Comunista firme e convicto
Manuel Guedes, cujo centenário se comemora, foi um dos destacados construtores do PCP. Membro da Organização Revolucionária da Armada, foi um dos mais destacados protagonistas da reorganização e passou quase duas décadas na prisão. E seu exemplo e a firmeza das suas convicções permanecem hoje como um motivo de orgulho para todos os comunistas.
Que o PCP tem uma longa e heróica história de luta, resistência e tenacidade nunca é demais lembrar. E se há que recordá-lo e afirmá-lo sempre, é ainda mais importante fazê-lo num momento como aquele em que vivemos em que se procura branquear o fascismo e a sua natureza de classe e apagar o papel único e insubstituível que o PCP desempenhou na resistência ao fascismo e na concretização da Revolução de Abril e das conquistas que se lhe seguiram.
Neste exaltante percurso colectivo, há figuras que se destacam pela sua generosidade e entrega, pela sua firmeza e dedicação. Manuel Guedes é, sem dúvida, uma dessas figuras maiores e inapagáveis do PCP, cujo nome fica vincadamente ligado a alguns dos mais significativos episódios da resistência ao fascismo.
Tendo aderido ao PCP no início dos anos 30 do século passado – os anos negros do avanço e consolidação do fascismo em Portugal e um por toda a Europa –, Manuel Guedes tomou parte activa na reconstrução do Partido após o Golpe Militar de 28 de Maio de 1926 e, ainda de forma mais determinante, na reorganização de 1940/41, da qual foi destacado protagonista.
Igualmente firme foi a sua conduta na prisão, onde esteve quase 20 anos. Resistindo sempre, fazendo do cárcere um posto de luta contra o fascismo.
O despertar da consciência e a adesão ao PCP
Não foram fáceis os primeiros anos de Manuel Guedes. Nascido a 14 de Dezembro de 1909 na freguesia lisboeta da Sé, viu-se órfão de pai e mãe com apenas oito anos. A sua «família» seriam os companheiros de sorte que conhecera no Asilo Maria Pia, onde permaneceu durante quase uma década. Dali saiu aos 17 anos para se alistar na Armada.
A sua entrada na vida militar deu-se num tempo conturbado. O golpe militar de 28 de Maio tinha ocorrido pouco antes e ainda se sentiam os seus efeitos: o processo de fascização das Forças Armadas estava em curso e despontavam já as primeiras revoltas militares contra a ditadura. Muitos militares eram perseguidos por pertencerem às ainda fortes tendências republicanas e antifascistas.
Foi neste cenário que o jovem Manuel Guedes forjou a sua consciência, tendo aderido ao PCP em Agosto de 1931. Pouco tempo depois, era já um participante activo na criação da Organização Revolucionária da Armada (ORA), que depressa se tornaria numa das mais fortes e influentes organizações do PCP, representando, a dada altura, mais de 20 por cento dos seus efectivos.
O órgão clandestino da ORA, O Marinheiro Vermelho, do qual Guedes foi um dos principais redactores, chegou a editar 1500 exemplares, numa altura em que o número de marinheiros não chegava aos 5 mil. Este boletim desempenharia um importantíssimo papel no esclarecimento dos jovens marinheiros sobre a natureza do fascismo e da guerra que se preparava, bem como na sua unidade, organização e luta. A Revolta dos Marinheiros, de Setembro de 1936, impulsionada pela ORA, seria derrotada, mas representou um importante momento de luta aberta contra o fascismo.
As primeiras prisões e a reorganização
A primeira prisão de Manuel Guedes ocorreu em Julho de 1933 na tipografia onde estava a ser impresso O Marinheiro Vermelho. Julgado pelo Tribunal Militar Especial, seria condenado a 18 meses de prisão. Cumprida a pena, foi libertado em Janeiro de 1935 e imediatamente expulso da Armada.
Uma vez em liberdade, Manuel Guedes retomou de imediato a actividade partidária, integrando a Comissão de Organização do Partido, sob a direcção de Bento Gonçalves. Mas em Abril, seria novamente preso durante uma reunião da ORA. Em Maio do ano seguinte, na quarta e última sessão do seu julgamento, evade-se do tribunal.
