A fuga na imprensa clandestina

Uma vitória do Partido e do povo

Recordamos alguns documentos históricos relativos à fuga de Peniche de 3 de Janeiro de 1960 publicados na época na imprensa clandestina do Partido.
No Avante! de Janeiro de 1960, publicava-se na primeira página o comunicado do Secretariado do Comité Central do próprio dia da fuga, intitulado «Álvaro Cunhal, Jaime Serra, Joaquim Gomes, Francisco Miguel, Guilherme de Carvalho, Pedro Soares, Carlos Costa, Francisco Martins, Rogério de Carvalho e José Carlos em liberdade!». Nesse texto, considerava-se que «a libertação destes camaradas foi possível pela sua coragem e abnegação, pelo desejo de prosseguirem no combate pela libertação do povo português do jugo salazarista, pelo auxílio que lhes foi prestado pelo Partido Comunista e pelo apoio popular».
O PCP saudava então «estes valorosos combatentes de vanguarda, alguns dos quais há muito tinham terminado as penas a que foram condenados mas que os opressores salazaristas pretendiam manter indefinidamente presos, através das celeradas “medidas de segurança”». Ao mesmo tempo, lembrava-se que «continuam encarcerados nas prisões salazaristas muitos abnegados patriotas que só pela luta do povo português e pela solidariedade dos povos do muito inteiro serão libertados».
O comunicado do Secretariado alertava ainda para a provável intensificação da acção repressiva do fascismo contra o Partido, as forças democráticas e o povo. «Isso exige de todo o Partido um esforço imediato e decidido para a defesa dos seus quadros e a consolidação da sua organização com vista a poder, a curto prazo, intensificar toda a sua actuação no terreno político». Terminando, salientava que «a libertação destes camaradas não é apenas uma vitória do Partido Comunista, mas de toda a causa anti-salazarista e é um incentivo ao alargamento da acção de todos os portugueses honrados na luta contra o fascismo e por um Portugal democrático e independente».

Champanhe e foguetes

No Avante! seguinte, da segunda quinzena de Janeiro, o tema seria outra vez puxado para a primeira página, com o título «O nosso povo saúda a libertação de Álvaro Cunhal e dos seus companheiros – defendamo-los das investidas do inimigo!». Nesse artigo, afirmava-se que a libertação dos 10 militantes comunistas «despertou o mais vivo entusiasmo das massas populares do nosso país».
Em Lisboa, lia-se, «nas fábricas, nos bairros populares, nos cafés e nos locais públicos foi calorosamente festejada a libertação dos nossos camaradas, Muita gente simples saudou, comovida, esta importante vitória». Já no Porto, «por todos os lados se falou e se fala ainda na evasão dos nossos camaradas. Nas fábricas, nos cafés e nos mais variados pontos de reunião. Em vários lados foram abertas garrafas de champanhe, bebeu-se e fizeram-se saúdes. Os telefones retiniram e houve quem telefonasse para todos os seus conhecidos a comunicar a fuga. Houve lágrimas de pessoas simples, de trabalhadores, etc. Houve abraços e beijos em plena rua (…) Numa fábrica, perante os grupos e grupinhos que se formavam, o patrão mandou parar as máquinas e quis saber o que se passava».
O correspondente do Sul contava que «por toda a parte os trabalhadores dão largas ao seu entusiasmo e alegria. Em muitos pontos houve discursos e bebeu-se mesmo alguns copitos a mais». Prosseguia o Avante! relatando que «nos grandes centros operários do Barreiro, Almada, Marinha Grande, Sacavém e outros, os trabalhadores saudaram com efusão a libertação de Álvaro Cunhal e dos seus companheiros. Em muitos pontos do país houve verdadeiras confraternizações populares em louvor deste notável triunfo do Partido e muitos foguetes foram lançados ao ar».
Mais adiante no texto, lia-se que «também os fascistas acusaram o toque envolvendo o País numa atmosfera de terror e de estado de sítio». Todo o aparelho repressivo foi mobilizado, conta-se, «para tentar recapturar os fugitivos». «As forças repressivas, actuando sob a direcção da PIDE, ocuparam estradas, cruzamentos e pontos estratégicos do país, exibindo as suas metralhadoras e as suas brigadas de cães-polícias.» Isto colocava, concluía-se, a necessidade de «cerrar fileiras contra a repressão do inimigo, denunciando e escorraçando os esbirros policiais, fazendo-lhes a vida difícil».

