A palavra de ordem é «saquear os pobres»!…
No antiquíssimo conto oriental Ali Babá e os 40 ladrões diz-se que uma quadrilha de salteadores do deserto fazia quartel-general numa caverna que, simultaneamente, lhe servia de armazém para o produto dos saques. Numa era tão distante, quando electrónica era palavra sem sentido, a caverna já dispunha de um sofisticado sistema de segurança: ninguém lá podia entrar se não conhecesse esta cifra mágica: «Abre-te, Sésamo!». É curioso como tudo isto se ajusta ao governo e à «sociedade civil» portuguesa dos nossos dias. Uma grande quadrilha, uma sede secreta e um acesso ao local reservado aos iniciados na sociedade do crime.
Estamos, certamente, em vésperas de acontecimentos decisivos. O governo de Sócrates toma medidas aparentemente disparatadas mas que fazem sentido nos planos do saque e destruição final do regime democrático, através da anarquia das leis e da bancarrota: aumenta a dívida pública, não paga a quem deve, finge ignorar a corrupção, a inflação e o desemprego, acelera a sabotagem do Estado social, destrói e fragiliza direitos dos trabalhadores (sempre da base para o topo), agrava impostos, recusa actualizar salários, descaracteriza pensões e mente sistematicamente quando justifica o facto consumado das suas medidas anticonstitucionais. Por entre as ruínas que provocam, os saqueadores procuram, todavia, projectar de si mesmos uma imagem de honestidade e segurança. Recorrem à arquitectura verbal de sentido ético. Os remédios aumentam de preço porque os doentes fazem negócio com os subsídios. As escolas encerram porque é função do Estado garantir a todas as crianças a mesma qualidade de ensino. O Estado fecha ou transfere para locais distantes postos de saúde, porque zela pelos interesses das populações, segundo os princípios democráticos da igualdade para todos e da fraternidade. E em tudo o mais que faz ou deixa de fazer o governo e as forças que aberta ou ocultamente o apoiam revelam planos bem delineados, unidade na acção e convergência de esforços que uma palavra de ordem pode resumir: «Acelerar a pilhagem dos pobres e abrir caminho a uma Nova Ordem»!
Saquear a democracia e salvar a face…
Vamos agora entrar numa fase superior deste processo de acumulação do saque e branqueamento da imagem. A passo acelerado, os poderes considerados representativos da vontade popular irão pronunciar-se acerca de um Orçamento de Estado baseado em critérios e em dados estatísticos claramente manipulados, assim como darão os primeiros passos no sentido de fazer aprovar uma revisão constitucional destinada a repor situações de facto já impostas ou tentadas antes do 25 de Abril. Como não poderia deixar de ser, o Estado social (Saúde, Ensino, Segurança Social) é o primeiro alvo a atingir. Simultaneamente, também é considerada prioritária a área do emprego, aumentando o desemprego com a flexibilização das causas dos despedimento e o esvaziamento legal das garantias do trabalho estável, menor oferta de postos de trabalho, conceito de mobilidade levado ao extremo, salários mais baixos e desmantelamento dos actuais direitos e garantias laborais. Ainda há muito mais, mas apenas estas alterações bastariam para tornar intoleráveis os níveis da pobreza e o abismo que separa, em Portugal, o fosso entre pobres, ricos e novos ricos. O povo ainda não sentiu na pele a miséria que estes anúncios governamentais encerram mas esse momento chegará a muito curto prazo.
A traços grosseiros e incompletos, pode acentuar-se que as tentativas de destruição das Conquistas de Abril se irão sem dúvida apoiar na duplicidade dos conceitos de crise financeira (tudo para a banca, nada para as massas trabalhadoras ou dependentes), de financiamento público (tudo para os grandes negócios público-privados, nada para o desenvolvimento económico interno) e de deveres sociais do Estado (passando-se de um estatuto institucional «público» coexistente com outro «privado», para um sistema misto em que as instituições da sociedade civil se substituem às estatais e são altamente principescamente pagas pelo Orçamento do Estado).
Tal como na velha e revelha história de Ali Babá, à cova dos actuais salteadores do deserto só acedem aqueles que conhecem a fórmula mágica e cabalística inspirada numa mente divina que tanto pode ser o FMI como o Banco do Vaticano. No primeiro caso, porque o FMI é uma superestrutura financeira que controla mega-estruturas nacionais e regionais. Tem nas suas mãos o dinheiro que a ambição possa desejar.
No segundo caso porque, por si só, o poder da organização e da capacidade de mobilização financeira do Vaticano surge a par das ambiciosas posições do FMI. Junte-se a isto o reconhecimento do facto de a Igreja ter tido capacidade para tecer em todo o mundo uma fina malha de centros católicos de acção política e social (as IPSS, as ONG, etc.), teoricamente descentralizadas mas rigidamente obedientes ao comando central nas linhas da obediência e da disciplina na acção.
É esta a próxima batalha que iremos travar, precursora das muitas outras que se adivinham. É a luta de classes num embate final que os trabalhadores saberão vencer.
Escreveu Lénine: «A revolução social é uma tempestade depuradora depois da qual se respira melhor!».