Artes plásticas na Festa do Avante!

O desenho é uma arte maior

Uma cen­tena de de­se­nhos, do acervo da Ga­leria de De­senho do Museu Mu­ni­cipal de Es­tremoz, es­tará pa­tente no es­paço das artes plás­ticas da Festa do Avante!, mesmo ao lado do Pa­vi­lhão Cen­tral. Du­rante anos con­si­de­rado uma dis­ci­plina menor, com­ple­mentar de ou­tras, o de­senho con­quistou gra­du­al­mente o seu es­paço: mas cer­ta­mente de forma mais lenta do que os tra­ba­lhos ex­postos con­quis­tarão os vi­si­tantes da Festa.

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Ho­me­na­gear o de­senho como arte. Será este, re­su­mi­da­mente, um dos ob­jec­tivos da ex­po­sição deste ano no es­paço das Artes Plás­ticas da Festa do Avante!. Como afir­maram ao nosso jornal José An­tónio Flores e Ma­nuel Au­gusto Araújo, dois dos or­ga­ni­za­dores da mostra, o de­senho foi du­rante muito tempo visto como um su­porte para obras tidas como mai­ores – de pin­tura, es­cul­tura, ins­ta­lação ou ar­qui­tec­tura. Ou então como re­gisto, um es­quisso, sim­ples e rá­pido, de uma ideia a que mais tarde talvez se re­gres­sasse.

Mas o de­senho foi ga­nhando au­to­nomia e tornou-se, em muitos casos, obra final, ao mesmo tempo que se cri­avam e de­sen­vol­viam ins­tru­mentos pró­prios para o de­senho. Al­guns ar­tistas de ou­tras artes – o ar­qui­tecto Gi­o­vanni Pi­ra­nesi será um dos mais des­ta­cados exem­plos – en­traram na his­tória pelos es­boços que dei­xaram, pois a sua obra cons­truída é pouco (ou mesmo nada) só­lida, re­alçou Ma­nuel Au­gusto Araújo. O pró­prio es­cultor por­tu­guês Jorge Vi­eira tem – para além das es­cul­turas que podem ser ad­mi­radas um pouco por todo o País – uma vasta obra nunca cons­truída. Desta, são os de­se­nhos que fi­caram, num im­por­tante le­gado de «es­cul­tura de papel».

Uma outra his­tória a mos­trar a im­por­tância do de­senho, mesmo que para ou­tros ofí­cios, contou-a também Ma­nuel Au­gusto Araújo: o ar­qui­tecto alemão Mies van ver Rohe, fu­gido do na­zismo, ruma a Chi­cago onde passa a lec­ci­onar na Uni­ver­si­dade. Com salas sempre cheias (e com muitos es­tu­dantes a fi­carem de fora por falta de es­paço), o cé­lebre ar­qui­tecto sur­pre­ende todos – a pri­meira se­mana é pas­sada a afiar lápis de vá­rias du­rezas; a se­gunda, a fazer riscos ho­ri­zon­tais com lápis de vá­rias du­rezas e na ter­ceira se­mana fi­zeram-se riscos ver­ti­cais. A ideia, es­cla­receu Araújo, era a aqui­sição de com­pe­tên­cias de de­senho, que o cri­ador alemão con­si­de­rava es­sen­ciais para a ar­qui­tec­tura.

Ar­tistas fun­da­men­tais

Na Festa es­tará uma «bas­tante só­lida ex­po­sição sobre o de­senho do sé­culo XX em Por­tugal», va­lo­rizou Ma­nuel Au­gusto Araújo. Os de­se­nhos ex­postos, parte do rico acervo da Ga­leria de De­senho do Museu Mu­ni­cipal de Es­tremoz – Prof. Jo­a­quim Ver­melho (ver caixa), são, na sua mai­oria, ilus­tra­ções de textos ou es­tudos. Já as téc­nicas uti­li­zadas são das mais va­ri­adas: carvão, gra­fite, lápis de cor ou tinta-da-china.  

