O Governo só assiste
A Lear anunciou que encerra a fábrica de Palmela até ao início de 2010, despedindo os seus 267 trabalhadores. A Leoni comunicou que vai fechar a fábrica em Viana do Castelo, até ao fim do próximo ano, liquidando 599 postos de trabalho. O Governo, agora como antes, não assume compromissos nem toma medidas para garantir a produção e o emprego. Limita-se a ver sair as multinacionais, acusam os representantes dos trabalhadores e o PCP.
A luta pelos postos de trabalho defende a economia do País
No dia 4 realizou-se uma reunião exemplar, no Ministério da Economia, a pedido do Sindicato dos Metalúrgicos do Sul, para tratar do problema dos trabalhadores da Lear. «Fomos recebidos por uma assessora do ministro e um secretário do secretário de Estado, que nos ouviram e agradeceram a informação, e só por nossa insistência é que prometeram uma posição do Governo para daqui a uns dias», contou Américo Flor. Para o coordenador do sindicato, o Governo «fez figura de corpo ausente», porque não levou em conta os alertas dados em Fevereiro, quando houve um despedimento colectivo de quatro dezenas de trabalhadores, e em Maio, quando a Lear perdeu trabalho importante. «E foi a muito custo que marcaram esta reunião», notou aquele dirigente da CGTP-IN e da federação do sector, a Fiequimetal.
O Governo não esteve presente noutros momentos, em que tinha a obrigação de fiscalizar a aplicação dos apoios públicos concedidos à multinacional, como salientaram duas trabalhadoras da empresa. Esmeralda Marques, também dirigente do sindicato, da federação e da central, e Maria dos Anjos Silva, delegada sindical, recordaram 1998. Nesse Verão, foi celebrado um contrato de investimento com o Governo. Foi então anunciado que a fábrica de componentes (bancos, encostos, capas) para automóveis, com apoios do Estado, da UE e da Câmara Municipal, iria criar quatro mil postos de trabalho, até ao início do ano 2000. Nos primeiros três meses, centenas de trabalhadores estiveram «em formação», a produzir, mas pagos pelo Estado.
O emprego na fábrica não chegou a ultrapassar 2200 pessoas. Em Maio de 2000, quando o então ministro Pina Moura visitou a empresa, esta tinha cinco efectivos, num total de 2060 trabalhadores, como a União dos Sindicatos de Setúbal lhe fez saber.
Em 1998 foi também celebrado outro contrato de investimento, relativo às fábricas de cablagens automóveis da Lear (e ex-UTA) em Valongo e na Póvoa do Lanhoso. Esta fechou no final de 2005, despedindo 800 trabalhadores. Aquela foi encerrada em Abril de 2007, liquidando mais de 700 empregos. A multinacional transferia a produção de cablagens para a Roménia, para a Polónia e para Marrocos, para pagar ainda menos pela mão-de-obra.
Em 5 de Junho de 2008, o Governo deu conta do incumprimento e decidiu «declarar a caducidade dos benefícios fiscais» e exigir à Lear que pagasse «as importâncias correspondentes às receitas fiscais não arrecadadas» - como referia o comunicado do Conselho de Ministros.
Desde essa altura, na fábrica de Palmela - onde predominam as mulheres, cujas idades muito frequentemente superam os 40 ou 45 anos e onde há forte incidência de doenças profissionais (tendinites) - o emprego foi diminuindo e as preocupações aumentando. Os trabalhadores, que já tinham aceitado abdicar dos aumentos salariais para 2009, decidiram, em plenário, viabilizar uma solução que permitia à empresa acompanhar, com menos custos, os down days (dias de não produção) da Autoeuropa. Tentavam assim contribuir para resolver os alegados problemas de competitividade.
Estes sacrifícios e propostas não suscitaram resposta do Governo nem da empresa. Mas, em Agosto, «o director disse-nos que tinham ganho três novos projectos e que estava garantido o futuro», recorda Américo Flor. Por isso, o encerramento, anunciado há duas semanas, foi recebido com estranheza, até porque «uma decisão destas não se toma de uma semana para a outra».
