Política de feijão-frade

Aurélio Santos

«O PS é o partido dos direitos sociais».

Pasme-se: é com esta espécie de declaração de princípios que o PS se está a apresentar!

Num discurso diário e ininterrupto, o Governo e o PS, pela voz do primeiro-ministro e secretário-geral, é apresentada uma sucessão de afirmações retóricas como fundamento das suas decisões, a par de uma recusa liminar de debater a sua prática política. A tal ponto que o primeiro-ministro, falho de razões, tem chegado a utilizar como último argumento de resposta retumbante a qualquer crítica à sua política: «Isso não passa de politiquices. Deixem-se de politiquices».

Rebaixar o nível do debate político a este ponto não é forma de responder. E implica um risco de consequências graves: o de desacreditar a própria actividade política e a intervenção que nela todos os cidadãos têm direito a desempenhar.

Indo às causas do descrédito que na sociedade portuguesa está afectando a actividade política é inevitável concluir que a contradição entre as palavras do PS e sua prática tem grande responsabilidade nessa situação.

O PS procura legitimidade para a sua política evocando ideias, valores e conceitos democráticos. As palavras utilizadas são as mesmas. O significado prático é completamente diferente. Mas é sobre esse conteúdo real que tem de definir a sua actuação quem apoia o PS. E também quem é por ele apoiado, evidentemente. Porque, como diz o nosso povo, «quem cala consente» – e «tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta».

O PS tem uma política de duas caras – como o feijão-frade.

É uma política de direita – mas não se arrisca a apresentá-la como tal. Abandonou o «Estado social» – mas não se arrisca a reconhecê-lo. Está cada vez mais longe do Portugal de Abril – mas não se arrisca a confessá-lo. Caiu há muito num plano inclinado, a tentar «fazer passar» uma política de direita com um rótulo de esquerda.

O pior é o que daí pode resultar em descrédito para o regime democrático.

E por isso é necessário gritar bem alto, e cada vez com mais força, o desacordo, o nosso protesto, a nossa luta – contra essa política de feijão-frade.



Mais artigos de: Opinião

Honduras: a resistência continua

Há quinze meses, em 28/6/2009, um golpe militar destituiu o presidente legítimo das Honduras, Manuel Zelaya, e instalou no poder o chefe local dos golpistas, o fascista Micheletti. O golpe – tendo como objectivo liquidar o processo democrático e progressista em curso e restabelecer o...

Venezuela: Uma vitória da Revolução!

Em 2006, o candidato da oligarquia venezuelana, Manuel Rosales, obteve 4,3 milhões de votos. Com essa votação, teria ganho qualquer eleição presidencial realizada na Venezuela até à altura (para dar uma ideia, Caldera foi eleito presidente em 93 com 1,7 milhões...

Brutos, claro

Um dia depois de terem ouvido Angel Gurría, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), apresentar em Lisboa a «receita» para a redução do défice e consolidação das contas...

Venezuela, importante vitória

As eleições legislativas de 26 de Setembro na Venezuela tiveram um vencedor claro. A aliança revolucionária constituída pelo PSUV, PCV e outras organizações aliadas conquistou a maioria absoluta dos assentos parlamentares (98 em 165). Um resultado que corresponde ao maior...