O adensar da confusão e da pobreza – I
Como é característica de fases como esta que estamos a atravessar, as notícias que se publicam do País e do mundo são em geral confusas, contraditórias e incompletas. Há sempre verdades a ocultar e secretos interesses a defender.
Assim acontece em relação à crise económica do capitalismo, um desastre multifacetado que irá atingir as vidas de todos nós, cidadãos comuns. Mas se lermos os noticiários, de fio a pavio, fica-nos a certeza de que o processo que está em curso envolve manobras complexas tendentes a garantir que o que já agora se revela criminoso permaneça e ainda mais se agrave. Os muito ricos ficarão cada vez mais ricos e os muito pobres cada vez mais pobres; dos menos ricos, uns baixarão de escalão e empobrecerão, outros pelo contrário, enriquecerão subitamente e sem explicação aparente; mas o povo, o imenso «exército de reserva» a que pertencemos, será cilindrado pelo desemprego, pelos cortes salariais, pelo agravamento dos preços, pelo aumento dos impostos e pela marginalização social. Tudo sem nos ser explicado por quê. A pobreza vai alastrar no meio da confusão.
Os ministros metem os pés pelas mãos. As teses oficiais baralham as pistas e fica-se na dúvida se a crise resulta de os trabalhadores não quererem trabalhar, se as vozes dos patrões não estão a ser ouvidas ou se os jovens de hoje não são como eram os de ontem mas... piores. Uma tentativa para impor a escravos e ignorantes uma espécie de «Metafísica do Trabalho».
Na realidade, esta crise do capitalismo tem dupla face. É grave e é perigosa para os cidadãos por resultar do assalto ao poder movido por organismos anónimos do grande capital já anteriormente responsáveis pelo arruinar da economia. O outro sintoma grave é que, a ter sucesso, esta gigantesca manobra consolidaria no terreno uma malha poderosa de mercados – ou monopólios privados com poderes de Estado – prontos a sanear o sistema monetário, a reciclar e absorver as pequenas fortunas, a moralizar os preços, a economizar nos custos sociais e a disciplinar o trabalho.
Caso assim acontecesse, ter-se-ia passado a um novo e perigoso patamar da ofensiva neocapitalista.
A crise e a hierarquia
A crise do euro não é apenas financeira. Na perspectiva mais optimista das fortunas, o sinal negativo poderá vir a inverter-se. Talvez mesmo se transforme em ponto de partida para novas situações comparáveis a uma verdadeira vaga de fundo, a uma «contra-reforma». Aproveita-se o que é mau para fazer pior.
É por isso que começa agora a ganhar evidência a aliança estratégica entre o capital (ou os mercados) e a esfera eclesiástica, oculta na penumbra mas poderosa. Banqueiros e políticos comandam as fortunas; os bispos detêm o segredo das técnicas da alquimia da pobreza e do desemprego ao serviço dos interesses privados; e o Estado capitalista funciona como banqueiro dessa monumental conspiração. Nestes quadros gerais, a milenar trilogia – «Estado/Igreja/sociedade civil» – deve cruzar interesses próprios e fixar a reacção nos postos políticos de comando, por tempo ilimitado.
Recorde-se alguns factos recentes. As pedras do «dominó» vão-se encaixando.
Ainda há poucos dias, com o patrocínio do Governo de Sócrates, a Universidade Católica foi galardoada com um prémio pela forma como prepara técnicos em economia capitalista de mercado. Observam os analistas do Financial Times: «Contrariando a tendência de crescimento do desemprego em Portugal, 100% dos alunos da Católica são colocados no mercado de trabalho num máximo de três meses após o término do seu curso». Dias depois, o candidato à PR, Cavaco Silva, tomaria o compromisso público de vetar qualquer decisão dos outros órgãos de soberania que prejudicassem os apoios financeiros aos colégios do ensino privado, isto é – à Igreja.
Noutro caso, «para acalmar os mercados», o Governo cortou recentemente, na área social, milhões de euros nas verbas dos apoios previstos para os mais desprotegidos, para as pensões mais baixas, para as famílias, etc. Reduziu, assim, o famigerado défice público. Simultaneamente, anunciou a atribuição a creches e lares da Igreja católica de 1,25 mil milhões de euros. Agravou o défice, beneficiou amigos, garantiu votos e ainda ficou a lucrar com os cortes iniciais. Uma vez mais os cidadãos financiaram passivamente a sua própria pobreza.
Sobre o «combate à pobreza» e o «jogo às escondidas» que ele encerra também há muito a dizer.