A palavra de ordem é «saquear os pobres»!…

Jorge Messias

No antiquíssimo conto oriental Ali Babá e os 40 ladrões diz-se que uma quadrilha de salteadores do deserto fazia quartel-general numa caverna que, simultaneamente, lhe servia de armazém para o produto dos saques. Numa era tão distante, quando electrónica era palavra sem sentido, a caverna já dispunha de um sofisticado sistema de segurança: ninguém lá podia entrar se não conhecesse esta cifra mágica: «Abre-te, Sésamo!». É curioso como tudo isto se ajusta ao governo e à «sociedade civil» portuguesa dos nossos dias. Uma grande quadrilha, uma sede secreta e um acesso ao local reservado aos iniciados na sociedade do crime.

Estamos, certamente, em vésperas de acontecimentos decisivos. O governo de Sócrates toma medidas aparentemente disparatadas mas que fazem sentido nos planos do saque e destruição final do regime democrático,  através da anarquia das leis e da bancarrota: aumenta a dívida pública, não paga a quem deve, finge ignorar a corrupção, a inflação e o desemprego, acelera a sabotagem do Estado social, destrói e fragiliza direitos dos trabalhadores (sempre da base para o topo), agrava impostos, recusa actualizar salários, descaracteriza pensões e mente sistematicamente quando justifica o facto consumado das suas medidas anticonstitucionais. Por entre as ruínas que provocam, os saqueadores procuram, todavia, projectar de si mesmos uma imagem de honestidade e segurança. Recorrem à arquitectura verbal de sentido ético. Os remédios aumentam de preço porque os doentes fazem negócio com os subsídios. As escolas encerram porque é função do Estado garantir a todas as crianças a mesma qualidade de ensino. O Estado fecha ou transfere para locais distantes postos de saúde, porque zela pelos interesses das populações, segundo os princípios democráticos da igualdade para todos e da fraternidade. E em tudo o mais que faz ou deixa de fazer o governo e as forças que aberta ou ocultamente o apoiam revelam  planos bem delineados, unidade na acção e convergência de esforços que uma palavra de ordem pode resumir: «Acelerar a pilhagem dos pobres e abrir caminho a uma Nova Ordem»!

 

Saquear a democracia e salvar a face…

           

Vamos agora entrar numa fase superior deste processo de acumulação do saque e branqueamento da imagem. A passo acelerado, os poderes considerados representativos da vontade popular irão pronunciar-se acerca de um Orçamento de Estado baseado em critérios e em dados estatísticos claramente manipulados, assim como darão os primeiros passos no sentido de fazer aprovar uma revisão constitucional destinada a repor situações de facto já impostas ou tentadas antes do 25 de Abril. Como não poderia deixar de ser, o Estado social (Saúde, Ensino, Segurança Social) é o primeiro alvo a atingir. Simultaneamente, também é considerada prioritária a área do emprego, aumentando o desemprego com a flexibilização das causas dos despedimento e o esvaziamento legal das garantias do trabalho estável, menor oferta de postos de trabalho, conceito de mobilidade levado ao extremo, salários mais baixos e desmantelamento dos actuais direitos e garantias laborais. Ainda há muito mais, mas apenas estas alterações bastariam para tornar intoleráveis os níveis da pobreza e o abismo que separa, em Portugal, o fosso entre pobres, ricos e novos ricos. O povo ainda não sentiu na pele a miséria que estes anúncios governamentais encerram mas esse momento chegará a muito curto prazo.

A traços grosseiros e incompletos, pode acentuar-se que as tentativas de destruição das Conquistas de Abril se irão sem dúvida apoiar na duplicidade dos conceitos de crise financeira (tudo para a banca, nada para as massas trabalhadoras ou dependentes), de financiamento público (tudo para os grandes negócios público-privados, nada para o desenvolvimento económico interno) e de deveres sociais do Estado (passando-se de um estatuto institucional «público» coexistente com outro «privado», para um sistema misto em que as instituições da sociedade civil se substituem às estatais e são altamente principescamente pagas pelo Orçamento do Estado).

Tal como na velha e revelha história de Ali Babá, à cova dos actuais salteadores do deserto só acedem aqueles que conhecem a fórmula mágica e cabalística inspirada numa mente divina que tanto pode ser o FMI como o Banco do Vaticano. No primeiro caso, porque o FMI é uma superestrutura financeira que controla mega-estruturas nacionais e regionais. Tem nas suas mãos o dinheiro que a ambição possa desejar.

No segundo caso porque, por si só, o poder da organização e da capacidade de mobilização financeira do Vaticano surge a par das ambiciosas posições do FMI. Junte-se a isto o reconhecimento do facto de a Igreja ter tido capacidade para tecer em todo o mundo uma fina malha de centros católicos de acção  política e social (as IPSS, as ONG, etc.), teoricamente descentralizadas mas rigidamente obedientes ao comando central nas linhas da obediência e da disciplina na acção.

É esta a próxima batalha que iremos travar, precursora das muitas outras que se adivinham. É a luta de classes num embate final que os trabalhadores saberão vencer.

Escreveu Lénine: «A revolução social é uma tempestade depuradora depois da qual se respira melhor!».



Mais artigos de: Argumentos

Economia

A Dona Economia volta a estar na berra. Chamam-lhe «Macro», mas é só apelido. E se a gente já tivesse esquecido, lembram-nos – os governantes e as suas sombras do PSD, as muletas do BE fingem que só ajudam à «alegria» – que a economia está...

Sem relógio de pulso

Há homens com pouca sorte. Ou, pelo menos, que vivem momentos de manifesto azar. Por exemplo, Carvalho da Silva. Estava ele sentado no palco do Teatro Camões para que no programa «Prós e Contras» participasse com outros convidados num debate acerca da situação...

Enganos da arrogância,<br>medos decadentistas...

Ainda durante este Verão quente de 2010 tive de ouvir a um mestre, ou encarregado, de obras a afirmação, ao seu cliente, para o caso era eu, que o autoclismo em minha casa era recente, sim, mas já estava estragado, mesmo sendo recente, porque devia ser chinês, o canalizador tinha-me...

Trovas Antigas, Saudades Loucas

Prossegue na RTP-1 o contributo para a candidatura do Fado à Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, uma iniciativa da EGEAC/Museu do Fado. Esta semana o canal público inicia a apresentação de uma série intitulada Trovas Antigas, Saudades Loucas, que...