Clandestinidade, quase
1.Como bem se sabe, durante as décadas da ditadura fascista não houve propriamente deputados: havia uns sujeitos escolhidos a dedo pelo doutor Salazar e mais tarde pelo doutor Caetano para encenarem um arremedo tosco de vida parlamentar. Nos últimos anos do regime, já Salazar havia regressado a Santa Comba embalado numa caixa de madeira, houve dois ou três desses nomeados que tentaram a aventura de alguma independência perante o seu efectivo patronato, mas a pequenina aventura não resultou em mais que alguma simpática notoriedade para os próprios e um tácito passaporte para um território político de liberdade que viesse a seguir, como de facto aconteceu. Foi, enfim, coisa pouca e irrelevante. E foi-o, é claro, porque lhe faltava a radicação no voto expresso em circunstâncias de liberdade e, sublinhe-se, de amplo esclarecimento, sem as quais não pode haver deputados tudo se ficando pela existência de marionetas. Por isso era tão pouco falada durante os anos do fascismo a existência de «deputados», talvez também porque até o salazarismo/marcelismo se envergonhava da encenação. E essa espécie de fastio era complementada por uma nunca extinta agressividade para com o tempo em que, melhores ou piores, houvera deputados em Portugal, isto é, até ao 28 de Maio. Esse teria sido o período chamado dos «políticos», palavra associada a todas ou quase todas as conotações negativas se não insultuosas, presumindo-se então que deixara de haver políticos no País, que Salazar não era político, que os seus ministros também não o eram, que muito menos o seriam os súbditos que Sua Excelência designara para se sentarem em São Bento. Aliás, mesmo São Bento era escassamente conhecido pelas gentes, mais se sabendo da Calçada da Estrela, lugar compreensivelmente íngreme de onde o Senhor Doutor vigiaria, paternal, a sua quinta.
Num momento macabro
Veio Abril, veio a libertação, veio a esperança, muitas coisas mudaram para todos e cada um de nós, mas muitas outras foram ficando enquanto outras regressavam gota a gota. Vieram deputados eleitos pelo povo em voto livre, embora quanto ao amplo e livre esclarecimento do povo cedo se tenham levantado barreiras. De qualquer modo, é certo que chegaram deputados a sério e não de faz-de-conta, que aos deputados foi reconhecido o direito de surgirem na TV não apenas para se explicarem mas também para explicarem aos cidadãos o seu entendimento do País e dos seus problemas, das causas e consequências, afinal e em rigor a vida de cada um de nós. Uns o farão melhor que outros, não é essa agora a questão: a questão é que nunca a televisão pública situou a presença dos deputados em canal e horário que propiciassem largas audiências. Sempre foi assim com os deputados à Assembleia da República e a mesma espécie de concessão de antena a contragosto foi adoptada relativamente aos deputados eleitos para o Parlamento Europeu. As rubricas «Parlamento» e «Eurodeputados», onde por força surge regularmente um deputado comunista a expor as posições do seu partido relativamente a questões importantes para o País e portanto para cada cidadão, são inseridas em posições discretíssimas nas «grelhas» da RTP2, o canal das estreitas minorias de telespectadores. E essa óbvia subalternidade relativamente a tudo quanto, sendo telelixo ou apenas irrelevância, ocupa bem melhores horários mesmo na «2», parece poder ser interpretada como condizendo com uma presumida indiferença dos próprios telespectadores: afinal, são apenas os deputados… Mais e pior: esse tratamento que quase corresponde à supressão da presença dos eleitos na televisão estatal vem confirmar tacitamente a sua irrelevância ou, em pior hipótese, reforçar o seu descrédito na opinião pública: não devem ser importantes, nem eles nem as suas palavras, pois que a RTP os trata tão mal. Em suma, é certo que graças a Abril temos deputados a sério, mas a sua eliminação de canais e horários com boas audiências remete-os para uma factual situação de quase clandestinidade. Por vezes, em momento de pendor mais macabro, imagino que na sua campa de Santa Comba o velho ditador que tanto odiava a ideia de deputados livremente eleitos, apercebendo-se dos critérios da RTP, esfrega os ossos das mãos, de contente.