AS FONTES

Correia da Fonseca

As chamadas «revistas de imprensa», com um comentador em estúdio convidado pela estação, ou os programas ditos interactivos, também com comentador, são dos momentos interessantes que hoje nos fornece a televisão portuguesa, e decerto por isso não acontecem nos canais abertos onde qualquer um poderia aceder-lhes. Posto isto, será escusado dizer que não são momentos perfeitos, até porque a perfeição não é deste mundo e muito menos do minimundo dos media portugueses, dependendo decisivamente o seu mérito da qualidade dos comentadores convidados e, no caso dos interactivos, da maior ou menor lucidez dos cidadãos que por telefone intervêm no programa. Para além desta avaliação global e tosca, convém acrescentar que são também momentos que nos permitem detectar alguns discretos sinais, dessa detecção resultando proveito para a nossa própria compreensão do que nos envolve. Um desses sinais, aliás não raro, reapareceu há poucos dias e valerá a pena assinalá-lo: um dos tais convidados em princípio qualificados e por isso em maior ou menor grau «opinion makers», reforçou o que acabara de debitar com o argumento de que lera qualquer coisa em sentido idêntico nas páginas de um jornal britânico. É sabido que, graças ao efeito do mito BBC, quem cita um órgão de informação britânico é quase como quem invoque as páginas das sagradas escrituras, de onde a força persuasiva da citação. E, perguntar-se-á, qual terá sido desta vez o jornal referido como suplementar argumento de autoridade? A resposta é que foi nem mais nem menos que o «Financial Times», órgão praticamente oficioso do capitalismo britânico e não só. Alguns dias antes, um outro convidado em programa semelhante citara «The Economist» em decisivo abono do que sentenciara. O «New York Times» também é usado com alguma frequência. Ao longo dos tempos, outros convidados têm invocado outros órgãos de imprensa estrangeiros como prova complementar da bondade do que opinavam. Sempre jornais ou revistas que bem podem ser considerados como órgãos do pensamento político-económico de direita e do neoliberalismo dominante. Por muito que me esforce, não recordo que algum desses opinantes tenha citado jornal ou revista sequer do chamado centro-esquerda. Se é que isso existe e não é apenas uma ficção vocabular.

 

A permanente cascata

 

Parece claro que este pormenor, se é que a palavra é adequada, está longe de ser irrelevante e, pelo contrário, revela com interessante nitidez a «cor» político-ideológica onde os convidados/comentadores dos referidos programas se abastecem para formação ou reforço dos seus entendimentos. Para quem de fora e de longe os avalie, bastaria talvez lembrar-se de escolas e afins aprendizagens de onde eles a seu tempo saíram neste nosso País em que o ensino está geralmente entregue a mãos «de confiança», situação exemplarmente ilustrada pelo perfil do senhor professor que preside à direcção da mais importante unidade de produção em cadeia de economistas com formatação neoliberal. Temos, pois, que os tais convidados ecoam compreensivelmente os sons e os tons das fontes onde abasteceram as suas sabedorias. Mas as coisas não ficam por aqui neste nosso tempo em que, como lembrou o poeta, «isto anda tudo ligado», e eles próprios, convidados e opinion makers, são as fontes de onde decorrem os saberes supostos ou efectivos dos cidadãos telespectadores que os ouvem, inocentes, desprevenidos e receptivos. Assim se forma, também por esta via e a par de muitas outras similares ou não, a permanente cascata de enganos, equívocos, logros e falsificações, que em princípio permitirá alargar diversos graus de intoxicação a uma população inteira. É, de um certo modo, um grande progresso em relação ao passado não exageradamente distante: já não é preciso semear pelos cafés e outros lugares públicos uma mão-cheia de ouvidos atentos na retaguarda dos quais estavam uns sólidos brutamontes e muitas janelas com grades, desse modo se tentando evitar que as gentes pensassem de mais; agora basta envenenar as fontes e assegurar que delas escorra o necessário. É uma forma de progresso, o progresso na utilização mediática. Que existe, que é quotidiana, que constantemente tem de ser lembrada por quem não quer ser contaminado.



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