Apenas um mês depois, foi enviado pelo Secretariado do Partido em missão a Espanha, onde acabaria preso juntamente com Joaquim Pires Jorge por posse de arma e documentação falsa. Encarcerados em Cáceres, assistem à tomada da cidade pelos fascistas de Franco, que os condenam a 28 meses e um dia de prisão.
Durante os mais de dois anos de prisão em Espanha, os dois comunistas assistem aos inúmeros crimes dos franquistas, que estiveram mesmo na iminência de os fuzilar. Cumprida a pena, em Novembro de 1938, Manuel Guedes foi entregue à Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) e fica preso até Julho de 1940.
Em liberdade, Manuel Guedes fez parte do núcleo de comunistas que levam a cabo a reorganização do Partido. Integrou o primeiro Secretariado da reorganização, com Militão Ribeiro e Júlio Fogaça e, depois, com Álvaro Cunhal e José Gregório.
O grande Partido da resistência antifascista
Membro do Secretariado do Comité Central durante mais de uma década, Manuel Guedes teve uma participação destacada nos dois primeiros congressos clandestinos do PCP – o III e o IV, realizados, respectivamente, em 1943 e 1946 – que constituíram grandes vitórias políticas sobre o fascismo.
No III Congresso coube-lhe a ele apresentar o relatório sobre tarefas de organização, onde se confirmaram os resultados notáveis alcançados com a reorganização. Nesse relatório, afirma que «hoje podemos considerar que o nosso Partido se tornou um partido nacional pela sua organização e influência crescente das nossas organizações entre as massas». O Partido contava, nesse momento, com «uma centena de organizações locais e regionais e, nos grandes centros, com umas dezenas de células de empresa», acrescentaria Manuel Guedes, então conhecido por Santos.
O Avante! clandestino que relata sobre os trabalhos do Congresso diz que, segundo Manuel Guedes, o reforço orgânico do Partido constituía a base fundamental sem a qual não seria possível levar à prática as tarefas do Partido e «conduzir as massas na luta pelo derrubamento do salazarismo». «Não será tarefa fácil», afirmava Guedes, realçando, em contrapartida, que «exigirá de todos nós bastantes sacrifícios, espírito de iniciativa e audácia. Ela exigirá de todos nós uma dedicação e abnegação ilimitadas».
No IV Congresso do PCP, realizado em 1946, onde seriam definidas as linhas fundamentais do caminho para o derrubamento do fascismo e os princípios orgânicos do centralismo democrático, Manuel Guedes foi novamente eleito para o Comité Central, depois para o Secretariado. Ao longo de toda a década, acompanha e dirige poderosas lutas de massas, entre as quais as greves de 1942 e 1943 e as batalhas eleitorais de 1945 e 1949.
Quando foi novamente preso, em 1952, Manuel Guedes era o dirigente do PCP que durante mais tempo consecutivo havia pertencido aos organismos de direcção. Só seria libertado em 1965, 13 anos depois de ser preso e 9 anos depois de ter cumprido a pena a que fora condenado.
Últimos anos
Depois do 25 de Abril, Manuel Guedes foi readmitido na Marinha, com a profissão de revisor tipográfico, tendo sido agraciado em 1976 com a Medalha de Cobre de Comportamento Exemplar.
Em Março de 1983, com 73 anos, viria a falecer. No seu funeral, no qual compareceram marinheiros, dirigentes e militantes do Partido, José Vitoriano, seu companheiro de muitos anos de prisão e vida partidária, afirmou que Manuel Guedes «foi um revolucionário que dedicou o melhor da sua vida à causa operária, à causa dos oprimidos, à luta contra o fascismo, contra a exploração, pela liberdade e pela democracia».
A prisão como frente de combate
Com mais de 50 anos de militância comunista, Manuel Guedes passou quase vinte na prisão. Como tantos outros camaradas, foi sujeito a torturas e a toda a espécie de maus-tratos. Também como tantos outros, manteve sempre um comportamento exemplar perante os carcereiros.
