havido alguma curiosidade quando à sua prestação, ainda que não tenha sido a sua primeira presença na TV. De qualquer modo, é certo que foi a Arménio Carlos que Judite de Sousa entregou a primeira intervenção da noite, e não será absurdo admitir que disso se terá ela arrependido, pois ao longo de todo o restante tempo do programa nunca mais Arménio Carlos voltou a ter oportunidade para repor verdades ou introduzir factos, nem sequer lhe tendo sido permitido responder, no final, a uma última provocaçãozinha de um dos patrões presentes. Arménio Carlos tem uma voz clara e firme, o que obviamente ajuda nas prestações televisivas, e apresenta razões firmes e claras, daquelas com que poucas vezes os telespectadores portugueses deparam ao longo de horas e horas de televisão. Quando, logo nos minutos iniciais, demonstrou que muitos dos trabalhadores portugueses estão em curso de empobrecimento mesmo quando (ainda) têm emprego, por força do grau de exploração a que estão submetidos, esse dado fundamental não teve contradita e foi esclarecedor. Ao longo do programa, vimo-lo a tomar abundantes notas decerto porque esperava poder apoiar-se nelas em intervenções seguintes que não chegaram a acontecer. Mas bem se poderá dizer que, mais tarde ou mais cedo, num «Prós e Contras» ou noutro programa, se Arménio Carlos nele estiver as imposturas não perdem pela demora. Se a RTP ou outra das operadoras de TV deixarem, naturalmente, o que poderá revelar-se difícil. Porque, está visto, este homem é perigoso para as mentiras dominantes.