A guerra secreta em Portugal (I)
A rede Gládio dispôs de uma base eficaz em Portugal, segundo apurou o historiador suíço Daniele Ganser, baseando-se em investigações feitas em Itália. Conluiada com o regime fascista, a NATO serviu-se deste dispositivo militar secreto para assassinar opositores internos a Salazar, bem como líderes revolucionários africanos de primeiro plano, caso de Amílcar Cabral.
Em Maio de 1926, o general Gomes da Costa tomou o poder em Portugal através de um golpe de Estado, aboliu a Constituição e o Parlamento e instaurou a ditadura. Uns anos mais tarde, o ditador Salazar assumiu as rédeas do País. Durante a guerra civil espanhola, apoiou o general Franco a quem forneceu tropas e material. Os dois homens aliaram-se para garantir a Hitler e a Mussolini a neutralidade de toda a península ibérica, facilitando assim consideravelmente a sua tarefa na frente ocidental. Os quatro ditadores entraram em acordo quanto à necessidade de combater e de aniquilar o comunismo na União Soviética e nos seus países.
Mas tendo a URSS saído vitoriosa da II Guerra Mundial e Hitler e Mussolini derrotados, Salazar e Franco viram-se numa posição delicada em 1945. Entretanto, os Estados Unidos do presidente Truman envolveram-se numa guerra mundial contra o comunismo e os dois ditadores da península puderam beneficiar do apoio silencioso de Washington e de Londres. Apesar do apoio de Salazar ao golpe de Franco e da sua aliança com as potências do Eixo, Portugal, para surpresas de muitos, foi autorizado a figurar entre os membros fundadores da NATO em 1949. Seguiu-se um reinado praticamente sem oposição até à morte de Salazar, em 1970.
À imagem do que se pôde observar nas ditaduras de extrema-direita da América Latina e sob o regime autoritário de Franco, o povo português era vigiado permanentemente por um aparelho de segurança que funcionava na sombra e fora de qualquer quadro legal definido pelo Parlamento. Os golpes sujos visando a oposição política e os comunistas multiplicaram-se durante o regime de Salazar. Essas operações eram efectuadas por diversos serviços e órgãos, entre os quais a tristemente célebre Polícia Internacional e de Defesa do Estado, ou PIDE, e os serviços secretos militares portugueses.
Gládio apoia Salazar
Não tendo sido feita nenhuma investigação aprofundada sobre as organizações de extrema-direita e as operações especiais realizadas durante a ditadura de Salazar, as suas ligações com a rede secreta anticomunista da NATO não são muito claras. A existência em Portugal de exércitos secretos próximos da CIA e da NATO foi revelada pela primeira vez em 1990, na sequência da descoberta da Gládio italiana. «Em Portugal, uma rádio lisboeta noticiou que, «durante os anos 50, foram utilizadas células duma rede associada à "Operação Gládio" para apoiar a ditadura de extrema-direita do Dr. Salazar».[1] Cinco anos depois, o autor americano Michael Parenti escreveu, sem todavia revelar as suas fontes, que agentes da Gládio tinham «ajudado a consolidar o regime fascista em Portugal». [2]
Mais concretamente, a imprensa nacional revelou, em 1990, que o exército secreto de Portugal existia com o nome de código Aginter Press. Sob o título «"Gládio" actuou em Portugal», o semanário português O Jornal anunciou que «a rede secreta, concebida no seio da próprio NATO e financiada pela CIA, cuja existência acaba de ser revelada por Giulio Andreotti, dispunha de um ramo em Portugal, activo nos anos 60 e 70. Tinha o nome de Aginter Press e esteve provavelmente implicada nos assassínios em território nacional assim como nas colónias portuguesas em África.[3]
A Aginter Press não tinha rigorosamente nada a ver com a imprensa. Esta agência não imprimia livros nem brochuras de propaganda anticomunista, mas treinava terroristas de extrema-direita e efectuava golpes sujos e operações clandestinas no interior e no exterior das fronteiras de Portugal. Esta organização, tão misteriosa como violenta, era sustentada pela CIA e comandada por quadros da extrema-direita europeia que, com a ajuda da PIDE, recrutavam militantes fascistas.
