Na nossa infância e adolescência, no fascismo, o património edificado era objecto de desprezo e abandono, ou de intervenções destruidoras e propagandísticas, acompanhadas do endeusamento da história dos reis e dos descobrimentos.
Durante muitos anos, olhei com veneração o que restava de uma chamada porta de D. Dinis, um arco e pouco mais, ainda existente na minha vila. Mas o que sobretudo me marcou na época foram as conversas com um sapateiro anarquista que morava logo ali, junto aos restos da antiga muralha. Era um homem pobre e revoltado que, em 1938, tentou dar o nome de Lénine ao seu primeiro filho, quando foi baptizado, na Igreja. O padre, devidamente documentado, disse que esse nome não podia ser, porque era estrangeiro. Então, o sapateiro anarquista, na sua confusão política, entusiasmado com o populismo ascendente de Getúlio Vargas e com a propaganda de Mussolini, que prometiam um novo e radioso socialismo nacionalista aos povos, juntou os dois nomes e propôs ao padre que o filho se chamasse Getúlio Mussolini.
O padre nem pestanejou. Disse que sim, que esse podia ser, (já não era estrangeiro…), e lá ficou o rapaz com um nome que o marcou para toda a vida desgraçada que teve.
Felizmente, as leituras dos livros da biblioteca da Câmara, com os inconvenientes de serem vigiadas pelo secretário, que era sargento da Legião e monárquico, levaram-nos a novas descobertas e ao entendimento de que o património edificado e em ruínas tinha a ver com outros desenvolvimentos humanos e históricos, com imensos patrimónios imateriais e culturais.
Uma noite, na escada de pedra de uma casa da rua, na vila, onde se juntavam os adultos e as crianças para conviver e descansar, de repente, um operário da construção, um trolha, disse uma quadra da sua autoria. Fiquei surpreendido e marcado por aquele momento mágico. Um homem do trabalho a fazer poesia? Uma ruptura assim para onde nos levava? Desde então, o homem que tocava trompete em casa, à janela, ensaiando para actuar na banda de música, ou o amigo que chegara de Miranda do Douro e que tocava gaita de foles na praça nova, deram maior alento à nossa vida de crianças e de rapazes e raparigas já metidos no trabalho das oficinas e do campo.
Falo disto para dizer que nunca podemos aceitar uma visão estática e a morte, em vida, das pedras, bem como as comemorações meramente evocativas. Quando conheci a poesia alentejana pela mão de Manuel da Fonseca, nos seus livros bem amados, mal podia imaginar que um dia, no Centro Cultural de Évora, haveria de traçar, com Mário Barradas, um percurso que levou à descoberta de poetas populares alentejanos em três distritos do Alentejo, Évora, Beja e Portalegre, e à edição de um livro já então reduzido a um terço, por imposição política e financeira de quem mandava num serviço que viria a ser o Instituto do Livro, na Secretaria de Estado da Cultura.
Nesses anos mais lindos que foram os da conquista da liberdade e dos direitos a uma vida digna, à cultura e ao saber, construímos estruturas importantes no Poder Central, como a Direcção-Geral da Acção Cultural, voltada para a descentralização, o apoio a actividades, espaços e formação de quadros em todo o País. A rede de centros culturais regionais, iniciada em Évora, o apoio a centenas de grandes associações e a colectividades, bandas de música, grupos de teatro profissional e amador, o aparecimento de dinâmicas locais e regionais, significaram muitos passos em frente no conhecimento da nossa História, na interligação com as associações de defesa, projecção e fruição dos patrimónios que então se tornaram vivos e integradores de uma nova prática de vida e de progresso.
Política cultural e opção de classe
Foi assim, com altos e baixos, durante alguns anos. A grande questão da política cultural é que ela não está, nem nunca estará, desligada da alienação ou da evolução dos povos. Será sempre uma política com opção de classe. Nós vimos que, logo no 1.º governo constitucional, em 1976, com Sottomayor Cardia na Educação e António Reis como secretário de Estado da Cultura, surgiram os primeiros ataques ao Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis, o FAOJ, à Direcção-Geral de Desporto, no seu trabalho científico e revolucionário de desporto para todos, aos programas de educação que abriam as escolas a novas disciplinas e práticas, ao apoio nascente aos centros culturais e a estruturas associativas descentralizadas.
