Derrapagens I

O Es­tado pagou, até ao final do pri­meiro tri­mestre deste ano, 888 mi­lhões de euros em en­cargos com as par­ce­rias pú­blico-pri­vadas – obras que os pri­vados cons­troem e que o Go­verno vai de­pois pa­gando ao longo dos anos. Trata-se de um au­mento su­pe­rior a 18% em re­lação ao que es­tava pre­visto, o que le­vanta a pri­meira per­ple­xi­dade: como é pos­sível haver tal «der­ra­pagem» (18%, sobre muitos mi­lhões de euros, é uma ver­da­deira bru­ta­li­dade) em pa­ga­mentos que estão or­ça­men­tados e pro­vi­si­o­nados quase ao cên­timo? Dito de outra forma, como pode haver «der­ra­pagem» em pa­ga­mentos sobre obras já feitas e com­ple­ta­mente aca­badas na al­tura em que se de­ter­minou (e or­ça­mentou) o seu pa­ga­mento para o fu­turo ime­diato?

Tornou-se cor­ri­queiro, neste re­gime de «bloco cen­tral» - onde o com­pa­drio está quase ins­ti­tu­ci­o­na­li­zado -, que o custo das obras pú­blicas pro­gra­madas e or­ça­men­tadas «der­rape» sis­te­má­tica e ge­o­me­tri­ca­mente ao longo da sua cons­trução (apenas dois exem­plos re­centes: a Casa da Mú­sica, no Porto, ou a nova ponte em Coimbra cus­taram dez vezes mais que o pre­visto). Mas «der­rapar» também o custo de obras já feitas, con­clui­dís­simas e a fun­ci­onar... é mais uma «no­vi­dade» da pan­dilha go­ver­na­mental PS/​PSD que se ins­talou no País.

 

Der­ra­pa­gens II

 

Ao mesmo tempo, o in­ves­ti­mento di­recto da ad­mi­nis­tração em obras pú­blicas tem vindo a di­mi­nuir, e não em pe­quenas quan­ti­dades: os úl­timos anos (os dos Go­vernos Só­crates, pre­ci­sa­mente) apontam para um recuo de 40% face ao total pro­me­tido em cada novo Or­ça­mento do Es­tado (o tal, agora, «der­re­pen­te­mente» vital).

Ou seja: sob a «co­ra­josa» di­recção so­crá­tica, o Es­tado passou a gastar, em obras pú­blicas, menos 40% do que pro­mete em Or­ça­mento de Es­tado (quase me­tade a menos)... e a pagar mais 18% do que ca­bi­mentou para pagar aos pri­vados por obras já feitas, con­cluídas e a fun­ci­onar.

Como diria a sau­dosa tia de todos nós... não há pa­la­vras.

 

Ins­ti­tu­ci­o­na­li­zados

 

Diz o Diário de No­tí­cias em pri­meira pá­gina que, em 2009, os pais si­na­li­zaram às co­mis­sões de pro­tecção de me­nores e tri­bu­nais 2342 casos dos pró­prios fi­lhos, por se con­si­de­rarem «in­ca­pazes de fazer valer a sua au­to­ri­dade». Muitos desses fi­lhos aca­baram (ou já es­tavam) «ins­ti­tu­ci­o­na­li­zados», ou seja, à guarda de ins­ti­tui­ções es­ta­tais vo­ca­ci­o­nadas para «guardar» e «dis­ci­plinar» jo­vens de­lin­quentes.

Ob­vi­a­mente, temos aqui mais uma aflo­ração – e dra­ma­ti­ca­mente con­creta – da de­ses­tru­tu­ração so­cial e fa­mi­liar que o de­sem­prego está a fazer alas­trar pelo nosso País.

Com um por­menor ainda mais si­nistro: dada a ac­tual po­lí­tica go­ver­na­mental de cortar em tudo o que cheire a «apoio so­cial», um dia destes, estes pais de­ses­pe­rados já nem podem «si­na­lizar» os fi­lhos que não con­trolam porque... não terão, se­quer, ins­ti­tui­ções es­ta­tais a quem se di­rigir.

Quanto aos fi­lhos, pro­pri­a­mente ditos, resta-lhes ob­vi­a­mente um único ca­minho – o da so­bre­vi­vência na mar­gi­na­li­dade. O que, também ob­vi­a­mente, não per­turba os «so­ci­a­listas» que nos des­go­vernam nem os «so­ciais-de­mo­cratas» que, com eles, par­ti­lham e dis­putam o bolo do poder.



Mais artigos de: Argumentos

Os lugares tristes

Eram lugares acanhados e propositadamente sombrios para que a penumbra encobrisse os rostos envergonhados que se abeiravam dos balcões velhos. Eram as chamadas «casas de prego», muito em voga nos anos do fascismo de que alguns exprimem hoje inconsoláveis saudades. Ali acorriam, tristonhos, os...

O mercado da política

Aqui há duas semanas, houve em Madrid umas eleições «primárias» dentro do PSOE, para designar o candidato que se vai enfrentar à actual presidente da Região Autónoma de Madrid, desde há largos anos membro do PP (sector extrema direita), Esperanza...

Investimentos e fontes da caridade cristã

Na Comunidade Europeia e na generalidade dos países capitalistas a Igreja católica e as instituições dela dependentes (sobretudo na área social) funcionam como uma zona franca pronta a receber capitais das mais diferentes origens. Torrentes de dinheiro jorram a todo o momento nos cofres...