A ROUBALHEIRA PROSSEGUE

«Apesar da ofen­siva vi­sando des­mo­bi­lizar os tra­ba­lha­dores e as po­pu­la­ções, a luta con­tinua»

Os co­men­ta­dores de ser­viço à po­lí­tica de di­reita andam numa roda-viva. E não é caso para menos, se ti­vermos em conta o vo­lume de «ar­gu­mentos» que têm que in­ventar para levar ao seu porto a ta­refa pela qual são pagos. Com efeito, a ofen­siva ide­o­ló­gica que sus­tenta a po­lí­tica de di­reita, sempre im­por­tante, é-o mais ainda neste tempo em que um novo-velho Go­verno – desta vez do PSD/​CDS, como antes o foi do PS; e antes tinha sido, outra vez, do PSD; e antes ainda no­va­mente do PS; e por aí fora até 1976… - dá os pri­meiros passos no cum­pri­mento do com­pro­misso as­su­mido pelos três par­tidos da po­lí­tica de di­reita com o grande ca­pital, de des­truir tudo o que resta da Re­vo­lução de Abril - neste tempo em que o vale-tudo é rei em tudo o que toca à de­fesa dos in­te­resses dos grandes e po­de­rosos.

E o que é pre­ciso é deixar o go­verno fazer o que quer fazer, in­si­nuam, o que é pre­ciso é que as ví­timas da po­lí­tica do go­verno aceitem como na­tural, ine­vi­tável, pa­trió­tica, até, essa si­tu­ação de ví­timas - ou, dito por pa­la­vras deles: o Go­verno não deve ser cri­ti­cado porque ainda agora tomou posse e há que con­ceder-lhe o «be­ne­fício da dú­vida». Como se ti­vessem al­guma dú­vida, pe­quena que seja, sobre o con­teúdo e o ca­rácter da po­lí­tica do Go­verno e sobre as suas con­sequên­cias trá­gicas para a imensa mai­oria dos por­tu­gueses. E sobre as enor­mís­simas van­ta­gens e be­ne­fí­cios para os grandes grupos eco­nó­micos e fi­nan­ceiros.

De braço dado com o «be­ne­fício da dú­vida» segue o «es­tado de graça» - ideia, aliás, que as­senta na cer­teza que todos eles têm na ine­vi­tável che­gada do es­tado de des­graça...

E é assim, ali­men­tando a «graça», que pro­curam ocultar a des­graça que as­solou os lares de mi­lhões de por­tu­gueses com a vaga de roubos com os quais o Go­verno Passos Co­elho/​Paulo Portas ini­ciou a sua ca­mi­nhada de mal­fei­to­rias contra os tra­ba­lha­dores e o povo.

 

Outra pre­o­cu­pação dos co­men­ta­dores de ser­viço é a de ir ali­men­tando a ideia de que a «crise exige sa­cri­fí­cios» e que os «sa­cri­fí­cios são para todos», para o que afastam das suas aná­lises os factos con­cretos que são, por um lado, a de­gra­dação cres­cente das con­di­ções de tra­balho e de vida dos tra­ba­lha­dores e do povo e, do outro lado, o au­mento cres­cente das for­tunas dos que vivem à custa de quem tra­balha.

Todos esses co­men­ta­dores sabem que os sa­cri­fí­cios, o apertar do cinto, hoje como ao longo das mais de três dé­cadas de go­vernos de po­lí­tica de di­reita, foram e são sempre e apenas para os tra­ba­lha­dores e para o povo.

O Go­verno ini­ciou a sua acção com um con­junto de me­didas bem elu­ci­da­tivas sobre os seus ob­jec­tivos: co­meçou por anun­ciar a mi­lhões de tra­ba­lha­dores e de re­for­mados o roubo de me­tade do sub­sídio de Natal; ao mesmo tempo, anun­ciou as al­te­ra­ções para pior – para muito pior – do Có­digo do Tra­balho - e tanta é a pressa em roubar di­reitos aos tra­ba­lha­dores e às suas or­ga­ni­za­ções de classe, que, abu­sando do poder de que dispõe, de­cidiu avançar com a dis­cussão no Par­la­mento antes mesmo da obri­ga­tória dis­cussão pú­blica.

