- Nº 1975 (2011/10/6)
Protestos duram há quase três semanas

Indignação alastra nos EUA

Internacional

Cresce o número de norte-americanos em protesto contra as injustiças e desigualdades sociais. Os «indignados», que desde 17 de Setembro se manifestam em Nova Iorque e noutras cidades do país, prometem unir e fazer avançar o movimento.

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No sábado, 1 de Outubro, apesar da realização de concentrações e marchas reivindicativas, entre outras cidades, em Filadélfia, Seattle, Chicago ou Los Angeles, a mais expressiva acção do movimento «Ocupa Wall Street» ocorreu junto à ponte de Brooklyn.

Milhares de pessoas tentaram uma vez mais transferir o acampamento permanente situado no Parque Zucotti para junto do coração financeiro do maior e mais poderoso país capitalista do mundo. O forte dispositivo policial e as mais de 700 detenções realizadas pelas autoridades em pouco mais de duas horas, sob o pretexto de desobediência e ocupação da via pública, acabaram por gorar o objectivo inicial, mas, pode-se afirmar, tiveram o condão de amplificar o protesto nos meios de comunicação social, e, sobretudo, espicaçar a indignação de um cada vez maior número de norte-americanos.

Já no domingo, uma multidão – incluindo muitos dos detidos no dia anterior, entretanto libertados, que regressaram para junto dos seus companheiros de luta –, voltou a juntar-se nas ruas de Nova Iorque para mostrar indignação face às consequências da crise capitalista e os interesses de classe que o sistema serve, face às injustiças sociais e a colossal desigualdade entre ricos e pobres.

No centro da revolta voltaram a estar ainda os milhões concedidos ao capital financeiro e aos grupos económicos capitalistas desde 2008, e a execução das hipotecas por parte dos bancos; a defesa do direito à Educação, à Saúde e ao emprego com direitos, e a viva expressão do repúdio contra o domínio da política governamental por parte do capital.

Também no sábado, em Boston, foram presos 24 activistas durante uma marcha de cerca de três mil pessoas em direcção ao Bank of America, adianta a Reuters. A entidade anunciou recentemente a intenção de despedir 30 mil trabalhadores.

A detenção, ainda que provisória de participantes nas acções dos «indignados», movimento que já recebeu o apoio público de personalidades como o cineasta Michael Moore, do académico Noam Chomsky e da actriz Susan Sarandon, segundo a agência noticiosa supra citada, tem sido, aliás prática habitual na nação que reclama o estatuto de modelo de democracia.

Na sexta-feira, 30 de Setembro, já cerca de duas mil pessoas se haviam dirigido à sede da polícia de Nova Iorque para contestarem precisamente a prisão de 80 activistas durante os protestos de 25 de Setembro.

 

Contra as guerras imperialistas

 

Por outro lado, numa nação envolvida em permanentes guerras de agressão imperialista, ressurge com pujança a exigência do fim dos conflitos militares promovidos pelos EUA.

Segunda-feira, dia 24, o ex-secretário da defesa dos EUA foi recebido em Boston por cerca de 300 veteranos de guerra que tentaram efectuar a detenção civil do ex-membro da administração Bush. Donald Rumsfeld deslocou-se à cidade para promover o seu novo livro e não se livrou da ira popular.

Alvo da revolta contra o belicismo norte-americano foi, igualmente, a máquina democrata que sustenta o presidente Barack Obama. De acordo com a página oficial do Partido para o Socialismo e a Libertação (PSL), durante a segunda semana de protestos de «indignados» no país, a plataforma de acção contra a guerra mobilizou centenas de pessoas para uma acção de protesto junto a uma iniciativa de recolha de fundos para a campanha presidencial de Obama.

Recorde-se que o actual presidente dos EUA garantiu milhares de votos enganando os eleitores norte-americanos com a promessa da retirada das tropas do Iraque e Afeganistão, pelo que o resurgimento das iniciativas pela paz e o regresso imediato dos soldados são, no presente contexto, muito incómodas para o poder.

 

Unir e coordenar a acção

 

Agora, a palavra de ordem entre os vários grupos de contestatários parece ser a de unir e coordenar o movimento. Em fase de preparação encontra-se uma assembleia que, nos próximos dias, prevê reunir em Washington todas as plataformas sob os simbólicos nomes de «Sonho Americano» ou «Nós somos os 99 por cento [da população]».

Esta última consigna contava já com uma página na Internet onde se precisava que «vemo-nos obrigados a escolher entre a comida e a prestação da casa. É-nos negada a assistência médica. Sofremos as consequências da contaminação do meio ambiente. Trabalhamos largas horas por pouco dinheiro e nenhuns direitos. Nós nada recebemos, ao passo que o restante um por cento recebe tudo».

No domingo, ficou ainda a saber-se que, em Washington, está já rebaptizada uma outra Praça da Liberdade (à semelhança do que aconteceu no Cairo), passo emblemático para os protestos que, no dia 6 de Outubro, devem ter um dos momentos altos com a concentração nacional contra as guerras de ocupação e saque.

Parte do movimento sindical, particularmente os sindicatos dos Transportes e dos Trabalhadores do Sector Automóvel, expressa vontade de se juntar aos indignados, na sua maioria jovens desempregados com elevadas qualificações académicas e competências técnicas, muitos dos quais a braços com pesadas dívidas resultantes dos empréstimos bancários contraídos para concluírem a respectiva formação.


Razões para protestar

No centro da maior crise capitalista mundial, os EUA são o espelho das profundas contradições do sistema. Alguns dados oficiais divulgados nos últimos dias pela Telesur, Press TV, PSL News e agênciais de notícias ilustram a existência de condições objectivas concretas para a eclosão de protestos e revoltas sociais no território.

 

   Metade dos norte-americanos mais pobres dispõem de apenas 2,5 por cento da riqueza.