Com Coimbra Martins e, depois, com Teresa Patrício Gouveia e, sobretudo, com Santana Lopes, essa conquista de Abril que foi o direito generalizado à fruição e à criação cultural sofreu imensos golpes e ficou sobretudo nas mãos das autarquias, numa grande responsabilidade que já vinham assumindo, onde o Poder Local era progressista e democrático.
Foi assim em Évora, como foi em tantas e tantas cidades, vilas e aldeias. Sempre a questão essencial está onde termina o poder das elites, os redutos culturais em que assumem leoninamente os direitos à cultura e ao saber, e a ruptura com tudo isso, para que sejam criadas condições para o acesso democrático ao conhecimento humano, ao saber e à cultura.
Em Évora e no Alentejo, assistimos a grandes mudanças e transformações em todos os campos e áreas da nossa vida. Os mundos fechados dos agrários, a exploração mortal dos trabalhadores e dos povos, a fome e as péssimas condições de vida foram suplantados pelo esforço humano, pela génese e a interligação entre o trabalho, o saber e a cultura, para elevar e dignificar aqueles que sempre tinham sido afastados da vida que conquistavam a golpes de resistência, clandestinidade e sofrimento.
Foram defendidos e divulgados patrimónios materiais e imateriais das cidades, das vilas, das aldeias e das terras. Foram rapidamente ultrapassadas visões de elites opressoras e paradas no tempo, para serem rasgados novos caminhos de conhecimento, de cultura e de felicidade humana. Hoje, com os ataques e a destruição de conquistas da Revolução do 25 de Abril, tudo se encaminha para a redução do acesso à escola, à cultura, à habitação digna, à saúde; tudo se encaminha para o retorno criminoso à ideia de património que antigamente restringia as nossas vidas, em que ansiávamos a ruptura com esse estado de coisas.
Tal como Évora surgiu e se fez ao longo dos séculos com os homens e as mulheres que aqui habitaram e habitam, impõe-se recusar e combater novamente essas orientações de obscurantismo e de ignorância que marcam já à nascença, nas escolas e na vida quotidiana, um retrocesso perigoso quanto à necessária criação de novas práticas, de novos públicos e aparecimento de novos criadores de que necessitamos para que a vida de todos nós seja harmoniosa e progressiva.
Recordar Mário Barradas
Em Moçambique, na então Lourenço Marques, em plena guerra colonial, conheci Mário Barradas, José Caldeira e outros artistas e técnicos, numa companhia que se chamava Teatro Amador de Lourenço Marques. Nessa companhia, no Teatro Avenida, por artes e grande luta de Mário Barradas e de outros elementos do grupo, vimos pela primeira vez na vida representar Brecht, o que era proibido em Portugal. Coisas da censura colonial, tão ignorante que também deixou exibir cinema soviético, de que vi um filme apenas, «A carta que nunca chegou», que nos trouxe notícia de outras vidas e paixões, de novos mundos e da investigação científica em regiões remotas.
Há milagres assim, como há e têm de existir sempre homens e mulheres que se inquietam com a redução de 40% da já irrisória dotação para a cultura, a nível dos governos PS e do PSD e CDS-PP, nos dois últimos anos. Homens e mulheres cada vez mais conhecedores e intervenientes, nos centros de cultura e das artes, nos museus, nas universidades, nas escolas, nas autarquias e nas colectividades.
Lutar pelo apoio público à criação contemporânea e pela inventariação, defesa e salvaguarda do património cultural; luta pela melhoria das condições de exercício, estabilidade profissional e protecção social para os criadores, artistas e outros trabalhadores da cultura; luta por um financiamento público adequado aos objectivos constitucionais de desenvolvimento e democratização do acesso à fruição e à criação da cultura; luta pela afirmação cultural de Portugal, num quadro de relacionamento em igualdade com todos os povos e culturas, são objectivos e caminhos que se impõem fortemente nas nossas práticas quotidianas.
A situação actual é de desastre económico e social, que conduz também à destruição da vida cultural e educativa. Sabemos que cada ministro ou secretário de Estado da Cultura tem sido sempre pior do que o anterior. Este secretário da direita e das troikas que nos asfixiam é ainda pior que a ministra Canavilhas e o que eventualmente vier será ainda pior do que este, seja do PSD ou do PS, porque a sua missão será continuar a destruição que este Governo está a operar.
