Os pestíferos

Correia da Fonseca

Um dia destes, um pouco por acaso ou talvez não, dei de caras com uma entrevista de José Gomes Ferreira, subdirector de Informação da SIC especialmente votado à área de economia e finanças, ao Prof. Dr. João Ferreira do Amaral, homem cujo apelido não deve levar-nos a confundi-lo com outros Ferreira do Amaral, um que foi ministro PSD nem quero lembrar-me de quê e é agora presidente da Lusoponte, outro que suponho integrar os minguados arraiais de D. Duarte Pio. Ora, acontecia que naquela entrevista João Ferreira do Amaral se aplicava a fazer uma coisa nunca ou raramente vista em qualquer dos canais da televisão portuguesa: preconizava com óbvia convicção e argumentos firmes a saída de Portugal do chamado eurogrupo. E José Gomes Ferreira, que já deu provas bastantes de não se conformar com o estatuto de mera peça decorativa no contexto da estação onde trabalha, ouvia-o com evidente interesse e mesmo manifesta curiosidade. Olhando-o, dir-se-ia que nunca ele ouvira palavras que lhe soariam tão estranhas, tão fora do que é costume ouvir, e essa novidade para os seus ouvidos abrir-lhe-ia portas novas para o entendimento das coisas. Na verdade, para o telespectador atento, era quase tão interessante olhar José Gomes Ferreira quanto ouvir João Ferreira do Amaral, o que não é dizer pouco. E era inevitável atribuir a surpresa que parecia ler-se nos olhos do entrevistador ao facto de o professor sustentar uma opinião contrária à generalidade das opiniões suposta ou efectivamente doutas que os canais de TV quase quotidianamente nos fornecem acerca dos delicados problemas que, pelos vistos, a nossa permanência no eurogrupo, e antes disso a nossa adesão à chamada moeda única, suscitam. Como se sabe, a regra é ouvir-se que o eventual abandono do euro corresponderia a um terrível cataclismo que tudo arrasaria. Com uma firmeza pelo menos impressionante, João Ferreira do Amaral sustenta exactamente o contrário: que o cataclismo pode situar-se na obstinação em manter o euro sem que haja condições para isso.

 

De súbito, a realidade

 

Acontece, porém, que os entendimentos de João Ferreira do Amaral quanto a esta fundamentalíssima questão não são tão raros quanto podem parecer ao chamado telespectador comum, se é que esta espécie biológica existe e é mais que mera abstracção. Quem quiser e puder ter memória, recordar-se-á talvez das objecções que na altura própria o PCP e economistas da sua área política formularam ao projecto de adesão ao euro, prevendo entre outras consequências o esmagamento de sectores débeis da economia nacional perante o impacto da nova moeda associado à obrigação de abrir as nossas fronteiras económicas. Ao contrário do que parecerá ao cidadão telespectador descuidado e inocente, essa linha de pensamento e de estudo existe, nem todos os economistas são resultado da linha neoliberal de produção em cadeia do dr. João Duque, similares e correlativos, de que os estúdios das estações portuguesas de TV estão apinhados. Lá muito de longe em longe, ao «Prós e Contras» ocorre que também existem o prof. dr. Sérgio Ribeiro ou o dr. Carlos Carvalhas, mas sempre eles surgem tarde nos horários e convenientemente diluídos num suficiente magote de criaturas de sinal contrário. De um modo geral, bem se pode dizer que ninguém dá por eles, tal como ninguém recorda um livro que em 97 foi publicado, «Não à Moeda Única» de seu título, que devia agora ser lembrado pelo menos em reconhecimento do acerto do que nele era dito. A questão é que os economistas que arrancam do marxismo para uma visão realista, científica, do mundo e dos seus problemas, são encarados pelos media em geral e pela TV em particular como uma espécie de pestíferos cujo contacto convém evitar. Talvez agora a dura realidade possa introduzir alguma alteração a essa segregação nada inocente. Talvez a entrevista a João Ferreira do Amaral, insuspeito de ligação a partidos incómodos, contribua para romper boicotes. Esta é uma hipótese improvável e de um optimismo quase tonto, mas digamos que, sob o impacto de crescentes evidências, talvez os critérios de acesso aos estúdios de televisão ganhem alguma compatibilidade com o pluralismo e o interesse nacional.



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