O cerne da questão
Estava esta crónica prestes a passar da ponta dos dedos para as teclas do computador, isto é, a transformar-se de vago projecto em texto escrito, quando um noticiário da TVI, neste caso da TVI24, falou de mais uma família norte-americana arruinada e à beira do desespero, não por causa do crash bolsista e da consequente crise, como seria esperável e praticamente se tornou costume, mas sim porque dois dos seus elementos haviam adoecido e, como se sabe, aquele país não é para doentes. Em complemento e com o óbvio objectivo de situar a notícia no seu quadro próprio (agora diz-se «contextualizar», mas eu ando a ver se evito o contágio, bem me bastam as ameaças de gripe A) a TVI lembrou que cerca de 60 milhões de norte-americanos estão totalmente desprotegidos perante a situação de doença, restando-lhes talvez morrer depressa se tiverem essa sorte, e que mesmo os milhões que puderam fazer seguros de saúde junto de empresas privadas enfrentam o risco de atingir rapidamente o plafond do risco segurado, após o que ficam tão indefesos quanto os outros. A questão, como se sabe, é que nos Estados Unidos não existe um sistema público de segurança perante a doença, eventualmente semelhante ao existente no chamado Modelo Social Europeu conquistado pelos trabalhadores após décadas de lutas e ferozmente hostilizado pela direita. Aliás, já aqui falámos disto não há muito tempo, decerto em consequência de alguma outra notícia de teor semelhante à agora dada pela TVI ou de uma reportagem acerca da desgraça que atinge os norte-americanos feridos pela doença. E ainda bem que o fizemos porque assim ficou naturalmente afastada a tentação de abordarmos o assunto. É que esta semana há um tema prioritário: o das eleições de domingo, do voto, das suas motivações próximas no tempo e que por isso não é preciso lembrar, das mais distantes que é bom nunca esquecer.
A menina e as fainas
No passado domingo, a TV trouxe-nos, como é de rotina nestes dias pré-eleitorais, imagens da campanha da CDU. É obrigatório por lei que seja assim, e ainda bem, porque se não o fosse talvez só nos dessem imagens das campanhas da direita. Ora, naquele dia estavam no Alentejo, que é terra de gente que muito aprendeu com séculos de vida difícil, Ilda Figueiredo e Jerónimo de Sousa. Jerónimo denunciava a armadilha tecida por uns sujeitos que, incitando os que os apoiam a não faltarem ao voto, sugeriram aos que se lhes opõem que manifestem o seu desagrado abstendo-se. Pelos vistos, uns espertalhões de pataco. Ilda Figueiredo dizia da sua activa solidariedade com os que trabalham, da sua luta para os defender dos legisladores de Bruxelas, de como ela e os seus companheiros de lista serão mais fortes com um robusto apoio eleitoral. Foi então que uma das apoiantes presentes, alentejana não já muito jovem mas ainda longe da velhice, lhe assegurou o seu voto até porque, disse-o por outras palavras, bem se lembrava do tempo em que, menina de 10 ou 12 anos, andava na dureza das fainas do arroz ou da ceifa. Pareceu-me então que naquele breve depoimento pessoal estava contido e implícito o âmago da questão eleitoral que nos espera no domingo próximo. É que, sendo certo que já não há nos campos do Alentejo crianças de 10 ou 12 anos nas ceifas ou na faina do arroz, pois do que mudou há trinta e cinco anos muita coisa não regrediu quando os abutres puderam regressar, o certo é que estão por aí, por todo o País, não necessariamente os antigos parasitas mas decerto os seus herdeiros ideológicos e não só. E é sabido que eles querem que não votemos, que se sentirão mais tranquilos se a CDU não se reforçar, que irão acentuar a pressão que já esmaga quantos trabalham duramente. Na vida económica do País, no quotidiano laboral, nem tudo é ceifa, nem tudo é faina do arroz, mas uma e outra tarefa bem podem ser tomadas como símbolo do que se tem vindo a passar. Porque a exploração continua. E, porque é assim, têm de continuar a luta e o voto que é uma das suas armas.
A menina e as fainas
No passado domingo, a TV trouxe-nos, como é de rotina nestes dias pré-eleitorais, imagens da campanha da CDU. É obrigatório por lei que seja assim, e ainda bem, porque se não o fosse talvez só nos dessem imagens das campanhas da direita. Ora, naquele dia estavam no Alentejo, que é terra de gente que muito aprendeu com séculos de vida difícil, Ilda Figueiredo e Jerónimo de Sousa. Jerónimo denunciava a armadilha tecida por uns sujeitos que, incitando os que os apoiam a não faltarem ao voto, sugeriram aos que se lhes opõem que manifestem o seu desagrado abstendo-se. Pelos vistos, uns espertalhões de pataco. Ilda Figueiredo dizia da sua activa solidariedade com os que trabalham, da sua luta para os defender dos legisladores de Bruxelas, de como ela e os seus companheiros de lista serão mais fortes com um robusto apoio eleitoral. Foi então que uma das apoiantes presentes, alentejana não já muito jovem mas ainda longe da velhice, lhe assegurou o seu voto até porque, disse-o por outras palavras, bem se lembrava do tempo em que, menina de 10 ou 12 anos, andava na dureza das fainas do arroz ou da ceifa. Pareceu-me então que naquele breve depoimento pessoal estava contido e implícito o âmago da questão eleitoral que nos espera no domingo próximo. É que, sendo certo que já não há nos campos do Alentejo crianças de 10 ou 12 anos nas ceifas ou na faina do arroz, pois do que mudou há trinta e cinco anos muita coisa não regrediu quando os abutres puderam regressar, o certo é que estão por aí, por todo o País, não necessariamente os antigos parasitas mas decerto os seus herdeiros ideológicos e não só. E é sabido que eles querem que não votemos, que se sentirão mais tranquilos se a CDU não se reforçar, que irão acentuar a pressão que já esmaga quantos trabalham duramente. Na vida económica do País, no quotidiano laboral, nem tudo é ceifa, nem tudo é faina do arroz, mas uma e outra tarefa bem podem ser tomadas como símbolo do que se tem vindo a passar. Porque a exploração continua. E, porque é assim, têm de continuar a luta e o voto que é uma das suas armas.