O inquérito feito pelo Senado italiano sobre a Gládio e o terrorismo permitiu apurar que certos extremistas italianos tinham sido formados pela Aginter Press. Enquanto em Portugal era revelado que uma subdivisão da Aginter Press, baptizada de «Organização Armada contra o Comunismo Internacional», tinha também operado em Itália, os senadores italianos descobriram que a organização Aginter Press recebia apoio da CIA e que era dirigida pelo capitão Yves Guillon, mais conhecido pelo pseudónimo de Yves Guérain-Sérac, especialista das operações de guerra clandestina, a quem os Estados Unidos tinham atribuído várias medalhas militares, entre as quais a Estrela de Bronze Americana por se ter distinguido na guerra da Coreia.
Pacto anticomunista
«Segundo indicam os resultados do inquérito criminal», concluiu o relatório da comissão italiana, «a Aginter Press era uma central de informações, próxima da CIA e dos serviços secretos portugueses, especializada em operações de provocação». [4]
Enquanto o governo português evitou abrir um inquérito sobre a história sombria da Aginter Press e da guerra secreta, a comissão do senado italiano prosseguiu a sua investigação e, em 1997, ouviu o juiz Guido Salvini. Verdadeiro especialista em questões de terrorismo de extrema-direita, o magistrado havia examinado minuciosamente os documentos disponíveis sobre a Aginter Press. O senador Manca interrogou-o: «A CIA americana é, na sua opinião, directamente responsável pela operações efectuadas pela Aginter Press?», a que o juiz respondeu: «Senador Manca, está a fazer uma pergunta muito importante», e pediu, dada a natureza delicada da resposta, para ser ouvido em privado. O seu pedido foi acolhido, e a partir daí todos os documentos foram classificados como confidenciais.[5]
Em público, o juiz Salvini explicou que é «difícil definir com exactidão o que é a Aginter Press», mas mesmo assim fez uma tentativa de descrição: «É uma organização que, em muitos países, nomeadamente na Itália, inspira e apoia os planos de grupos cuidadosamente escolhidos, que agem segundo protocolos definidos contra uma situação que decidiram combater». O exército secreto anticomunista da CIA, Aginter Press, prosseguiu, opera «em função dos seus objectivos e dos seus valores, que são essencialmente a defesa do Ocidente contra uma invasão provável e iminente da Europa pelas tropas da URSS e dos países comunistas».[6]
Ainda segundo o juiz italiano, o exército secreto português garantia, como a maior parte das outras redes da Europa Ocidental, uma dupla função. A rede sombra treinava-se secretamente para uma eventual invasão soviética e, enquanto aguardava essa invasão, perseguia os movimentos políticos de esquerda, seguindo estratégias de guerra clandestina praticadas em vários países da Europa ocidental.
A fundação da Aginter Press
Embora uma boa parte dos seus membros já tivesse anteriormente prestado serviço em diversos grupúsculos anticomunistas, a Aginter Press só foi oficialmente fundada em Lisboa em Setembro de 1966. Parece que os seus fundadores e a CIA se guiaram menos pelo receio duma invasão soviética do que pelas possibilidades de acção interna. Com efeito, este período foi marcado pelas manifestações da esquerda denunciando a guerra do Vietname e o apoio dado pelos Estados Unidos às ditaduras de extrema-direita na América Latina e na Europa, nomeadamente em Portugal. O ditador Salazar e a sua polícia, a PIDE, temiam especialmente as consequências de um tal movimento social susceptível de desestabilizar o regime e, por isso, recorreram à Aginter Press a fim de o travar.
A maior parte dos soldados de sombra que foram recrutados pela CIA para engrossar as fileiras deste exército secreto já tinham combatido em África e no Sudeste da Ásia, onde em vão tinham tentado impedir as antigas colónias europeias de aceder à independência.
O próprio director da Aginter Press, o capitão Yves Guérain-Sérac, católico fervoroso e ardente anticomunista recrutado pela CIA, era um antigo oficial do exército francês que tinha assistido à derrota da França frente ao Reich, durante a II Guerra Mundial. Tinha igualmente combatido na guerra da Indochina (1946-1954), na guerra da Coreia (1950-1953) e na guerra da Argélia (1954-1962). Prestara serviço na famosa 11.ª Semi-Brigada Pára-quedista de Choque, a unidade encarregada de golpes sujos sob as ordens do SDECE, o serviço francês de informações externas, também ele próximo da rede sombra Rosa dos Ventos.