Di­fe­rentes são também os es­tilos e as épocas dos tra­ba­lhos ex­postos, sa­li­entou José An­tónio Flores, des­ta­cando os nomes de al­guns dos ar­tistas cujos de­se­nhos es­tarão pa­tentes na Quinta da Ata­laia: Abel Manta, Ângelo, Areal, Ar­mando Alves, Au­gusto Gomes, Ave­lino Cu­nhal, Ber­nardo Mar­ques, Ci­priano Dou­rado, Cle­men­tina Car­neiro de Moura, Dordio Gomes, Eu­rico Gon­çalves, Fer­nando de Aze­vedo, Graça Mo­rais, Isabel Sa­bino, João Abel Manta, João Hogan, Jorge Pi­nheiro, Jorge Vi­eira, José Dias Co­elho, José Ro­dri­gues, Júlio Pomar, Júlio Re­sende, Luís Dourdil, Maria Keil, Mário Eloy, Nuno San Payo, Pedro Chorão, Que­rubim Lapa, Ro­gério Ri­beiro, Sá No­gueira ou Zul­miro de Car­valho.

 

Ga­leria de De­senho do Museu de Es­tremoz

Do es­boço à re­a­li­dade

 

As obras ex­postas na Festa do Avante! vêm todas de Es­tremoz, mais exac­ta­mente da Ga­leria de De­senho do Museu Mu­ni­cipal. É pre­ci­sa­mente ali, na­quele con­celho alen­te­jano, que está a pri­meira e uma das mais im­por­tantes co­lec­ções ex­clu­si­va­mente de de­senho do País.

Porquê em Es­tremoz? Em pri­meiro lugar porque era daí na­tural o mul­ti­fa­ce­tado ar­tista Ro­gério Ri­beiro que, re­gres­sado a Es­tremoz em 1981 para uma ex­po­sição de pin­tura, lança a ideia de ins­talar na­quele con­celho uma ga­leria de de­senho. Mas este pro­jecto não pas­saria disto mesmo – de um pro­jecto – se não hou­vesse, a di­rigir os des­tinos do con­celho, gente com visão e ima­gi­nação. Ainda não tinha che­gado o tempo das trai­ções e de­ser­ções e os co­mu­nistas e seus ali­ados es­tavam em mai­oria na­quele con­celho alen­te­jano.

A ideia lan­çada por Ro­gério Ri­beiro foi aco­lhida com en­tu­si­asmo pela equipa da Câ­mara Mu­ni­cipal de então, que cria uma co­missão para o efeito – dela fa­ziam parte, para além de Ro­gério Ri­beiro, o então di­rector do Museu Mu­ni­cipal, Jo­a­quim Ver­melho, os ar­tistas José Au­rélio e Ar­mando Alves, o ve­re­ador José Barros de Car­valho e o pro­fessor Pedro Borges.

A 25 de Maio desse ano é apro­vada, pela Câ­mara, a cri­ação da Ga­leria de De­senho como ex­tensão do Museu Mu­ni­cipal de Es­tremoz, com verba atri­buída à sua cons­trução. A inau­gu­ração foi quase dois anos de­pois, a 21 de Maio de 1983, nos an­tigos Paços do Con­celho. Não havia então nada se­me­lhante no País.

Na opi­nião de José An­tónio Flores e Ma­nuel Au­gusto Araújo, se a Ga­leria existe deve-se a Ro­gério Ri­beiro e às suas ca­rac­te­rís­ticas, não só como ar­tista, mas como or­ga­ni­zador e di­na­mi­zador do tra­balho co­lec­tivo.

Em 1997, a Ga­leria de De­senho ganha no­to­ri­e­dade com os seus tra­ba­lhos a serem ex­postos na So­ci­e­dade Na­ci­onal de Belas-Artes (SNBA), com o nome Lugar do De­senho. O co­mis­sário da ex­po­sição foi José An­tónio Flores, também ele um es­tre­mo­cense.

Na oca­sião, o então pre­si­dente da So­ci­e­dade, Fer­nando de Aze­vedo, es­creveu, no ca­tá­logo da mostra, que os ar­tistas que con­ce­beram e fi­zeram a Ga­leria «pro­jec­tavam numa in­te­li­gente, pré, e ac­tiva des­cen­tra­li­zação muito do que se havia pas­sado e se pas­sava, ainda, na na­tural des­cen­tra­li­zação». Mas, res­salvou, «seja dado a César o que é de César. Im­porta saber-se que é em Es­tremoz, no Alen­tejo pleno, que, afinal, existe o único museu só de De­senho que o País possui. Feitas as contas é esse o re­sumo. O re­sumo que, se por um lado leva ao aplauso, por outro, re­sume sem aplauso, o que é o País».

Na sequência desta par­ceria com a SNBA, a Ga­leria cresceu, com a in­te­gração de mais 25 obras.



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