Vítor Gaspar?
«[…] Este é um dos orçamentos mais exigentes de sempre da economia portuguesa. A severidade das medidas que incorpora apenas é justificada pela situação de emergência nacional».
«[…] Nós subordinamos tudo, neste momento, à necessidade de equilíbrio das contas públicas. […] Esse equilíbrio conquista-se com aumentos de receitas e reduções de despesas; exige pois sacrifícios. […] As reduções de serviços e despesas importam restrições na vida privada, sofrimentos, portanto. Teremos de sofrer em vencimentos diminuídos, em aumentos de impostos, em carestia de vida».
«[…] Advoguei sempre uma política de administração […] que consiste em se gastar bem o que se possui e não despender mais do que os próprios recursos».
«[…] O endividamento é uma actividade ambivalente. Se usado de forma sábia e moderada […] poderá contribuir para um maior crescimento económico no longo prazo e para aumentar o bem-estar social. Porém se usado de forma imprudente e em excesso […] pode ter consequências desastrosas».
Embora estas palavras pareçam fazer parte do mesmo discurso, têm fontes diferentes. Foram escritas com 83 anos de intervalo. Mas estão unidas pelo mesmo fio histórico de desfaçatez e hipocrisia ao serviço do grande capital e contra os interesses populares e nacionais. Em ambos os casos o representante do Estado assume por inteiro o garrote do endividamento público, sem proferir uma única palavra ou colocar qualquer questão acerca da natureza desse endividamento e sobre que estratégias privadas a ele conduziram. Do que se trata, num e noutro caso, é de tomar em mãos a alavanca do défice público para através dela lançar um brutal processo de reconfiguração do Estado ou, nas palavras do segundo autor citado, uma agenda que «inclui a própria transformação estrutural do Estado».
Não será difícil adivinhar que os citados são ministros das Finanças: Salazar (1928) e Vítor Gaspar (2011). O que foi a transformação estrutural do Estado levada a cabo pelo primeiro sabemos todos. O que seria a do segundo, cabe à luta dos trabalhadores e do povo acabar com ela, antes que vá mais longe do que já foi.