Com confiança no povo!
«Sem razão porque provavelmente havíamos esquecido, ou alguns não o sabiam sequer, a rijeza da pedra que sois, que partir poderá, mas amolecer não. E porque não nos lembrámos desta verdade que se mete pelos olhos dentro: a terra que o governo quer esquartejar e tornar a dar está aí, não a podem trazer para o Terreiro do Paço ou a São Bento para ser submetida a trabalhos de alfaiate que rouba na fazenda; e se a terra está aí e daí não pode sair, são os vossos pés que caminham nela, são as vossas mãos que a trabalham, são dos vossos pais e avós os ossos que estão debaixo dessa terra, depois de terem trabalhado e sofrido o que os filhos ainda hoje trabalham, mas, sofrido, basta.»
(in João Domingos Serra, Uma Família do Alentejo, Fundação José Saramago, com o apoio dos Municípios de Montemor-o-Novo e Vendas-Novas e da Junta de Freguesia de Lavre).
O excerto com que início este artigo faz parte de um «Recado para João Besuga, alentejano», que José Saramago enviou e que foi publicado como apêndice à obra citada: um relato em primeira mão da vida de João Domingos Serra e da sua família (texto em que José Saramago se inspirou para escrever o livro Levantado do Chão). Estas palavras foram escritas durante o período contra-revolucionário, em Setembro de 1977, e referem-se às consequências da «Lei Barreto» e ao seu papel na destruição da Reforma Agrária. Um «recado» que adquire uma dimensão e circunstância históricas, revelando uma confiança inabalável dos comunistas no povo português como é perfeitamente perceptível nestas palavras: «a rijeza da pedra que sois, que partir poderá, mas amolecer não». É esta convicção que alimentou a luta desses homens, a razão actual da nossa luta e da nossa acção contra o poder da burguesia nacional e a sua concertação com os centros de interesse da burguesia dos países da União Europeia, particularmente das grandes potências, pela transformação social, por Portugal e pelo socialismo! Cada uma destas palavras tem um peso que as novas gerações aceitarão: porque a terra está cá, e daqui não pode sair, são nossos os pés que caminham nela, são nossas as mãos que a trabalham, são dos nossos pais e avós os ossos que estão debaixo desta terra. E por isso, mais tarde ou mais cedo, movendo o que só a luta organizada poderá mover, o povo português exercerá a soberania que centenas de anos de história lhe conferem e que ninguém lhe poderá retirar. Que ninguém se esqueça que a nossa terra, o País que os sucessivos governos e a UE querem submeter a «trabalhos de alfaiate que rouba na fazenda», está cá para servir, em primeiro lugar, quem nele trabalha e cria riqueza: os trabalhadores e o nosso povo. Depende de Nós; depende de Todos os que à luta se quiserem juntar, Todos os que quiserem dizer basta de injustiças, basta de roubo nos salários, das pensões, de direitos conquistados. Depende de Nós acabar com a tutela que a UE quer impor aos órgãos de soberania nacional, para melhor servir os interesses do grande capital da Alemanha, da França, da Grã-Bretanha, da Itália... Depende de Nós acabar com estes governos e estas maiorias que em Portugal ou no Parlamento Europeu têm sacrificado os interesses do país para melhor servirem os seus próprios interesses ou os daqueles que os apoiam. Já é tempo de dizer «basta!» de aumento do desemprego e da dependência externa, quando o país tem condições, naturais e humanas, para produzir em qualidade e em quantidade grande parte do que necessitamos para viver com qualidade. Não podemos aceitar que as decisões sobre o Nosso mar e as nossas pescas sejam transferidas para Bruxelas, Berlim e Paris. Um povo solidário que celebrou o fim do colonialismo fascista, não aceitará ser cúmplice de uma participação militar em missões da UE ou da NATO que a mais não servem do que a explorar outros povos para garantir os interesses dos EUA ou dos seus aliados europeus.
Mas chegará o momento em que se «deitará fora a água suja para manter o país saudável». PS, PSD e CDS/PP demonstram recorrentemente que, no governo ou na oposição, traem os interesses dos trabalhadores e do povo e são subservientes com os interesses do imperialismo da UE ou dos EUA.
A alternativa passa por uma ruptura patriótica e de esquerda, onde o PCP é parte incontornável; passa pela unidade de todos os democratas, para juntos construirmos um Portugal com futuro. É possível; com a vinda de mais e mais para um Nós que crescendo forte e transformador, possibilitará um amanhã sorridente e o despontar de Abril de novo.