A adesão

Correia da Fonseca
A julgar pelo que, como muitos milhares de outros cidadãos, vi e ouvi graças à televisão, o senhor Presidente da República decidiu aderir ao largo sector da Oposição e, aproveitando uma visita que fez a lugar adequado, a Associação Cristã de Empresários e Gestores, fez umas advertências em larguíssima medida coincidentes com as críticas à governação feitas pela generalidade das vozes oposicionistas, designadamente algumas próximas das formuladas pelo Partido Comunista Português. Afigura-se-me que o melhor que pode dizer-se quanto a esta súbita e afirmada tomada de consciência é desejar as boas vindas ao senhor PR. Não poderá decerto supor-se que, apesar das palavras do Presidente terem sido pronunciadas em ambiente de cristandade, o Espírito Santo tenha descido sobre a sua cabeça, e é claro que não estou agora a referir-me a nada que se relacione com o sistema bancário português. Uma coisa é falar dos desprotegidos, do que deve e do que não deve ser feito, mesmo da imperiosa necessidade da verdade (mas não se confunda com a Verdade com maiúscula, aquela a quem um outro se referiu um dia dizendo que ele próprio era «a Verdade e a Vida», não nos deixemos arrastar pela eventual semelhança entre atitudes messiânicas), e coisa diferente é agir para que as já muito faladas distâncias abissais entre mais ricos e mais pobres sejam drasticamente reduzidas e os direitos dos cidadãos passem da letra constitucional para a realidade quotidiana. Isto para não citar outros exemplos. A questão é que ao olharmos para trás no tempo e assim recuarmos aos anos em que o actual PR era mais executivo, não lobrigamos claros indícios de grande avidez pela Justiça Social, o que aliás não surpreende porque essa apetência não estava nada na moda nos tempos em que o senhor professor afinava os seus saberes no reino da senhora Thatcher. É claro que nunca é tarde para que os nevoeiros se dissipem e a luz se faça, a gente bem sabe o que aconteceu a S. Paulo quando ele ia muito descuidado na estrada de Damasco. E num tempo em que até um pingo de azeite a ferver dá origem a uma solene canonização está longe de ser espantoso que um Chefe de Estado se lembre dos seus mais carenciados concidadãos. Que isso o tenha levado a uma adesão pública a críticas até agora só formuladas por boca alheia também não pode surpreender e gerará, quando muito, um voto de boas-vindas às fileiras das Oposições.

O júbilo em risco

Acontece, porém, que alguma coisa do que a TV me permitiu ver e ouvir me causou algum desconforto, e porventura não apenas a mim. É que nas palavras do senhor Presidente, aliás confirmadas pelas observações depois feitas por Francisco Van Zeller, presidente da CIP e por consequência porta-voz de vasta parte do grande empresariado, terá estado contida uma implícita admoestação aos empresários, e não certamente aos minúsculos, por aceitarem a «submissão» perante o governo. Independentemente de alguns eventuais casos particulares muito concretos e sobretudo muito minoritários, afigura-se-me que este paternal ralho do senhor Presidente aos empresários se arrisca a ser muito antipedagógico ou, pior ainda, muito enganoso. Por ele se diria que o governo está aí a mandar nos grandes empresários, isto é, nos detentores dos poderes económicos e financeiros. Ora, as experiências históricas mundial e nacional ensinam sem margem para honestas dúvidas precisamente o contrário: que são os poderes económico-financeiros que mandam nos governos que aliás eles decisivamente ajudaram a alcançar o poder; que para lá de eventuais aparências e quanto ao essencial os governos são a sua emanação e, quando as decisivas circunstâncias surgem, os zeladores dos seus interesses. Na actualidade portuguesa, é demasiado fútil pensar que as acções governativas do PS e do PSD são muito parecidas entre si porque uns e outros são portugueses e bons rapazes: o caso é que por detrás dos governos de um e de outro partido sempre esteve, dominante e vigilante, o mesmo poder efectivo. Que as palavras do Presidente da República tenham podido sugerir uma inversão desta realidade parece-me péssimo, salvo o devido respeito. E arriscam-se a comprometer gravemente o meu júbilo pela adesão presidencial aos arraiais oposicionistas.


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