A cassete
Veio das relativas lonjuras de Cascais para Carnaxide a fim de participar num dos habituais debates bilaterais no Jornal das Nove da SIC Notícias. Não é um sujeito qualquer: tem relevante currículo e apelido a condizer, excelente apresentação e bons modos, tudo a convergir para a alta probabilidade não apenas de um diálogo civilizado mas também para a expressão de opiniões serenas e fundamentadas, não contaminadas pelos vírus de novas ou velhas linhas propagandísticas que nem por serem muito repetidas ao longo dos anos, até dos decénios, se tornam menos mentirosas. Naquela noite, calhou-lhe debater com um deputado comunista, o que em princípio poderia desencadear-lhe alguma adicional veemência, pois bem se sabe que isto de comunistas são gente que desde há muito se obstina nas mesmas convicções, não cedendo em flexibilidades por eles entendidas como pequenas ou até grandes traições, mas nem o facto de ser um desses o seu interlocutor dessa noite o demoveu da serenidade e muito menos das correctas maneiras e da argumentação razoável. Tudo decorria, enfim, de tal modo que bem se podia dizer que dava gosto assistir a um debate assim, até porque o deputado comunista era também daqueles que mais gosto dá ouvir. Como era natural dadas as circunstâncias actuais do País e do mundo, falava-se de finanças e de economias, das opções diferentes e mesmo opostas que cada um defendia. Por vezes, uma discordância maior ou uma inverdade menor introduzia no debate um grão de impaciência, mas nunca de modo a que o ambiente aquecesse para lá do razoável e do desejável. É claro que, como aliás bem se compreendia, o que viera de Cascais era um firme devoto das maravilhas que podem decorrer da iniciativa privada, enquanto o comunista entendia que só uma economia coordenada pelo Estado verdadeiramente democrático como seu motor principal pode promover um desenvolvimento sem graves contradições. E foi então que o de Cascais disparou o argumento do costume: que teria sido provado pela História contemporânea que uma economia planeada e controlada pelo Estado falhara estrondosamente. Era mais uma vez a velha cassete da derrota da economia socialista da União Soviética perante a comprovada superioridade do modelo capitalista. Trata-se, porém, de um argumento viciado, isto é, de uma cassete mentirosa. Vejamos.
Uma façanha nunca vista
Como só é ignorado pelos que, nesta matéria, optaram por ignorar, o triunfo da Revolução de Outubro entregou aos vencedores um país verdadeiramente subdesenvolvido, dominado por estruturas feudais, empenhado numa guerra contra a Alemanha, com seculares tradições de brutalidade na repressão interna. A Revolução teve de enfrentar uma guerra civil contra os czaristas e resistir a diversos episódios de intervenção militar estrangeira (francesa, inglesa, mesmo norte-americana). Terminada esta fase, só em 1922 foi constituída a URSS num conjunto de territórios destruídos e exauridos. Seguiram-se anos de bloqueio económico praticado pelo Ocidente, de tudo isto resultando tempos de fomes e mesmo de conflitos internos que sob diversos aspectos se prolongariam por mais de uma década. Bem se pode dizer que só em 27, com a adopção do primeiro Plano Quinquenal no âmbito de uma economia fortemente estatizada é que foi possível iniciar o efectivo avanço da União Soviética. Em 41, porém, foi o grande pesadelo: a invasão nazi assassinou muitos milhões, arrasou grande parte da URSS: a paz havia sido como que apenas uma breve pausa entre catástrofes. Só em 45 foi possível iniciar a reconstrução. Ainda assim, porém, nos princípios da década de 50 era incontroverso que a URSS, com a sua economia estatizada, num percurso semeado por grandes horrores, passara em poucos anos do subdesenvolvimento para a situação de segunda superpotência mundial. Nunca se havia visto façanha semelhante ao longo de séculos e séculos de História!, e só o gigantesco desgaste económico-financeiro causado pela corrida aos super-armamentos que lhe foi imposta conduziu a URSS à derrota e ao desmembramento. A economia estatizada fizera a sua glória, a entrega aos interesses privados confirmaram a decadência, geraram a hipercorrupção. A estafada cassete é falsa.