Barbárie emerge em Tripoli
Uma semana depois de a NATO e os seus homens de mão do Conselho Nacional de Transição (CNT) terem tomado Tripoli, tornam-se evidentes os crimes de guerra praticados nos últimos meses contra o povo líbio, o qual, junto com o exército regular, continua a resistir como pode à ocupação.
«As ruas da capital encontram-se pejadas de corpos»
As informações divulgadas pelos órgãos de comunicação social dominantes sobre a actual fase da agressão imperialista dizem que a maioria dos bairros da capital se encontra sob controle dos rebeldes, mas o facto de os bombardeamentos da NATO ainda não terem cessado um só dia provam que, na cidade, persistem bolsas de resistência.
Os que lutam são apresentados como fieis a Kahdafi, mas na verdade mais correcto seria classificá-los como patriotas que, com armas distribuídas pelo governo durante a ofensiva da Aliança Atlântica (um regime que teme ser derrubado por uma sublevação popular não o faz), se juntam a contingentes do exército regular no combate aos grupos de mercenários, bandoleiros e extremistas islâmicos que se albergam sob a bandeira monárquica do CNT.
Em Tripoli os contra-revolucionários estão às ordens de Abdelhakim Belhadj, quadro militar da Al-Qaeda. De acordo com informações recolhidas pelo jornalista Pepe Escobar para o Asia Times, Belhadj, jihadista forjado no Afeganistão, terá sido libertado pelos EUA para, juntamente com os instrutores e soldados da CIA, MI6, SAS britânico e Legião Francesa, orquestrar, desde Fevereiro, a chamada «insurreição popular contra Kahdafi».
As pilhagens e os assassinatos multiplicam-se em Tripoli, cidade cujas ruas se encontram pejadas de corpos. A maioria dos serviços noticiosos nos media pró-imperialistas distorcem esta realidade. Relatam, por exemplo, que numa infra-estrutura militar foram encontrados dezenas de cadáveres carbonizados e atribuem tal crime aos apoiantes de Kahdafi, mas a Telesur, que manteve durante todo o tempo um repórter na metrópole, apresenta uma versão exactamente contrária.
Mais, a única execução sumária cujos autores parecem cabalmente identificados vitimou cerca de 30 opositores ao CNT, encontrados com as mão atrás das costas e baleados na cabeça. Até a Amnistia Internacional apela ao fim dos massacres e torturas.
Crise humanitária
No mesmo sentido, alteram-se as responsabilidades sobre a crise humanitária que assola Tripoli. Hospitais em ruptura de stocks, apinhados de gente baleada na cabeça ou no abdómen, como relataou à RTP um médico local, são apresentados como prova da barbaridade do regime, quando a verdade é precisamente a inversa.
A UNICEF fala numa «epidemia sanitária sem precedentes» qualificando a situação como «o pior cenário possível», mas tal não é credível que tenha resultado dos dias de combates por Tripoli, mas pelo contrário, das sabotagens, dos bombardeamentos e do bloqueio imposto pela NATO durante meses a fio. A carência extrema de géneros alimentares e água, ou a subida em 30 vezes do preço da gasolina são agora salientadas, mas a situação foi totalmente abafada enquanto Tripoli se encontrava dominada pelo governo líbio.
As infra-estruturas básicas são noticiadas como «destruídas pela guerra civil», e o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, só agora se preocupa em pedir ao Conselho de Segurança que envie com urgência uma missão de paz. Enquanto sob o povo líbio eram despejadas toneladas de bombas, Ki-moon assobiou para o lado perante a flagrante violação dos direitos humanos e do direito internacional.
Saque descarado
Paralelamente, os imperialistas esfregam as mãos de contentamento antevendo o assalto aos recursos líbios e aos chorudos contratos para a reconstrução. A Itália e as monarquias árabes já reuniram com membros dirigentes do CNT para acautelarem os respectivos interesses. O ministro dos Negócios Estrangeiros da França, Alain Juppé deixou escapar que a «intervenção na Líbia foi um investimento no futuro». Percebe-se.