Saudação dos dez camaradas que se evadiram da Fortaleza de Peniche*

«Ao alcançarmos a liberdade e ao retomarmos o posto de combate, saudamos antes de mais o nosso Partido e o povo português, afirmando a nossa determinação de os servir como até hoje na luta pela instauração em Portugal de um regime de liberdade e legalidade.
«Saudamos todos os portugueses honrados, qualquer que seja a sua ideologia ou crença religiosa; saudamos todas as forças e correntes anti-salazaristas, salientando a importância e a urgência da unidade como condição fundamental para a solução do problema político português.
«Sem o decisivo auxílio do Partido Comunista Português e da sua direcção – à qual manifestamos toda a nossa confiança –, sem a coragem, o espírito de sacrifício e o apoio de numerosos comunistas e portugueses sem partido que nos ajudaram, não teria sido possível levar a cabo com êxito a nossa libertação.
«Não queremos deixar de manifestar o reconhecimento pelas provas de simpatia e solidariedade activas que, enquanto encarcerados, nos foram prestados, assim como aos restantes presos antifascistas, pelo nosso povo e pelo movimento operário e democrático internacional, que tanto contribuíram para a defesa das nossas vidas.
«Muitos dedicados filhos do povo português continuam nas prisões fascistas, sofrendo torturas e longos anos de prisão. A acção dos patriotas portugueses apoiada pelos trabalhadores e democratas do mundo conseguirá libertá-los também.
«Álvaro Cunhal, Jaime Serra, Joaquim Gomes, Francisco Miguel, Guilherme da Costa Carvalho, Pedro Soares, Carlos Costa, Francisco Martins Rodrigues, Rogério de Carvalho, José Carlos.
«3 de Janeiro de 1960»

* Publicada no Avante! de Janeiro de 1960

Carta de Jorge Alves aos companheiros da GNR*

«Afastai-vos dos inimigos do povo. É preciso que todos pensem que saíram do povo, pertencem portanto ao povo. Não luteis contra o povo e não pegueis em armas contra os vossos que vos deram o ser. Há-de chegar o tempo em que vejam as coisas como eu vi (…)
«Era tempo de ajudar aqueles que podem salvar o país. Ajudei a libertar alguns filhos do povo que estavam presos (…) Sinto com isto que dentro das minhas possibilidades e justiça não fiz mais do que um dever e uma obrigação de bom português.»

* Excertos publicados na brochura clandestina A Resistência em Portugal, de José Dias Coelho, reeditada recentemente pelas Edições Avante!

Não esquecer

Foram dez os militantes comunistas que se evadiram da Fortaleza de Peniche no dia 3 de Janeiro de 1960. Entre estes encontravam-se os membros do Comité Central Álvaro Cunhal, Jaime Serra, Joaquim Gomes, Francisco Miguel, Guilherme da Costa Carvalho e Pedro Soares, bem como outros destacados militantes, como Carlos Costa, Francisco Martins Rodrigues, Rogério de Carvalho e José Carlos – alguns dos quais assumiriam, nos anos seguintes, responsabilidades de direcção. Ao todo, e aquando da fuga, tinham cumprido 77 anos de cativeiro.
Todos os militantes que se evadiram nesse dia retomaram o seu posto na luta clandestina e, na sua grande maioria, permaneceram fiéis ao Partido. Excepção feita a Francisco Martins Rodrigues que, poucos anos depois, passou a ter uma acção contrária às decisões colectivas do Partido, acabando por ser expulso. Esteve ligado à criação de vários grupos esquerdistas, que tiveram um importante papel na divisão das forças democráticas e nos ataques ao PCP.


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