- Nº 1980 (2011/11/10)

O moiral

Opinião

Cavaco Silva, Presidente da República Portuguesa, decidiu pôr a nu a sua costela mais retrógrada, apelando à memória de uma figura típica de Nelas (onde discursava) – o moiral.
E, numa tentativa de explicar o seu interesse em ver andar a roda da história de marcha à ré, ensinou que, «para esse moiral, que conduzia ao longo dos séculos os seus rebanhos para as terras altas, não havia fim-de-semana, não havia férias, não havia feriados, não havia tão pouco pontes em nenhumas circunstâncias».

Não contente com o tamanho do vómito reaccionário que acabara de produzir, clarificou que «esse moiral é o exemplo do trabalho que é preciso realizar para conseguir vencer e isso deve ser recordado nestes tempos difíceis que temos à nossa frente».

Cavaco é o que é. Uma figura sinistra que sonha, acordado e saudoso, com os tempos em que os trabalhadores portugueses trabalhavam de sol a sol, por uma côdea de pão.

E é por isso que se desdobra em tentativas de justificar as opções do Governo, anunciadas no quadro do Orçamento do Estado em discussão.

E por muito que alguém se esforce afirmando que as suas palavras são fruto do entusiasmo do momento, um mero lapsus linguae, eu afirmo que assim não é!

Senão vejamos: Para o moiral não havia fins-de-semana, assim como o Governo quer que deixem de existir para os trabalhadores portugueses, com o aumento da meia hora de trabalho por dia, a serem geridos ao belo prazer do patronato; não tinha férias, pelo que hoje podemos bem dar-nos por satisfeitos se as tivermos, sem qualquer subsídio; não havia feriados nem pontes, exactamente como o Governo se propõe fazer.
Para ver se se safava à justa crítica de quem perceba que o caminho que defende é o do retrocesso e do aumento da exploração, Cavaco esclareceu que «não quer dizer que os portugueses, nos tempos que correm, tenham de trabalhar todos os dias, mas naquilo que lhes compete fazer devem colocar o melhor do seu esforço, o melhor do seu saber».

Por um momento, estamos de acordo. Os portugueses têm mesmo de fazer o que lhes compete, participando na greve geral de 24 de Novembro e nas lutas que se lhe vão seguir.

João Frazão