Mesmo em Cáceres, onde enfrentou a possibilidade de fuzilamento, nunca deixou de incutir ânimo aos restantes prisioneiros. Num livro escrito por si, intitulado El Paseo (recentemente editado pelas Edições Avante! em formato digital, disponível em www.pcp.pt) e que relata a sua prisão em Espanha, afirma: «A prisão é uma frente de combate importantíssima e os revolucionários têm de saber vencer batalhas nessas fileiras, onde não se combate o inimigo com as armas tradicionais. Ali a luta é de outro tipo. O inimigo dispõe de todas as armas de fogo, de todos os instrumentos de agressão. O inimigo serve-se para atingir os seus fins de todos os meios, tanto da tortura física como da tortura moral. O inimigo utiliza as piores infâmias, os vexames mais vis.»
Assim, esclarece a seguir, «nesta linha de combate, só dispomos da nossa força moral, da nossa firmeza de carácter, da vontade de nos mantermos iguais a nós próprios sem transigências nem vacilações. Neste combate, a menor fraqueza, o menor deslize pode ser fatal, pode conduzir à “morte” moral, mais odiosa que a morte física, pois transforma um homem honesto num bandalho, numa criatura desprezível».
«Quem pense que o fundamental da luta está “lá fora”, que só interessa “sair”, engana-se. Quando desperta, já não é ele, é um farrapo. A luta trava-se “dentro” e “fora”, o inimigo combate-se em todas as frentes, e todas elas são decisivas e em todas a batalha se ganha ou perde. E se há frentes onde a luta seja mais difícil de conduzir, onde a vitória mais firmeza e força moral exija, essa é, certamente, aquela que se situa na cadeia.»
Lembrando que «na cadeia não se cometem actos audaciosos» antes cada um «cumpre o seu dever», Manuel Guedes acrescenta que «quando nesta frente se morre com dignidade, em geral, os nomes não são recordados, diluem-se entre os muitos que cumpriram o seu dever». Acontece que, conclui, «felizmente, para a história dos movimentos progressistas da Humanidade, o número dos que cumprem a sua missão é muitíssimo maior; e o dos traidores, dos que fraquejam, muito, muito menor. Por isto são estes mais lembrados que os primeiros».
PCP assinalou centenário
Exemplo para a luta de hoje
O PCP assinalou, no dia 17, o centenário do nascimento de Manuel Guedes, numa iniciativa realizada em Alfama e que contou com a participação de Armindo Miranda, da Comissão Política. Após valorizar a vida e o percurso de Manuel Guedes, o dirigente do PCP centrou-se na análise do relatório apresentado no III Congresso do Partido, de 1943, retirando desse texto alguns ensinamentos intemporais.
Nesse Congresso, Santos afirmou que «sem um trabalho das nossas organizações, sem um trabalho de massas, é descabido falar em alargamento do nosso Partido, falar em educação revolucionária dos nossos militantes». Também nessa altura, a «constituição das células mereceu uma especial atenção». Exigia-se então que «todo o militante de base fizesse parte da célula do seu local de trabalho ou procedesse à sua organização. Às células que se foram formando, procurou-se que a sua actividade fosse realizada no seio das massas e fundamentalmente no sentido da sua mobilização à volta dos seus problemas concretos e imediatos. Exigiu-se que cada militante fosse um elemento prestigiado entre as massas e que soubesse, de facto, criar à sua volta uma influência verdadeiramente política de massas, conseguida através do seu trabalho diário em defesa das reivindicações destas, e não daquela que se verificava através de meia dúzia de jornais que se distribuía a meia dúzia de amigos».
Em consequência desta orientação, acrescentou na época Manuel Guedes, tornaram-se possíveis os «movimentos de massas em todo o país dirigidos pelo nosso partido e que culminaram com os potentes movimentos dos operários da região de Lisboa em Novembro de 42 e Julho/Agosto de 43, e que tornaram possível o aparecimento não só de novos militantes como de novos quadros dirigentes do nosso Partido, forjados na luta de massas e que se revelaram no decurso destas mesmas luta».
