A luta ainda agora começou
Mais de 300 mil pessoas participaram nas manifestações realizadas no segundo dia de paralisação nacional convocada pela Confederação dos Estudantes (Confech) e pela Central Unitária dos Trabalhadores (CUT). Os jovens agendaram novos protestos para Novembro e os trabalhadores dos transportes da capital estão em greve por tempo indeterminado.
Para 5 e 8 de Novembro estão convocadas novas manifestações
Com desfiles em 24 cidades, a Confech, a CUT, o Partido Comunista do Chile (PCC) e as restantes 70 organizações políticas, sociais e sindicais aderentes culminaram dois dias de greve em todo o país em defesa da educação pública, gratuita e de qualidade, exigida pelos estudantes, professores e pais em jornadas massivas levadas a cabo nos últimos cinco meses.
Segundo dados difundidos pelo PCC e pela CUT, os desfiles de quarta-feira, dia 19, mobilizaram mais de 300 mil pessoas, entre estudantes do Superior e do Secundário, trabalhadores do Ensino, Saúde, Administração Local e Central, dos portos e de outros sectores de actividade, reformados, activistas dos direitos humanos ou de defesa do meio ambiente.
Em destaque esteve a marcha realizada na capital, Santiago, que reuniu pelo menos 200 mil pessoas em duas colunas que confluíam para a Faculdade de Engenharia da Universidade do Chile, onde decorreu o acto central.
A sondagem mais recente indica que 88 por cento dos chilenos apoia esta luta, mas a popularidade das reivindicações não parece preocupar o governo de direita, que voltou a reprimir a iniciativa.
Pelo menos 110 pessoas foram detidas, elevando para mais de 370 o número de chilenos encarcerados durante as 48 horas que durou a paralisação. A este propósito, a Confech acusou o executivo liderado por Sebastian Piñera de pactuar com os grupos de encapuzados que não raras vezes se infiltram nas marchas pacíficas e servem de pretexto para as investidas dos Carabineiros.
Em Novembro voltamos à rua
Um dia depois das gigantescas acções de massas em todo o território, estudantes, professores, pais e activistas sociais tentaram entregar aos eleitos da nação o resultado de um referendo, organizado pelo sindicato dos professores, no qual ficou expressa a vontade dos chilenos quanto ao rumo a dar à Educação. No plebiscito votaram mais de 1,5 milhões de pessoas, mais de 90 por cento das quais manifestaram-se favoráveis ao carácter público, gratuito e de qualidade do sector.
O grupo ocupou durante algumas horas a antiga sede do Congresso chileno, em Santiago. Mas além de não terem logrado entregar os resultados do sufrágio, à saída do acto simbólico muitos foram detidos pela polícia, que, simultaneamente, dispersava com canhões de água os populares que acorreram a solidarizar-se com o protesto.
Após a greve, a Confech voltou a reunir as organizações integrantes numa grande assembleia plenária, tendo sido decidido que os estudantes rejeitam a proposta de Orçamento do Estado para 2012, reiteram a exigência de implementação de um sistema de educação público, gratuito e de qualidade, e avançam, inclusivamente, propostas de carácter mais geral com o objectivo de desmontar a argumentação governamental da falta de recursos.
Para os estudantes, a solução para o financiamento da educação pública, gratuita e de qualidade está numa profunda reforma fiscal e na recuperação pelo Estado da exploração dos recursos naturais do território, propostas que revelam a energia transformadora desencadeada pela luta de massas.
Na reunião, as estruturas representativas dos estudantes decidiram igualmente que a luta ainda só agora começou, agendando para o dia 5 de Novembro nova mobilização. Em conferência de imprensa, a presidente da Federação da Estudantes da Universidade do Chile e porta-voz da Confech convocou pais e professores para o protesto.
Camila Vallejo garantiu que, ao contrário do que o governo afirma, o movimento estudantil não está a dar sinais de desgaste, e revelou que, pelo contrário, a sua vitalidade prova-se no agendamento de uma outra manifestação para 8 de Novembro, desta feita na cidade de Valparaíso, onde o parlamento iniciará a discussão do Orçamento do Estado para o próximo ano.
Trabalhadores protestam
Paralelamente às acções lideradas pelos jovens alunos, os trabalhadores dos transportes de Santiago iniciaram segunda-feira uma greve indefinida. Os trabalhadores dizem-se fartos de esperar que o governo responda à proposta de instalação de uma mesa de diálogo para tratar das ilegalidades que vêm sendo cometidas pelas empresas do sector.
A paralisação afecta cerca de dois milhões de pessoas e tem como causas principais o despedimento de dirigentes sindicais, a diminuição nas remunerações – que em alguns casos chegou a 30 por cento do salário previsto nos contratos –, e a marginalização dos trabalhadores com mais de 60 anos.
Estas medidas foram tomadas pelas novas operadoras ou administrações das empresas concessionárias do serviço de transporte, em particular nos concelhos do Norte da capital do país.