Militares reclamam veto
Um veemente apelo para que não promulgue o Orçamento do Estado foi deixado ao Presidente da República, dia 30, em Belém, no fim de uma vigília com centenas de militares.
Até dia 17 decorrerão encontros distritais descentralizados
As associações profissionais de militares entregaram uma carta ao Chefe da Casa Militar da Presidência da República, onde apelam a Cavaco Silva para que «não promulgue a Lei do Orçamento do Estado», aprovada nessa manhã, na Assembleia da República, tendo em conta «as respectivas consequências para as Forças Armadas e os militares» e o «facto de inúmeros especialistas apresentarem fundadas dúvidas sobre a constitucionalidade de medidas de austeridade nela constantes».
Na vigília frente ao Palácio de Belém, ao fim da tarde, participaram mais de duzentos militares no activo, reformados e alguns familiares, que responderam ao apelo da Associação de Praças, da Associação Nacional de Sargentos e da Associação de Oficiais das Forças Armadas, após uma delegação ter assistido, de manhã, ao debate parlamentar e à votação da Lei do Orçamento do Estado para 2012, nas galerias da Assembleia da República.
Alerta ao poder
«Quando os militares chegam ao limite de terem de se manifestar, é uma demonstração preocupante que quem tem o poder político deve analisar friamente», avisou o porta-voz das associações de militares nesta acção, o presidente da Associação Nacional de Sargentos. Lima Coelho, em declarações ao Avante!, salientou que, «se continuarem a não ouvir as nossas propostas, prosseguiremos com as acções que os nossos camaradas entendam serem as que melhor servem os nossos propósitos».
Lima Coelho referiu o clima de «desmotivação e desencanto» existente nas Forças Armadas, e revelou que chegam às associações informações sobre «situações de dificuldade de militares para poderem cumprir obrigações pessoais e familiares, o que é traumático para um militar que jura cumprir a Lei», e estão mesmo a reflectir-se em «casos de aumento de depressões».
Nas escalas de embarque na Armada «há já militares com dificuldades acrescidas por não serem respeitados os tempos de descanso obrigatório nos períodos entre missões», o que vai também afectar o moral e a motivação para o cumprimento das missões.
Também intervieram nesta acção os presidentes das Associação de Praças, Luís Reis, e da Associação dos Oficiais das Forças Armadas, Pereira Cracel, a quem coube ler a carta.
Ambos reprovaram os cortes orçamentais impostos aos trabalhadores da Administração Pública e que têm afectado igualmente os militares, designadamente a destruição de direitos e de apoios sociais, e os cortes e congelamentos dos rendimentos, também dos seus familiares. Criticaram o agravamento do custo de vida e das condições de trabalho que decorrerá das medidas aprovadas pelo Governo.
Acções futuras
Estão marcados encontros regionais de militares, até dia 17, tendo sido anunciados na vigília os de Braga (dia 15, em local e hora a anunciar), Leiria (dia 13, no auditório do Instituto Português da Juventude, a partir das 20 horas) e Beja (em data e hora a anunciar) para que, «de forma descentralizada, possamos decidir conjuntamente as acções que consideremos mais adequadas», explicou Lima Coelho.
De acordo com a convocatória para o encontro em Leiria, entretanto divulgada, estarão em apreciação a descaracterização da instituição militar através dos cortes indevidos das pensões e das remunerações, a desarticulação das Forças Armadas, o congelamento das promoções, a degradação da Saúde militar e o incumprimento de regras respeitantes a militares na reserva ou reformados.
O Sargento
Durante a vigília foi distribuído o jornal da ANS, O Sargento, que a celebrar o seu 20.º aniversário elogia «a maior acção de protesto levada a cabo por militares desde sempre», no dia 12 de Novembro, manifestando a necessidade de «Continuar a luta para garantir o futuro». A descaracterização das Forças Armadas, a degradação da Saúde militar e das condições de vida, o roubo no 13.º mês, o congelamento de carreiras e a não actualização do complemento de reforma aos militares aposentados com menos de 70 anos de idade são temas abordados no O Sargento.
Defesa e soberania ameaçadas
A vigília foi convocada a 12 de Novembro, quando mais de dez mil militares e familiares incorporaram a maior manifestação de sempre da família militar, diante do Ministério das Finanças, lembrou Lima Coelho, salientando a autoridade do Presidente da República para se pronunciar sobre estas matérias, «enquanto Comandante Supremo das Forças Armadas». As associações exigem que seja suscitada a inconstitucionalidade do OE 2012, «até que fique expurgado das situações de injustiça e de perigosidade para o bom desempenho das Forças Armadas». «Com este OE, ficam comprometidas a soberania e a Defesa nacionais», acusou o porta-voz das associações em vigília, salientando que «não podem ser aplicados cortes orçamentais cegos à instituição que tem a missão de defender a soberania e a independência.