Terminando a citação, Armindo Miranda destacou: «que extraordinária actualidade.» Acrescentando que, na sua última reunião, o Comité Central do Partido aprovou uma resolução «com decisões e orientações para reforçar a organização do Partido a todos os níveis». Para Armindo Miranda, a «imensa sabedoria do nosso Partido, acumulada durante tantos anos de luta na defesa e junto dos trabalhadores, fornece-nos um conjunto muito vasto de experiências que devem ser conhecidas e estudadas por todos para daí tirarmos ensinamentos para a nossa actividade, nas novas condições em que hoje lutamos».
Neste exaltante percurso colectivo, há figuras que se destacam pela sua generosidade e entrega, pela sua firmeza e dedicação. Manuel Guedes é, sem dúvida, uma dessas figuras maiores e inapagáveis do PCP, cujo nome fica vincadamente ligado a alguns dos mais significativos episódios da resistência ao fascismo.
Tendo aderido ao PCP no início dos anos 30 do século passado – os anos negros do avanço e consolidação do fascismo em Portugal e um por toda a Europa –, Manuel Guedes tomou parte activa na reconstrução do Partido após o Golpe Militar de 28 de Maio de 1926 e, ainda de forma mais determinante, na reorganização de 1940/41, da qual foi destacado protagonista.
Igualmente firme foi a sua conduta na prisão, onde esteve quase 20 anos. Resistindo sempre, fazendo do cárcere um posto de luta contra o fascismo.
O despertar da consciência e a adesão ao PCP
Não foram fáceis os primeiros anos de Manuel Guedes. Nascido a 14 de Dezembro de 1909 na freguesia lisboeta da Sé, viu-se órfão de pai e mãe com apenas oito anos. A sua «família» seriam os companheiros de sorte que conhecera no Asilo Maria Pia, onde permaneceu durante quase uma década. Dali saiu aos 17 anos para se alistar na Armada.
A sua entrada na vida militar deu-se num tempo conturbado. O golpe militar de 28 de Maio tinha ocorrido pouco antes e ainda se sentiam os seus efeitos: o processo de fascização das Forças Armadas estava em curso e despontavam já as primeiras revoltas militares contra a ditadura. Muitos militares eram perseguidos por pertencerem às ainda fortes tendências republicanas e antifascistas.
Foi neste cenário que o jovem Manuel Guedes forjou a sua consciência, tendo aderido ao PCP em Agosto de 1931. Pouco tempo depois, era já um participante activo na criação da Organização Revolucionária da Armada (ORA), que depressa se tornaria numa das mais fortes e influentes organizações do PCP, representando, a dada altura, mais de 20 por cento dos seus efectivos.
O órgão clandestino da ORA, O Marinheiro Vermelho, do qual Guedes foi um dos principais redactores, chegou a editar 1500 exemplares, numa altura em que o número de marinheiros não chegava aos 5 mil. Este boletim desempenharia um importantíssimo papel no esclarecimento dos jovens marinheiros sobre a natureza do fascismo e da guerra que se preparava, bem como na sua unidade, organização e luta. A Revolta dos Marinheiros, de Setembro de 1936, impulsionada pela ORA, seria derrotada, mas representou um importante momento de luta aberta contra o fascismo.
As primeiras prisões e a reorganização
A primeira prisão de Manuel Guedes ocorreu em Julho de 1933 na tipografia onde estava a ser impresso O Marinheiro Vermelho. Julgado pelo Tribunal Militar Especial, seria condenado a 18 meses de prisão. Cumprida a pena, foi libertado em Janeiro de 1935 e imediatamente expulso da Armada.
Uma vez em liberdade, Manuel Guedes retomou de imediato a actividade partidária, integrando a Comissão de Organização do Partido, sob a direcção de Bento Gonçalves. Mas em Abril, seria novamente preso durante uma reunião da ORA. Em Maio do ano seguinte, na quarta e última sessão do seu julgamento, evade-se do tribunal.
Apenas um mês depois, foi enviado pelo Secretariado do Partido em missão a Espanha, onde acabaria preso juntamente com Joaquim Pires Jorge por posse de arma e documentação falsa. Encarcerados em Cáceres, assistem à tomada da cidade pelos fascistas de Franco, que os condenam a 28 meses e um dia de prisão.