A indignação e a revolta crescem, perante a conclusão a que chegam os trabalhadores e mesmo alguns quadros, que se empenharam em soluções de viabilização: a multinacional andou a enganar toda a gente desde há muitos meses. E é neste ponto que os nossos entrevistados apontam de novo o dedo ao Governo, porque ao longo dos anos deixou a multinacional à vontade para preparar esta deslocalização.
De mãos livres foi também deixada a Leoni, que no dia 4 anunciou a decisão de encerrar. O Governo, «apesar dos sucessivos avisos, optou pela atitude de assobiar para o ar», acusou a Direcção Regional (DORVIC) do PCP, que lembrou o lay-off, de Março a Julho, e o despedimento colectivo de 120 pessoas, em Junho - um e outro apresentados pela Leoni como indispensáveis para evitar o encerramento.
Os pedidos de reunião dos representantes dos trabalhadores ficaram sem resposta do ministro da Economia. «Talvez agora haja agenda, depois do facto consumado», desabafou Miguel Moreira, dirigente do STIENC/CGTP-IN, citado pela agência Lusa. Esta citou ainda um porta-voz da Leoni - grupo com quase 48 mil trabalhadores, em 36 países, e um volume de vendas de 2,9 mil milhões de euros, em 2008. Bernd Buhmann foi claro a explicar a estratégia: «transferir a produção para países de baixos salários».
Nestes dois casos - como nos da Qimonda, Delphi, Saint Gobain Glass (ex-Covina), General Motors (Opel), entre outros -, por aquilo que não fazem e por aquilo que deixam fazer, os governos do PS «limitam-se a correr atrás do prejuízo» e revelam «uma visão conformista», como Jerónimo de Sousa acusou, no debate quinzenal, na AR, dia 4. Assim, ganha ainda mais importância «a unidade dos trabalhadores em defesa dos seus postos de trabalho», como salientam os comunistas de Viana do Castelo na nota que citámos.
Soluções!
«Do Governo, esperamos que mantenha os postos de trabalho, com Lear ou sem Lear» - a afirmação de Américo Flor foi corroborada por Esmeralda Marques e Maria dos Anjos.
A produção da fábrica de Palmela faz falta à vizinha Autoeuropa (capas para os bancos do VW Eos) e há outros trabalhos. A qualidade dos produtos foi reconhecida pelo cliente principal. O grave impacto social do encerramento tem igualmente que ser levado em conta.
Para os representantes dos trabalhadores, uma primeira medida deveria já ter sido o recurso ao PASA (Plano de Apoio ao Sector Automóvel). E a própria Autoeuropa pode contribuir para evitar a concretização do fim anunciado pela Lear Corporation. No sindicato, a esperança ainda não está perdida... e o melhor seguro continua a ser a unidade e luta dos trabalhadores.
O Governo não esteve presente noutros momentos, em que tinha a obrigação de fiscalizar a aplicação dos apoios públicos concedidos à multinacional, como salientaram duas trabalhadoras da empresa. Esmeralda Marques, também dirigente do sindicato, da federação e da central, e Maria dos Anjos Silva, delegada sindical, recordaram 1998. Nesse Verão, foi celebrado um contrato de investimento com o Governo. Foi então anunciado que a fábrica de componentes (bancos, encostos, capas) para automóveis, com apoios do Estado, da UE e da Câmara Municipal, iria criar quatro mil postos de trabalho, até ao início do ano 2000. Nos primeiros três meses, centenas de trabalhadores estiveram «em formação», a produzir, mas pagos pelo Estado.
O emprego na fábrica não chegou a ultrapassar 2200 pessoas. Em Maio de 2000, quando o então ministro Pina Moura visitou a empresa, esta tinha cinco efectivos, num total de 2060 trabalhadores, como a União dos Sindicatos de Setúbal lhe fez saber.
Em 1998 foi também celebrado outro contrato de investimento, relativo às fábricas de cablagens automóveis da Lear (e ex-UTA) em Valongo e na Póvoa do Lanhoso. Esta fechou no final de 2005, despedindo 800 trabalhadores. Aquela foi encerrada em Abril de 2007, liquidando mais de 700 empregos. A multinacional transferia a produção de cablagens para a Roménia, para a Polónia e para Marrocos, para pagar ainda menos pela mão-de-obra.
