A greve geral de 24 de Novembro constituiu uma «derrota para a campanha ideológica que procura apresentar a política de retrocesso como inevitável e a luta como inútil» e foi em si mesma uma «afirmação de dignidade e combatividade de milhões de trabalhadores que abdicaram de um dia do seu salário, para a defesa e afirmação do valor maior do protesto contra o agravamento das suas condições de vida e da acção para salvar o País do desastre». Palavras de Jerónimo de Sousa na Declaração enviada às redacções no próprio dia da greve e que a seguir se transcreve na íntegra.
1 - Em milhares de empresas e locais de trabalho, milhões de trabalhadores, expressaram hoje um combativo Não! ao pacto de agressão, numa jornada memorável em defesa dos direitos dos trabalhadores e de um Portugal desenvolvido e soberano.
A greve geral convocada pela CGTP-IN e que ganhou grande abrangência, constituiu uma poderosa resposta à maior ofensiva desde os tempos do fascismo. Uma greve contra a exploração e o empobrecimento, contra o rumo de desastre nacional que PSD, CDS e PS, submetidos aos interesses do grande capital nacional e transnacional, querem impor a Portugal.
Uma greve geral que é um momento maior na história da luta dos trabalhadores e do povo português, expressão da intensa luta de classes que se trava no nosso País, afirmação patriótica e democrática, factor de mobilização e confiança na luta por um Portugal com futuro.
2 - O PCP destaca a dimensão nacional que a greve geral atingiu. Por todo o País – no continente e regiões autónomas – e no conjunto dos sectores de actividade, o êxito desta greve, traduziu-se numa significativa adesão por parte dos trabalhadores ao apelo da CGTP-IN, e que recolheu uma ampla solidariedade e apoio de outras camadas da população.
A greve geral assumiu uma particular expressão no sector produtivo de que são exemplo: no sector automóvel a Autoeuropa e todo o seu complexo industrial, a Renault-Cacia, a Exide (Tudor), Visteon, Delphi; no sector da metalurgia e metalomecânica como os Estaleiros Navais de Viana do Castelo, a Lisnave, o Arsenal do Alfeite, a Browning, a Sakthi e a Socometal; no sector corticeiro com o Grupo Amorim; no sector têxtil, vestuário e calçado a Carveste, o Grupo Paulo de Oliveira, a Trekar, a Califa, a Huber Trico; no sector alimentar e bebidas a Centralcer; no sector cerâmico, cimento e vidro a Saint-Gobain (Covina), a Vista Alegre, a Secil. O PCP valoriza a dimensão das fortes adesões no sector dos transportes como a CP, a Refer, a EMEF, o Metro Lisboa, o Metro do Porto, a Soflusa, a Transtejo, e em dezenas de empresas rodoviárias como é o exemplo da Carris, dos STCP, dos TST, dos TUBraga, dos TCBarreiro, dos TUCoimbra, da MoveAveiro. O encerramento de todos os portos marítimos e grande parte dos portos de pesca e o encerramento dos aeroportos e do transporte aéreo, com o cancelamento de mais de 600 voos.
O PCP sublinha ainda a grande resposta dada pelos trabalhadores da administração pública central e local com paragens que atingiram níveis históricos, com paralisação total ou parcial em praticamente todo o País da recolha de resíduos sólidos, e outros serviços públicos como foi do caso do sector da Saúde com uma forte adesão dos trabalhadores do sector, e o sector da Educação com o encerramento de centenas de escolas.
O PCP valoriza a mobilização em diversos sectores e empresas e a ampla expressão de rua que a greve geral comportou, em milhares de piquetes por todo o País, pontos de informação e concentrações que fizeram desta jornada de luta uma imponente obra colectiva.
3 - A extraordinária participação verificada é tão mais valorizável quanto foi construída sob uma crescente pressão, repressão e chantagem. Esta greve geral constitui uma derrota para a campanha ideológica que procura apresentar a política de retrocesso como inevitável e a luta como inútil; uma derrota para a chantagem da imposição de serviços mínimos ilegítimos que procura condicionar o direito à greve e para o recurso ilegal às forças de segurança – PSP e GNR – para dar cobertura à violação do direito à greve. Uma greve geral que, ao mesmo tempo, constituiu uma vitória sobre o condicionamento económico, as ameaças de despedimento, perda de remunerações e prémios, a repressão e intimidação, designadamente sobre os trabalhadores com vínculo precário. Uma grande demonstração de força, determinação e serena combatividade que derrotou as tentativas de intimidação e as provocações oportunamente montadas para tentar ofuscar a sua dimensão e sentido de construção de um futuro melhor. Uma greve geral que é em si mesma uma afirmação de dignidade e combatividade de milhões de trabalhadores que abdicaram de um dia do seu salário, para a defesa e afirmação do valor maior do protesto contra o agravamento das suas condições de vida e da acção para salvar o País do desastre.
Num país marcado por mais de 35 anos de política de direita, sujeito ao processo de integração capitalista da União Europeia, vítima da natureza do capitalismo e da sua crise, a greve geral expressou uma firme e ampla exigência de ruptura com a actual situação.
4 - O PCP saúda os milhões de trabalhadores que participaram na greve geral.
Saudamos em particular os milhares de jovens que o fizeram pela primeira vez, elemento de incontornável valor político que se projecta para o futuro.
Saudamos a CGTP-IN e todas as organizações representativas dos trabalhadores, o conjunto dos activistas, delegados e dirigentes sindicais que ergueram esta poderosa jornada de luta, reafirmando o papel incontornável do Movimento Sindical Unitário que, com a sua força e identidade, constitui uma força social imensa indispensável à construção de uma vida melhor, a um país de progresso e justiça social, parte determinante do processo de ruptura com a política de direita.
5 - Submetidos aos interesses do grande capital e às imposições das grandes potências da União Europeia, o Governo, os partidos que apoiam o pacto de agressão, o Presidente da República que patrocina a actual política, receberam hoje uma inequívoca e firme condenação.
Uma greve que, contribuindo para o crescente isolamento dos que roubam o povo e afundam o País, coloca de forma incontornável uma nova fase no desenvolvimento da luta de massas que, mais cedo do que tarde, derrotará os objectivos do Governo e do grande capital.
O que a greve geral veio confirmar foi uma inabalável confiança para prosseguir, em cada empresa e local de trabalho, em cada localidade, em cada sector de actividade, a continuação da luta com acções específicas e convergentes. O PCP destaca desde já a jornada de luta que se vai realizar na próxima quarta-feira, dia 30 de Novembro, em frente da Assembleia da República no dia da votação final do Orçamento do Estado para 2012.
6 - O PCP, solidário com a greve geral, reafirma o seu compromisso de sempre os trabalhadores e o povo português. A luta que se seguirá será ainda mais exigente, mas a força e determinação que esta greve demonstrou dão confiança de que não só é necessária, como possível a concretização de uma política patriótica e de esquerda que contribua para salvar o País do rumo de desastre que lhe querem impor.
Comunistas presentes
A deslocação simbólica do Secretário-geral do PCP aos Serviços Municipalizados de Loures e à Exide (ex-Tudor), para saudar os trabalhadores em greve e renovar o apoio activo do PCP a esta grandiosa jornada de luta, coloca em relevo o destacado papel de milhares de militantes comunistas, por todo o País, no esclarecimento, na mobilização e na organização da greve geral. Deputados, dirigentes, militantes e amigos do Partido disseram «presente» em todas as horas, ao lado de trabalhadoras e trabalhadores com outras opções ou sem filiação partidária, construindo uma forte unidade na acção, em torno das reivindicações e dos objectivos apontados pela CGTP-IN.