Agora, foi o novo as­salto aos bolsos dos tra­ba­lha­dores com o au­mento dos trans­portes pú­blicos – o mais brutal au­mento de trans­portes de que há me­mória, como jus­ta­mente su­blinha o PCP no do­cu­mento am­pla­mente dis­tri­buído a nível na­ci­onal nos úl­timos dias.

Trata-se de mais um roubo – a con­firmar que roubar é o ofício deste Go­verno - também ele fun­da­men­tado na men­tira, como jus­ta­mente foi de­nun­ciado na con­fe­rência de im­prensa con­junta de sin­di­catos da CGTP-IN, do mo­vi­mento de utentes e das co­mis­sões de tra­ba­lha­dores: «para os tra­ba­lha­dores e para o povo é sempre a roubar – roubam no sub­sídio de Natal, roubam com o au­mento do IMI, do IRS e do IVA, roubam com o au­mento das taxas na saúde, roubam com o con­ge­la­mento dos sa­lá­rios, roubam nas in­dem­ni­za­ções em casos de des­pe­di­mento, roubam nas pen­sões – e para os ban­queiros, para os grupos eco­nó­micos, para os ca­pi­ta­listas em geral, é sempre a “in­cen­tivar”: 12 mil mi­lhões para os au­mentos de ca­pital na banca, menos des­pesas com sa­lá­rios e in­dem­ni­za­ções, oferta de mi­lhões aos ac­ci­o­nistas das em­presas onde o Es­tado li­quidou as suas golden shares, oferta de em­presas pú­blica a preço de saldo, etc.».

Não se pode ser mais claro.

 

A ofen­siva ide­o­ló­gica, de que esses co­men­ta­dores são ins­tru­mento es­sen­cial e que cons­titui peça de­ci­siva nos planos da po­lí­tica de di­reita, tem no ataque à luta de massas a sua linha fun­da­mental.

Des­va­lo­rizar a luta, de­cretá-la inútil e des­ne­ces­sária, con­trária ao «in­te­resse na­ci­onal», anti-pa­trió­tica, até, se for caso disso, e juntar a esse caldo de ma­ni­pu­lação, os in­gre­di­entes com os quais tentam gerar a re­sig­nação, a pas­si­vi­dade, o não-vale-a-pena, são al­guns dos ca­mi­nhos se­guidos por esses pro­pa­gan­distas - ca­mi­nhos com­ple­men­tados com a di­fusão das ideias sobre su­postas ater­ra­doras con­sequên­cias do fa­lhanço do ne­gócio das troikas e con­cretas me­didas de in­ti­mi­dação, chan­tagem e re­pre­sá­lias nos in­te­ri­ores das em­presas – com as quais fa­bricam he­si­ta­ções e medos.

No en­tanto, e apesar de toda esta forte ofen­siva vi­sando des­mo­bi­lizar os tra­ba­lha­dores e as po­pu­la­ções, a luta con­tinua – e con­ti­nuará.

As ma­ni­fes­ta­ções do mês pas­sado e as ac­ções da úl­tima se­gunda-feira contra o au­mento dos trans­portes, par­ti­cu­lar­mente em Lisboa e no Porto, bem como o so­noro bu­zinão dos utentes da Ponte 25 de Abril, são exem­plos de pro­testos po­pu­lares sig­ni­fi­ca­tivos, es­pe­ci­al­mente se ti­vermos em conta o tempo de fé­rias – e que, acima de tudo, con­firmam a dis­po­ni­bi­li­dade dos tra­ba­lha­dores e das po­pu­la­ções para as lutas, ne­ces­sa­ri­a­mente mais fortes e mais par­ti­ci­padas, do fu­turo ime­diato.