Em 5 de Junho de 2008, o Governo deu conta do incumprimento e decidiu «declarar a caducidade dos benefícios fiscais» e exigir à Lear que pagasse «as importâncias correspondentes às receitas fiscais não arrecadadas» - como referia o comunicado do Conselho de Ministros.
Desde essa altura, na fábrica de Palmela - onde predominam as mulheres, cujas idades muito frequentemente superam os 40 ou 45 anos e onde há forte incidência de doenças profissionais (tendinites) - o emprego foi diminuindo e as preocupações aumentando. Os trabalhadores, que já tinham aceitado abdicar dos aumentos salariais para 2009, decidiram, em plenário, viabilizar uma solução que permitia à empresa acompanhar, com menos custos, os down days (dias de não produção) da Autoeuropa. Tentavam assim contribuir para resolver os alegados problemas de competitividade.
Estes sacrifícios e propostas não suscitaram resposta do Governo nem da empresa. Mas, em Agosto, «o director disse-nos que tinham ganho três novos projectos e que estava garantido o futuro», recorda Américo Flor. Por isso, o encerramento, anunciado há duas semanas, foi recebido com estranheza, até porque «uma decisão destas não se toma de uma semana para a outra».
A indignação e a revolta crescem, perante a conclusão a que chegam os trabalhadores e mesmo alguns quadros, que se empenharam em soluções de viabilização: a multinacional andou a enganar toda a gente desde há muitos meses. E é neste ponto que os nossos entrevistados apontam de novo o dedo ao Governo, porque ao longo dos anos deixou a multinacional à vontade para preparar esta deslocalização.
De mãos livres foi também deixada a Leoni, que no dia 4 anunciou a decisão de encerrar. O Governo, «apesar dos sucessivos avisos, optou pela atitude de assobiar para o ar», acusou a Direcção Regional (DORVIC) do PCP, que lembrou o lay-off, de Março a Julho, e o despedimento colectivo de 120 pessoas, em Junho - um e outro apresentados pela Leoni como indispensáveis para evitar o encerramento.
Os pedidos de reunião dos representantes dos trabalhadores ficaram sem resposta do ministro da Economia. «Talvez agora haja agenda, depois do facto consumado», desabafou Miguel Moreira, dirigente do STIENC/CGTP-IN, citado pela agência Lusa. Esta citou ainda um porta-voz da Leoni - grupo com quase 48 mil trabalhadores, em 36 países, e um volume de vendas de 2,9 mil milhões de euros, em 2008. Bernd Buhmann foi claro a explicar a estratégia: «transferir a produção para países de baixos salários».
Nestes dois casos - como nos da Qimonda, Delphi, Saint Gobain Glass (ex-Covina), General Motors (Opel), entre outros -, por aquilo que não fazem e por aquilo que deixam fazer, os governos do PS «limitam-se a correr atrás do prejuízo» e revelam «uma visão conformista», como Jerónimo de Sousa acusou, no debate quinzenal, na AR, dia 4. Assim, ganha ainda mais importância «a unidade dos trabalhadores em defesa dos seus postos de trabalho», como salientam os comunistas de Viana do Castelo na nota que citámos.
Soluções!
«Do Governo, esperamos que mantenha os postos de trabalho, com Lear ou sem Lear» - a afirmação de Américo Flor foi corroborada por Esmeralda Marques e Maria dos Anjos.
A produção da fábrica de Palmela faz falta à vizinha Autoeuropa (capas para os bancos do VW Eos) e há outros trabalhos. A qualidade dos produtos foi reconhecida pelo cliente principal. O grave impacto social do encerramento tem igualmente que ser levado em conta.
Para os representantes dos trabalhadores, uma primeira medida deveria já ter sido o recurso ao PASA (Plano de Apoio ao Sector Automóvel). E a própria Autoeuropa pode contribuir para evitar a concretização do fim anunciado pela Lear Corporation. No sindicato, a esperança ainda não está perdida... e o melhor seguro continua a ser a unidade e luta dos trabalhadores.