Ensaiada há largas semanas, saltou finalmente para um mais mediatizado palco a forjada negociação orçamental que PS e PSD entenderam oferecer ao país. Teatralizada quanto baste, a peça em cena promete: com um texto redigido pela mão dos grupos financeiros a que não tem faltado a empolgada critica favorável dos colunistas de serviço, a presença de Cavaco Silva como contra-regra deu outro fôlego de representação aos figurantes de serviço nesta dramatizada encenação sobre o Orçamento de Estado.
Não fossem dramáticas, essas sim, as consequências para os trabalhadores e para o país do Orçamento que PS e PSD ultimam e sem dificuldade se esboçaria um sorriso de ironia perante a farsa levada a cena: uma «negociação» parlamentar à margem dos deputados; um enviado de Cavaco a negociar em nome do PSD; o ministro das Finanças a falar em nome da bancada parlamentar do PS; o PSD a fingir discordância naquilo em que quase tudo converge com o PS; a gravidade das expressões postas nas lacónicas declarações a propósito das rondas «negociais»; o tom cínico com que Cavaco elogia a atmosfera construtiva dos envolvidos; os gritos de alma de Passos Coelho para parecer que existe. Ironia tão mais exposta quanto se sabe que para lá daquela sala e daquela mesa estão os que verdadeiramente decidem – a banca e os grupos económicos – como bem fizeram saber quando em tempo oportuno e em visitas a Belém, ao Rato e à Lapa, determinaram o que fazer.
Entretidos a fingir diferenças, ao PS e PSD une-os as mesmas e dominantes opções políticas, económicas e orçamentais. Ali não se ouve uma palavra de divergência sobre o roubo nos salários, os cortes nos apoios sociais, o ataque ao serviço nacional de saúde ou à escola pública, o rumo de declínio económico. Apenas conversa redonda sobre despesa e receita para justificar tudo o que querem fazer pesar sobre as costas dos trabalhadores e do povo para manter intocáveis os interesses do capital e da sua insaciável acumulação dos lucros.