Arriscando pela Matemática no Alentejo
O Presidente da República visitou o Departamento de Matemática da Universidade de Évora no dia 15 de Abril, iniciando o «Roteiro para a Ciência» com o tema «Avaliação dos Riscos Naturais, Sociais ou Financeiros». Esta iniciativa, louvada por quase todos, não é isenta de contradição.
Vejo as notícias pela Internet e nem uma breve referência a esta singela advertência: o Governo fechou a licenciatura em matemática de Évora!
Já não há curso superior de matemática a Sul do Tejo... Não há, não! Há na Costa da Caparica. E há centros de investigação que sobraram no Alentejo e Algarve – arrancados da sua fonte humana e de pensamento futuro...
Mas vejamos a matemática dos riscos. Ouve-se, em intervenção gravada, o Professor Doutor Cavaco Silva dizer que se podiam prever os riscos dos mercados económicos mundiais e estaríamos agora em posição de enfrentar a crise. Que se cometeram «imprudências e erros» nos «riscos do crédito», do «subprime». Enfim, que tudo ficará melhor quando soubermos mais econometria e apostarmos nos mercados certos. Quando os homens de amanhã estudarem a previsão das suas crises.
Como se não houvesse interesses, políticas erradas e maldade, pensadas ao serviço das classes exploradoras. Como se não fosse, de novo, a culpabilização do homem comum. E, já agora, como se alguma matemática não estivesse seriamente comprometida com a chamada economia de casino.
Não interessa mesmo muito a realidade da Estatística, firme disciplina da matemática há muito aplicada à economia, que indica com rigor os números incomportáveis das desigualdades sociais. Não interessa a matemática ligada à produção e ao controle da produção. As aplicações concretas da Geometria e da Álgebra à mecânica, à indústria, à agricultura, aos computadores, à medicina. Essas disciplinas fundamentais, para já não falar do seu papel revolucionário no ensino, não interessam muito ao sr. Professor para lá do habitual choro pelo estado do ensino. Não se descobre o interesse no estudo da Análise Real e da Geometria Diferencial, que hoje todas as universidades professam mas que no Alentejo podem bem ser dadas a golpe de martelo. Não se convida de facto ninguém a estudar e ser matemático, pois o poder económico, na verdade, renega-o.
Era de esperar uma frase do Presidente da República, ligeira que fosse, repudiando o fecho do curso. Os que lá estiveram a ouvi-lo talvez esperassem. Pelo menos para que futuros candidatos ao ensino superior não vão agora enganados. Mas nada.
Podia também o sr. Presidente da República ter feito, porém sabe-se que não fez, uma evocação dos grandes nomes da matemática nascidos no Alentejo, como o de Pedro Nunes Salaciensis, o grande Pedro Nunes, de Alcáçer, verdadeiro empreendedor científico, ou o mertolense Aureliano de Mira Fernandes, grande geómetra do I.S.T. ao qual se dedica este ano uma conferência pelo centenário do seu nascimento, ou o vilavicense Bento de Jesus Caraça, militante da liberdade, da ciência e da cultura, ou ainda o de outro famoso mertolense, José Sebastião e Silva, que foi um dos maiores matemáticos portugueses do século XX e que guindou o ensino desta ciência ao maior êxito de sempre com a reforma que defendeu e que o 25 de Abril pôs em prática – sem riscos.
Vejo as notícias pela Internet e nem uma breve referência a esta singela advertência: o Governo fechou a licenciatura em matemática de Évora!
Já não há curso superior de matemática a Sul do Tejo... Não há, não! Há na Costa da Caparica. E há centros de investigação que sobraram no Alentejo e Algarve – arrancados da sua fonte humana e de pensamento futuro...
Mas vejamos a matemática dos riscos. Ouve-se, em intervenção gravada, o Professor Doutor Cavaco Silva dizer que se podiam prever os riscos dos mercados económicos mundiais e estaríamos agora em posição de enfrentar a crise. Que se cometeram «imprudências e erros» nos «riscos do crédito», do «subprime». Enfim, que tudo ficará melhor quando soubermos mais econometria e apostarmos nos mercados certos. Quando os homens de amanhã estudarem a previsão das suas crises.
Como se não houvesse interesses, políticas erradas e maldade, pensadas ao serviço das classes exploradoras. Como se não fosse, de novo, a culpabilização do homem comum. E, já agora, como se alguma matemática não estivesse seriamente comprometida com a chamada economia de casino.
Não interessa mesmo muito a realidade da Estatística, firme disciplina da matemática há muito aplicada à economia, que indica com rigor os números incomportáveis das desigualdades sociais. Não interessa a matemática ligada à produção e ao controle da produção. As aplicações concretas da Geometria e da Álgebra à mecânica, à indústria, à agricultura, aos computadores, à medicina. Essas disciplinas fundamentais, para já não falar do seu papel revolucionário no ensino, não interessam muito ao sr. Professor para lá do habitual choro pelo estado do ensino. Não se descobre o interesse no estudo da Análise Real e da Geometria Diferencial, que hoje todas as universidades professam mas que no Alentejo podem bem ser dadas a golpe de martelo. Não se convida de facto ninguém a estudar e ser matemático, pois o poder económico, na verdade, renega-o.
Era de esperar uma frase do Presidente da República, ligeira que fosse, repudiando o fecho do curso. Os que lá estiveram a ouvi-lo talvez esperassem. Pelo menos para que futuros candidatos ao ensino superior não vão agora enganados. Mas nada.
Podia também o sr. Presidente da República ter feito, porém sabe-se que não fez, uma evocação dos grandes nomes da matemática nascidos no Alentejo, como o de Pedro Nunes Salaciensis, o grande Pedro Nunes, de Alcáçer, verdadeiro empreendedor científico, ou o mertolense Aureliano de Mira Fernandes, grande geómetra do I.S.T. ao qual se dedica este ano uma conferência pelo centenário do seu nascimento, ou o vilavicense Bento de Jesus Caraça, militante da liberdade, da ciência e da cultura, ou ainda o de outro famoso mertolense, José Sebastião e Silva, que foi um dos maiores matemáticos portugueses do século XX e que guindou o ensino desta ciência ao maior êxito de sempre com a reforma que defendeu e que o 25 de Abril pôs em prática – sem riscos.