Por isso, em cada recanto da nossa existência, na memória e no património humano a que pertencemos, impõe-se integrar um processo de resistência e de combate que incluirá necessariamente os criadores, os artistas e outros trabalhadores da cultura, da educação e da ciência. Não estamos em compartimentos estanques. Pelo contrário, fazemos também deste acontecimento que é o 25.º aniversário da declaração de elevação do Centro Histórico de Évora a Património Mundial da Humanidade, pela UNESCO, um novo passo em frente, para que os caminhos da liberdade e de afirmação integral dos homens e das mulheres, dos jovens e das crianças continuem a ser objectivos e realidades a cumprir no dia-a-dia, como se de pão para a boca se tratasse quando lemos um livro, abrimos mais uma página deste património secular e em movimento, quando afirmamos a nossa liberdade de sermos livres, activos e intervenientes na construção do presente e do futuro.
Sabemos que não podemos aceitar, como nunca aceitámos, o silêncio, a censura, a morte das pedras que não estão mortas, antes exigem que continuemos a erguer monumentos de resistência, de memória e de identidade que fortalecem e dão razão de ser à nossa existência fraterna e transformadora.
A elevação humana precisa da cultura e do saber. Cada um de nós é responsável pela prática certa, pelo exercício da soberania e da independência que nos são próprias e que são uma exigência individual e colectiva.
Combater pela cultura e pela liberdade
Num momento em que querem impor a indignidade, a estupidez, o empurrão para o que já nem é sequer consumismo acéfalo, é necessário reagir, organizar e responsabilizar os que estão nos poderes centrais e culturais e são coniventes com o silenciamento e a morte da cultura. Evocamos aqui Bento de Jesus Caraça, José Gomes Ferreira, Manuel da Fonseca, Fernando Lopes Graça, José Saramago, Matilde Rosa Araújo, Fernando Namora, como evocamos Mário Barradas e tantos companheiros e companheiras de jornada e de luta de gerações que cresceram e se libertaram na conquista de direitos laborais, na conquista da reforma agrária nos campos do Ribatejo e do Alentejo, como fontes da vida que, se não tivessem sido selvaticamente destruídas, poderiam ser bases fundamentais na nossa independência económica e na afirmação social e cultural do nosso país.
Evocamos o que fomos, o que somos, o que queremos ser, num processo de superação e de luta que se amplia e que exige sempre mais conhecimento, mais saber e cultura, para abrirmos e construirmos novos patrimónios e monumentos luminosos da nossa história como foram a Revolução de 1383-1385 e essa Revolução militar, popular, proletária e decisiva que foi o 25 de Abril de 1974.
Não nos vencerão. Não hão-de amordaçar e destruir o que de melhor nos trouxe a humanidade, como não deixaremos de construir o futuro dos povos, o nosso futuro, em paz e em liberdade que merecemos.
Quero saudar o povo de Évora e do Alentejo. Quero saudar também, com amizade e camaradagem, alguém que, com outros eleitos e especialistas, formou e formaram um colectivo valioso e fundamental para comemorarmos agora o 25.º aniversário da declaração de elevação do Centro Histórico de Évora a Património Mundial da Humanidade. Falo, obviamente, do camarada Abílio Fernandes, que um dia me levou a Évora, nos idos de 1975. Fiquei a conhecer melhor a cidade e encontrei alguém que também quero recordar e que me levou a casa dos pais, em Montoito. Tinha sido um homem da resistência e do combate ao fascismo desde jovem, muito jovem. Tinha estado na clandestinidade e na prisão. Um dia, outro dia, mais tarde, numa reunião de vereadores da cultura das câmaras municipais do distrito, aqui em Évora, vi-o sentado junto de uma janela, ouvindo e tomando notas. Depois, no final, pediu a palavra e fez uma intervenção notável, sobre o acesso à fruição da cultura e à criação, sobre a necessidade de os trabalhadores e as populações terem o que nunca tinham tido, os espaços culturais, as práticas, a inovação e a descoberta da cultura e do saber.
Foi isso que aconteceu no Alentejo. Chamava-se Dinis Miranda e tenho ainda hoje o grato prazer de recordar que, só depois de publicado o livro Poetas Populares Alentejanos, me mostrou algumas décimas e poemas da sua autoria.
Simplicidade, complexidade, amor e paixão pela vida e pela transformação do mundo e dos seres humanos. Estes são os homens e mulheres de que precisamos nas nossas batalhas que decorrem e que aí estão a chegar. Entrega, fraternidade e luta pela igualdade real e transformadora. É aí que queremos viver, no conhecimento sempre aberto ao que é novo, no gosto de fazer e de criar que iluminará sempre os nossos destinos individuais e colectivos.