Confirma-se...

Henrique Custódio
O episódio grotesco de Manuela Ferreira Leite a rejeitar a crítica de que existe «asfixia democrática» na Madeira, argumentando que «quem legitima o poder é o voto do povo e não está aqui ninguém por imposição, é em resultado dos votos» ocorreu na Madeira e ao lado do próprio Alberto João Jardim. Com um pormenor: a líder do PSD não apenas se andava a pavonear em campanha eleitoral na Madeira ao lado de Jardim, como não hesitou em fazê-lo deslocando-se no carro oficial da chefia regional que o «seu presidente», arrogante como sempre, pôs também ao serviço da campanha do PSD.
Não podia haver melhor ilustração para a «legitimidade» de Jardim invocada por Ferreira Leite: na verdade, os responsáveis do Governo Regional não estavam ali «por imposição», pois todos haviam sido eleitos democraticamente: quem realmente ali estava por imposição era o automóvel topo de gama, comprado pelo Estado para exclusivo serviço do Estado, mas im­posto ao serviço da senhora presidente de PSD pelo «legitimado» João Jardim.
É anedótico, mas sem dúvida eficaz a expor, de imediato, a vacuidade de Ferreira Leite a argumentar tão grotescamente em defesa da inenarrável autocracia permitida, há décadas, a João Jardim na Madeira.
Obviamente, que as famosas tropelias políticas de João Jardim, consolidadas numa caldeirada de provocações institucionais, legais e constitucionais, a par de constantes desmandos legislativos, uma generalizada usura do poder e uma constante derrapagem nas contas e nos gastos das subvenções nacionais para a Região, só têm sido possíveis graças a uma tão inacreditável como continuada complacência da República, o que responsabiliza, essencialmente, os Governos do PS e do PSD que, também continuadamente, têm conduzido a política nacional.
Fazendo inesperado contraponto com tanta complacência governamental para com os desmandos e dislates de João Jardim, o PS de José Sócrates saltou agora aceradamente, por interposto porta-voz, a proclamar que «na política de verdade do PSD não há credibilidade nem honestidade política», pois «o tema da suposta e falsa asfixia democrática em Portugal também tem dias e nem todos os dias Manuela Ferreira Leite diz o mesmo».
Ou seja, o PS aproveitou, indignadamente lampeiro, a óbvia contradição de Ferreira Leite ao proclamar-se a exclusiva «depositária da Verdade» desta campanha eleitoral, acusando nomeadamente o Governo de Sócrates de impor uma «asfixia democrática» ao País, quando, na Madeira, foi incapaz de reconhecer essa mesma «asfixia democrática» exercida pelo Governo Regional do PSD - tão real e evidente, que já se tornou galhofa nacional.
O que o PS de Sócrates não disse foi que os Governos do seu partido têm procedido, para com os desmandos de Jardim, com a mesma complacência dos executivos do PSD, chegando ao ponto de negociar apoios parlamentares do PSD/Madeira a troco de mais prebendas para a Região, como fez um Governo de Guterres.
Tal como não disse, pois claro, que se Manuela Ferreira Leite faltou à verdade quando recusou a existência de «asfixia democrática» na Madeira, o PS de Sócrates não falha menos a verdade quando nega a «asfixia democrática» imposta pelo seu Governo: basta olhar para o rol interminável de tranquibérnias que vão emergindo do «consulado Sócrates», de que o «caso Freeport» e a negociata dos contentores de Alcântara com a MotaEngil são meros expoentes.
Confirma-se: Sócrates e Ferreira Leite estão bem um para o outro.


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