Os silêncios de «oiro» do Patriarcado…
«O Cristianismo é negado, e negado mesmo por aqueles que têm o aspecto de o defenderem. Mas não se pode dizer em voz alta que é negado. Este direito é recusado por razões políticas, faz-se segredo. Permite-se, mesmo, que seja cristianismo a negação do cristianismo. Faz-se do Cristianismo um simples nome» (Ludwig Fuerbach, filósofo alemão do século XIX).
À milenar reserva da sua experiência histórica vai o Povo buscar o sentido das suas «sentenças» colectivas. Sínteses brilhantes, por vezes, de um saber desprezado pelas elites. Por exemplo, numa dessas máximas declara-se brevemente: «Grande nau, grande tormenta». Quatro palavras apenas que todavia assentam como uma luva na sociedade de loucos que o capitalismo está a tentar impor ao país.
Políticas geridas por interesses estrangeiros, dívidas públicas pagas com o dinheiro de novas dívidas, desenvolvimento garantido pelo desemprego, abundância com base na subida dos preços, venda a retalho dos bens nacionais e sigilo em torno dos favores mais secretos. Assim renasceria o país! Sem tirar nem pôr...
Há no mercado, conduzidas agora por Passos Coelho, uma mão-cheia de criminosos projectos deste tipo. O país não tem dinheiro, nem merece o respeito das outras nações. É por demais evidente que já não pode pagar o que deve. O governo esmaga o povo impondo-lhe perdas de direitos enquanto que o «espreme» com novos e constantes impostos. Assume compromissos com as «troikas» (venham elas de onde vierem) embora não possa garantir ser capaz de reformar em prazos record as estruturas e os serviços do Estado.
Aguardam-nos, a curto prazo, não apenas os dias da miséria ou da confusão de poderes. O Capitalismo, em Portugal e não só, revela estar esgotado como sistema político, económico e social. Os tempos que se aproximam prometem mergulhar no mais completo caos..
Uma nova versão melhorada
da «sopa dos pobres»
Os bispos bem sabem que assim é. Governo e Igreja (esta, pela boca dos arautos da sua «sociedade civil») reconhecem estar a trabalhar aceleradamente num plano inclinado destinado a manter vivos os sobreviventes portugueses pobres repescados à crise geral do capitalismo. Têm já pronto um programa de acção e uma estrutura organizativa – a RENASO. Ainda que comecem a surgir aqui e além algumas notas discordantes. Tudo indica porém que a curto prazo as respostas a dar ao eixo Governo/Patriarcado venham a endurecer.
A primeira objecção diz respeito à divulgação oficial do documento. Passos Coelho, primeiro-ministro, devia ser logicamente o grande divulgador do texto. Não só não o fez como afirmou, no mínimo três vezes, que o documento seria publicado até aos fins de Julho, o que não aconteceu. Por seu turno, o seu interlocutor directo – a CNIS – organismo da igreja mas que não faz parte directa da sua hierarquia - anunciou pomposamente que a proposta de emergência, tal qual reza o seu texto, foi elaborada pelas instituições católicas, em presença dos conteúdos dos programas políticos do Governo e do PS/PSD! Trata-se, portanto, de uma encomenda feita por um governo que afirma representar uma República laica e entrega decisões de fundo e de interesse nacional aos caprichos de uma estrutura religiosa.
Esta RENASO cujos conteúdos são oficialmente ainda desconhecidos, deve desde já despertar a atenta curiosidade de todos os comunistas. Pouco se sabe, mas o linguajar dos construtores de imagem vai-nos falando de uma iniciativa que envolve ONG, IPSS, Autarquias e Misericórdias. E o espectáculo do costume começa a ser instalado : mesmo que tendo uma vaga ideia acerca dos problemas sociais, a nível do país, muitas câmaras municipais decidiram preparar a instalação imediata de programas de emergência; chovem missivas de adesão de instituições que giram no âmbito das IPSS; os banqueiros saíram a terreiro, em aclamações; e até Passos Coelho ( ele conhece os tempos da demagogia), aproveitou este intervalo para anunciar ser possível em breve optar-se, «por uma quota fixa que financie esses programas» a incidir sobre a riqueza. «Ninguém será deixado para trás!», prometeu surpreendentemente o primeiro-ministro de um governo especializado em corridas de velocidade entre pobres e ricos, sempre ganhas pelos gordos.
Aos católicos de boa fé cabe ver, julgar e decidir. Com sentido de verdade e sem hesitações. Recusando hipocrisias. O tempo urge … A miséria não deve servir como moeda de troca!