Durante os mais de dois anos de prisão em Espanha, os dois comunistas assistem aos inúmeros crimes dos franquistas, que estiveram mesmo na iminência de os fuzilar. Cumprida a pena, em Novembro de 1938, Manuel Guedes foi entregue à Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) e fica preso até Julho de 1940.
Em liberdade, Manuel Guedes fez parte do núcleo de comunistas que levam a cabo a reorganização do Partido. Integrou o primeiro Secretariado da reorganização, com Militão Ribeiro e Júlio Fogaça e, depois, com Álvaro Cunhal e José Gregório.
O grande Partido da resistência antifascista
Membro do Secretariado do Comité Central durante mais de uma década, Manuel Guedes teve uma participação destacada nos dois primeiros congressos clandestinos do PCP – o III e o IV, realizados, respectivamente, em 1943 e 1946 – que constituíram grandes vitórias políticas sobre o fascismo.
No III Congresso coube-lhe a ele apresentar o relatório sobre tarefas de organização, onde se confirmaram os resultados notáveis alcançados com a reorganização. Nesse relatório, afirma que «hoje podemos considerar que o nosso Partido se tornou um partido nacional pela sua organização e influência crescente das nossas organizações entre as massas». O Partido contava, nesse momento, com «uma centena de organizações locais e regionais e, nos grandes centros, com umas dezenas de células de empresa», acrescentaria Manuel Guedes, então conhecido por Santos.
O Avante! clandestino que relata sobre os trabalhos do Congresso diz que, segundo Manuel Guedes, o reforço orgânico do Partido constituía a base fundamental sem a qual não seria possível levar à prática as tarefas do Partido e «conduzir as massas na luta pelo derrubamento do salazarismo». «Não será tarefa fácil», afirmava Guedes, realçando, em contrapartida, que «exigirá de todos nós bastantes sacrifícios, espírito de iniciativa e audácia. Ela exigirá de todos nós uma dedicação e abnegação ilimitadas».
No IV Congresso do PCP, realizado em 1946, onde seriam definidas as linhas fundamentais do caminho para o derrubamento do fascismo e os princípios orgânicos do centralismo democrático, Manuel Guedes foi novamente eleito para o Comité Central, depois para o Secretariado. Ao longo de toda a década, acompanha e dirige poderosas lutas de massas, entre as quais as greves de 1942 e 1943 e as batalhas eleitorais de 1945 e 1949.
Quando foi novamente preso, em 1952, Manuel Guedes era o dirigente do PCP que durante mais tempo consecutivo havia pertencido aos organismos de direcção. Só seria libertado em 1965, 13 anos depois de ser preso e 9 anos depois de ter cumprido a pena a que fora condenado.
Últimos anos
Depois do 25 de Abril, Manuel Guedes foi readmitido na Marinha, com a profissão de revisor tipográfico, tendo sido agraciado em 1976 com a Medalha de Cobre de Comportamento Exemplar.
Em Março de 1983, com 73 anos, viria a falecer. No seu funeral, no qual compareceram marinheiros, dirigentes e militantes do Partido, José Vitoriano, seu companheiro de muitos anos de prisão e vida partidária, afirmou que Manuel Guedes «foi um revolucionário que dedicou o melhor da sua vida à causa operária, à causa dos oprimidos, à luta contra o fascismo, contra a exploração, pela liberdade e pela democracia».
A prisão como frente de combate
Com mais de 50 anos de militância comunista, Manuel Guedes passou quase vinte na prisão. Como tantos outros camaradas, foi sujeito a torturas e a toda a espécie de maus-tratos. Também como tantos outros, manteve sempre um comportamento exemplar perante os carcereiros.
Mesmo em Cáceres, onde enfrentou a possibilidade de fuzilamento, nunca deixou de incutir ânimo aos restantes prisioneiros. Num livro escrito por si, intitulado El Paseo (recentemente editado pelas Edições Avante! em formato digital, disponível em www.pcp.pt) e que relata a sua prisão em Espanha, afirma: «A prisão é uma frente de combate importantíssima e os revolucionários têm de saber vencer batalhas nessas fileiras, onde não se combate o inimigo com as armas tradicionais. Ali a luta é de outro tipo. O inimigo dispõe de todas as armas de fogo, de todos os instrumentos de agressão. O inimigo serve-se para atingir os seus fins de todos os meios, tanto da tortura física como da tortura moral. O inimigo utiliza as piores infâmias, os vexames mais vis.»
