Entrevista ao Colectivo das Telecomunicações de Lisboa da JCP

Jovens trabalhadores com direitos do século XIX

«Sobre pressão e com medo de serem des­pe­didos»

Fruto das políticas de direita, praticadas pelos sucessivos governos de direita, a vida dos jovens trabalhadores está cada vez mais difícil e precária. Que o digam os trabalhadores dos call cen­ters em Portugal, que enfrentam situações inadmissíveis e, muitas vezes, humilhantes, com baixos salários, contratos precários, sujeitos a doenças profissionais e a intervalos de três minutos por hora, controlados a cada ida à casa de banho. O Avante! foi desta vez conhecer o Colectivo das Telecomunicações de Lisboa da JCP, um conjunto de jovens comunistas que intervém todos os dias no seu local de trabalho, distribuindo propaganda e falando com os seus colegas sobre a sua situação de explorados, elevando a sua consciência de classe e recrutando-os para a JCP e para o PCP. Como grande novidade este Colectivo deu conta da publicação de um boletim, o «Chamada Vermelha», um documento específico que pretende aproximar ainda mais os trabalhadores à organização revolucionária da juventude. Um trabalho que dá frutos, exemplo disso foi a grande participação dos trabalhadores desta área na última greve-geral, convocada pela CGTP-IN. No entanto - como nos contaram Catarina Marques, Raul Ramirez e Vasco Silva - as dificuldades em «entrar» neste tipo de empresas são muitas. «Nas empresas de call center, quem aqui trabalha faz poucas horas, sendo que muitos são estudantes. O seu objectivo não é continuar. É uma ajuda para poderem prosseguir os estudos, se bem que existem muitos que acabam por aqui se manter durante vários anos, uma vez que não existem alternativas no mercado», afirmou Vasco Silva, que trabalha para a Te­le­per­for­mance, que fornece serviços ao Mil­len­nium BCP. «Qualificados ou não, as pessoas não têm conhecimento das leis laborais nem consciência do trabalho que desempenham. Depois, sofrem muitas pressões psicológicas. Neste sentido, é muito difícil conseguir chegar até eles. Não têm a mesma consciência de classe que, por exemplo, os enfermeiros ou os professores. Não se consegue incutir neles esse espírito de união e de luta, porque vivem sobre pressão e com medo de serem despedidos», denunciou. «A precariedade impede que muitos trabalhadores lutem ou mesmo reflictam sobre os problemas que os atingem. Depois é a desregulamentação dos horários, que não permite que se estabeleçam relações pessoais», adiantou Raul Ramirez, que presta serviços para uma conhecida companhia de seguros. Ofen­siva contra os tra­ba­lha­dores Dentro destas empresas, compostas maioritariamente por jovens trabalhadores, os direitos conquistados com a Revolução de Abril são desprezados. O patronato, fielmente servido pelos governos de direita, nomeadamente o do PS, aproveita a situação para reduzir o valor do trabalho e o poder reivindicativo dos trabalhadores. Os jovens comunistas deram o exemplo do estatuto do trabalhador-estudante, que deveria salvaguardar horários de trabalho específicos para os alunos poderem frequentar as aulas, ou, caso isso não seja possível, a ter horas de dispensa semanais. Os trabalhadores têm ainda direito a marcar férias de acordo com as suas necessidades escolares, a beneficiar de licenças e a faltar justificadamente, e sem perda de remuneração até dois dias por cada prova de avaliação. «Não existe o estatuto de trabalhador-estudante nestas empresas», denunciou Catarina Marques, formadora na Op­timus Co­mu­ni­ca­ções. «Tive indicação de que os trabalhadores-estudantes deveriam ser os primeiros a ser excluídos da formação. Fiquei completamente chocada», comentou. Raul Ramirez contou-nos uma história na primeira-pessoa: «Quando estava na faculdade trabalhava num outro call center, na TV Cabo, onde só queriam pagar os dias dos exames. O problema é que tinha direito ao dia anterior. Reclamei junto da empresa e acabaram por me dar razão». «Esta é uma ofensiva generalizada contra os direitos dos trabalhadores», criticou. Mas os problemas não se ficam por aqui. «Na Te­le­per­for­mance é raro as pessoas terem direito a uma hora de almoço, mesmo aqueles que trabalham oito horas, informou Vasco Silva. «Há dias, estive a atender durante quatro horas seguidas sem intervalo e para o ter temos que solicitá-lo», recordou Raul Ramirez, dando conta de uma medida que implementaram recentemente: «Quem se atrasar no intervalo tem que enviar uma mensagem a todos os colegas a pedir desculpas. Uma forma de humilhação.» «Ali tudo é controlado, até as chamadas telefónicas. Não temos privacidade, o que torna esta profissão muito desgastante psicologicamente. Penalizam ainda as pessoas por estarem doentes, mesmo com justificação médica. Duas faltas são suficientes não não recebermos o prémio. Entre amigos até costumamos dizer que os call center parecem antigas fábricas do século XIX, mas com novas tecnologias», disse Catarina Marques. Situações que se fazem sentir no dia-a-dia destes trabalhadores, «uma vez que os contratos são a termo incerto» e a «maior parte das vezes feitos por empresas de out­sour­cing». «Estes contratos significam que os trabalhadores podem ser despedidos de um dia para o outro. É muito complicado conseguir um empréstimo seja para uma casa, um carro ou mesmo um computador. E todos os contratos das empresas de call center funcionam assim», alertou a jovem comunista. Todos estes problemas poderiam ser resolvidos, ou pelo menos minimizados, se os trabalhadores dos call center fossem sindicalizados. Um esforço que o colectivo da JCP tem desenvolvido, informando os seus colegas sobre a importância dos sindicatos e o seu papel na dinamização da luta organizada, a única forma de defender e conquistar direitos. «As pessoas podem estar a trabalhar e de um momento para o outro podem ficar sem campanha, não tendo ninguém que os protejam», advertiu Vasco Silva.


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