Em 1961, juntamente com outros oficiais aguerridos da 11.º Semi-Brigada de Choque, Guérain-Sérac fundou a Organização do Exército Secreto (OAS), que lutou por uma Argélia francesa e tentou derrubar o governo do general de Gaulle para instaurar um regime autoritário anticomunista.
Da Argélia para Portugal
Depois de a Argélia ter acedido à independência, em 1962, e de o general de Gaulle ter dissolvido a OAS, os antigos oficiais do exército secreto, entre os quais Guérain-Sérac, corriam grande perigo. Fugiram da Argélia e ofereceram aos ditadores da América Latina e da Europa a sua valiosa experiência da guerra secreta, das operações clandestinas, do terrorismo e do contra-terrorismo, em troca do direito de asilo. [7]
Esta diáspora da OAS veio reforçar as organizações de activistas de extrema-direita em numerosos países. Em Junho de 1962, Franco apelou aos talentos de Yves Guérain-Sérac para que se juntasse ao combate do exército secreto espanhol contra a oposição. De Espanha, Guérain-Sérac passou a seguir para Portugal, que a seus olhos era o último império colonial e, sobretudo, o último bastião contra o comunismo e o ateísmo.
Como um perfeito soldado da guerra-fria, ofereceu os seus serviços a Salazar: «Os outros depuseram as armas, mas eu não. Depois da OAS, fugi para Portugal para continuar o combate e travá-lo à sua verdadeira escala, quer dizer, à escala planetária».[8]
Em Portugal, Guérain-Sérac associou-se a extremistas franceses e a renegados da OAS. O antigo pétainista Jacques Ploncard d'Assac apresentou-o nos meios fascistas e aos membros da PIDE. Dada a sua grande experiência, Guérain-Sérac foi recrutado como instrutor no seio da Legião Portuguesa e das unidades de contra-guerrilha do exército português.
Foi neste contexto que ele criou, com a ajuda da PIDE e da CIA, a Aginter Press, um exército anticomunista ultra-secreto. A organização constituiu os seus próprios campos de treino, nos quais mercenários e terroristas seguiam um programa de três semanas de formação em operações secretas que incluíam nomeadamente as técnicas de atentados à bomba, assassínios silenciosos, métodos de subversão, comunicações clandestinas, infiltração e guerra colonial.
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Tradução de Margarida Ferreira (Resistir.info)
Revisão e subtítulos da responsabilidade da redacção do Avante!
Daniele Ganser é um historiador suíço, especialista em relações internacionais contemporâneas. É professor na Universidade da Basileia.
Este artigo foi publicado em www.voltairenet.org/a170466
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Notas
[1] John Palmer, «Undercover NATO Group 'may have had terror links», The Guardian, 10 Novembro 1990.
[2] Michael Parenti, Against Empire (City Light Books, São Francisco, 1995), p.143.
[3] João Paulo Guerra, «"Gládio" actuou em Portugal», O Jornal, 16 de Novembro 1990.
[4] Senato della Repubblica. Commissione parlamentare d'inchiesta sul terrorismo in Italia e sulle cause della mancata individuazione dei responsabiliy delle stragi : Il terrorismo, le stragi ed il contesto storico politico. Redatta dal presidente della Commissione, sénateur Giovanni Pellegrino. Roma 1995, pp. 204 e 241.
[5] Commissione parlamentare d'inchiesta sul terrorismo in Italia e sulle cause della mancata individuazione dei responsabili delle stragi. 12ª sessão, 20 de Março 1997
[6] Commissione parlamentare d'inchiesta sul terrorismo in Italia e sulle cause della mancata individuazione dei responsabili delle stragi. 9ª sessão, 12 de Fevereiro 1997
[7] Jeffrey M. Bale, «Right wing Terrorists and the Extraparliamentary Left in Post World War 2 Europe : Collusion or Manipulation?» Lobster Magazine, n.º 2, Outubro 1989, p.6.
[8] Paris Match, Novembro de 1974. Citado em Stuart Christie, Stefano delle Chiaie (Anarchy Publications, Londres, 1984), p.27.