Assim, esclarece a seguir, «nesta linha de combate, só dispomos da nossa força moral, da nossa firmeza de carácter, da vontade de nos mantermos iguais a nós próprios sem transigências nem vacilações. Neste combate, a menor fraqueza, o menor deslize pode ser fatal, pode conduzir à “morte” moral, mais odiosa que a morte física, pois transforma um homem honesto num bandalho, numa criatura desprezível».
«Quem pense que o fundamental da luta está “lá fora”, que só interessa “sair”, engana-se. Quando desperta, já não é ele, é um farrapo. A luta trava-se “dentro” e “fora”, o inimigo combate-se em todas as frentes, e todas elas são decisivas e em todas a batalha se ganha ou perde. E se há frentes onde a luta seja mais difícil de conduzir, onde a vitória mais firmeza e força moral exija, essa é, certamente, aquela que se situa na cadeia.»
Lembrando que «na cadeia não se cometem actos audaciosos» antes cada um «cumpre o seu dever», Manuel Guedes acrescenta que «quando nesta frente se morre com dignidade, em geral, os nomes não são recordados, diluem-se entre os muitos que cumpriram o seu dever». Acontece que, conclui, «felizmente, para a história dos movimentos progressistas da Humanidade, o número dos que cumprem a sua missão é muitíssimo maior; e o dos traidores, dos que fraquejam, muito, muito menor. Por isto são estes mais lembrados que os primeiros».
PCP assinalou centenário
Exemplo para a luta de hoje
O PCP assinalou, no dia 17, o centenário do nascimento de Manuel Guedes, numa iniciativa realizada em Alfama e que contou com a participação de Armindo Miranda, da Comissão Política. Após valorizar a vida e o percurso de Manuel Guedes, o dirigente do PCP centrou-se na análise do relatório apresentado no III Congresso do Partido, de 1943, retirando desse texto alguns ensinamentos intemporais.
Nesse Congresso, Santos afirmou que «sem um trabalho das nossas organizações, sem um trabalho de massas, é descabido falar em alargamento do nosso Partido, falar em educação revolucionária dos nossos militantes». Também nessa altura, a «constituição das células mereceu uma especial atenção». Exigia-se então que «todo o militante de base fizesse parte da célula do seu local de trabalho ou procedesse à sua organização. Às células que se foram formando, procurou-se que a sua actividade fosse realizada no seio das massas e fundamentalmente no sentido da sua mobilização à volta dos seus problemas concretos e imediatos. Exigiu-se que cada militante fosse um elemento prestigiado entre as massas e que soubesse, de facto, criar à sua volta uma influência verdadeiramente política de massas, conseguida através do seu trabalho diário em defesa das reivindicações destas, e não daquela que se verificava através de meia dúzia de jornais que se distribuía a meia dúzia de amigos».
Em consequência desta orientação, acrescentou na época Manuel Guedes, tornaram-se possíveis os «movimentos de massas em todo o país dirigidos pelo nosso partido e que culminaram com os potentes movimentos dos operários da região de Lisboa em Novembro de 42 e Julho/Agosto de 43, e que tornaram possível o aparecimento não só de novos militantes como de novos quadros dirigentes do nosso Partido, forjados na luta de massas e que se revelaram no decurso destas mesmas luta».
Terminando a citação, Armindo Miranda destacou: «que extraordinária actualidade.» Acrescentando que, na sua última reunião, o Comité Central do Partido aprovou uma resolução «com decisões e orientações para reforçar a organização do Partido a todos os níveis». Para Armindo Miranda, a «imensa sabedoria do nosso Partido, acumulada durante tantos anos de luta na defesa e junto dos trabalhadores, fornece-nos um conjunto muito vasto de experiências que devem ser conhecidas e estudadas por todos para daí tirarmos ensinamentos para a nossa actividade, nas novas condições em que hoje lutamos».