Em causa estão, sem contar com as jazidas de petróleo (dois mil barris por dia) e de gás, pelo menos 150 mil milhões de dólares em fundos depositados em bancos estrangeiros, cerca de 145 toneladas em ouro guardadas no Banco Central da Líbia, uma imensa reserva aquífera fóssil com um projecto de exploração em avançado estado de conclusão (o Great Man-Made River) e cidades inteiras arrasadas pela Aliança Atlântica que é preciso «reconstruir». A estas dever-se-á juntar Sirte, tida como o último bastião de Kahdafi que os rebeldes se preparam para assaltar auxiliados pelos «humanitários» bombardeamentos da NATO, organização que, nas palavras da sua porta-voz, Oana Lungescu, estuda a possibilidade de ocupar a Líbia «mediante petição do CNT».
Como aponta o PCP, em nota que publicamos na íntegra, «o que está em causa com a guerra de invasão e ocupação da Líbia (…), a exemplo das guerras do Iraque, Jugoslávia e Afeganistão» é a «satisfação dos interesses estratégicos das principais potências da NATO quanto ao controle de importantes riquezas naturais, o saque dos fundos soberanos Líbios e a imposição do domínio imperialista na região».
PCP condena massacre contra o povo líbio
Vítimas de um crime
«O PCP condena o massacre perpetrado pela NATO na cidade Tripoli cujas vítimas mortais ascendem, em apenas dois dias, a mais de 2000 mortos.
«Dando seguimento a mais de cinco meses de intensos bombardeamentos e guerra da NATO, o autêntico banho de sangue perpetrado contra a população da capital Líbia na denominada “Operação Sereia”, bem como os acontecimentos que se lhe sucedem, confirmam, mais uma vez, os reais objectivos e os verdadeiros protagonistas desta guerra colonialista de invasão e ocupação.
«A tomada de Tripoli é sobretudo resultado, não de uma propagandeada vitória militar dos chamados “rebeldes”, mas sim da intervenção directa da NATO e de um verdadeiro massacre perpetrado por esta estrutura político-militar.
«O povo líbio foi e está a ser vítima de um crime e de uma flagrante violação do Direito Internacional, da Carta das Nações Unidas e da própria Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU, que hipocritamente referia a protecção dos civis Líbios e reconhecia o papel das autoridades líbias.
«Como o PCP a seu tempo alertou, e como a realidade o está a confirmar, o que está em causa com a guerra de invasão e ocupação da Líbia não são os direitos do seu povo ou qualquer desejo de liberdade e democracia. Pelo contrário, o que está em causa, mais uma vez na História e a exemplo das guerras do Iraque, Jugoslávia e Afeganistão é a satisfação dos interesses estratégicos das principais potências da NATO quanto ao controle de importantes riquezas naturais, o saque dos fundos soberanos Líbios e a imposição do domínio imperialista na região do Norte de África e Médio Oriente.
«A guerra contra o povo Líbio é indissociável do quadro internacional de aprofundamento da crise estrutural do capitalismo, da resposta de força imperialista aos processos populares que tiveram lugar no Mundo Árabe, bem como das crescentes contradições inter-imperialistas. Denunciando a hipocrisia e as campanhas mediáticas de mentira e desinformação que sustentam a estratégia agressiva das principais potências imperialistas, o PCP alerta para o facto de que a guerra de ocupação da Líbia, as crescentes ameaças de uma intervenção imperialista na Síria e as renovadas provocações israelitas contra o povo palestino, são perigosos elementos adicionais de tensão numa situação já muito marcada pela instabilidade e pelo real perigo de generalização de conflitos.
«A tomada de Tripoli pela NATO e pelas chamadas forças rebeldes constitui mais uma operação contra o direito de soberania e integridade territorial das nações. Mas, como a realidade já se encarregou de demonstrar em várias situações, não significará o fim da resistência do povo Líbio à invasão e ocupação do seu País e muito menos da resistência dos trabalhadores e dos povos às guerras, agressões e provocações do imperialismo.
«Para o PCP, o fim do conflito passa pela retirada das forças ocupantes e pelo diálogo nacional líbio visando uma solução política para o conflito interno. Condenando a posição seguidista do governo português de apoio à guerra de invasão e ocupação da Líbia e de reconhecimento do chamado “Conselho Nacional de Transição”, o PCP apela aos trabalhadores, à juventude e ao povo português que, independentemente das diferenças de opinião sobre Muammar Kadhaffi e o actual regime, rejeitem a gigantesca campanha mediática que suporta esta intervenção imperialista, se mobilizem e intensifiquem a luta pela paz, contra as agressões e ingerências do imperialismo norte-americano e europeu no Mundo Árabe e noutras regiões do globo».