Sobrantes

Correia da Fonseca
Fui atraído pelo título da reportagem anunciada, «Este País não é para velhos», na expectativa de que abordaria a situação da generalidade dos velhos portugueses que, como se sabe, são muitos e pouco apreciados por boa parte dos que, não sendo ainda velhos, parecem convencidos de que nunca o serão. Mas estava enganado: a reportagem (de Sofia Arêde e Fernando Silva) optou por apenas nos falar de alguns velhos, dos que por uma ou outra razão se viram atirados para as piores condições de sobrevivência de onde um dia foram retirados para um dos chamados «lares» para idosos. Dever-se-á decerto reconhecer que esse relativo salvamento os poupou a um epílogo pior, muito provavelmente situado abaixo do mínimo devido à condição humana, mas o certo é que nem com o melhor dos optimismos se poderá dizer que se trata de um final feliz. Na verdade, aqueles velhos já estão numa espécie de limbo situado entre a vida e a morte, talvez não tanto quanto ao corpo como quanto à centelha que faz com que homens e mulheres sejam gente numa acepção inteira. E essa efectiva redução não é consequência da idade que atingiram, como a reportagem permitia supor apesar dos dados que nos facultava, mas sim do facto na verdade terrível de serem pobres. Pobres de uma pobreza que não se confundia necessariamente com a indigência, até porque foi possível apercebermo-nos de que todos ou quase todos eles tinham acesso a uma pensão de reforma ou equiparável, mas sim porque as pensões mínimas que o Estado paga não salvam ninguém da miséria. Significa isto que aqueles velhos não haviam chegado àquela situação por no final de uma vida se terem encontrado em exclusão laboral ou outra, mas sim porque sempre foram sobrantes de uma sociedade que ao longo de todo o tempo das suas vidas preferiu ignorar as condições concretas da sua sempre difícil sobrevivência.

O se­gundo lote

Aqueles foram, pois, os velhos de que a reportagem se ocupou, e não se dirá que andou mal em fazê-lo. Mas é certo que o título parecia apontar para um âmbito mais amplo e que essa abertura de ângulo de abordagem se justificaria, pois se é terrível ser velho e pobre em Portugal é ainda muito mau, em regra geral, ser simplesmente velho, e não apenas no nosso País. Sabe-se que para tanto contribuem decisivamente motivações mais ou menos economicistas: os velhos são em princípio improdutivos (ou são tidos como tal) e isso suscita uma espécie de náusea nos que são ou se supõem produtivos. Mas há explicações, complementares ou não, que provêm da área cultural. As sociedades que se renderam à comodidade da ignorância presunçosa aderem, até para defesa da sua auto-estima mas também porque para isso são empurrados pelos aparelhos produtivos, a colocar em altares com estatuto de divindade tudo quanto é «novo» e, complementarmente, a fulminar com variável grau de desapreço tudo quanto é velho. Acontece, porém, que está neste segundo lote patrimonial a própria memória dos factos, isto é, a raiz dos entendimentos, e que a memória é característica dos velhos, embora sendo certo que nem sempre se trata de memória esclarecida. Aí se acolhe uma outra motivação, inconfessada e porventura até inapreendida, para a marginalização dos velhos. Somam-se-lhe, como é sabido, as condições de transformação social: desintegrações familiares, inversão da pirâmide etária, outras mais. Mas a incomodidade que é provocada pelos velhos enquanto pobres prolonga-se na incomodidade dos velhos enquanto depositários da memória e, por isso, muitas vezes portadores de um projecto colectivo quase paradoxalmente mais lúcido que o dominante. São, por isso, olhados como sobrantes, mas num outro sentido. Até que, um dia, o rolar do tempo e da História imponha a recuperação da lucidez e a evidência dos factos.


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