Quatro dias com os comunistas libaneses

A inevitável opção de resistir

Gustavo Carneiro
O PCP foi um dos partidos que respondeu afirmativamente ao convite do Partido Comunista Libanês para assistir aos trabalhos do seu 10.º Congresso, que se realizou em Beirute entre os dias 26 e 28 de Fevereiro. Apesar da preenchida agenda de trabalhos não ter permitido muitas visitas e passeios, ouvindo as intervenções no Congresso e conversando com camaradas libaneses, foi possível conhecer as difíceis condições em que lutam os comunistas naquele país.

O PCL defende um Líbano laico, independente e resistente

«Os comunistas de Beirute foram os primeiros libaneses a pegar em armas contra Israel», afirma Jihad Chalhoub, enquanto nos conduz pelas movimentadas estradas de Beirute a caminho do edifício da UNESCO, onde se iniciaria momentos depois a sessão de abertura do Congresso. Veterano da guerra contra a ocupação, em que foi artilheiro nas forças comunistas da Frente de Resistência Nacional Libanesa, Chalhoub conta que os militantes mais jovens «vêem-me, e aos outros antigos combatentes, como uma espécie de exemplo». Mas, garante, «apenas cumprimos a nossa obrigação de comunistas».
Ao mesmo tempo que faz habilmente o seu carro serpentear por entre o trânsito, realça que «seja qual for o exército que ocupe o Líbano – israelita, norte-americano ou mesmo árabe –, os comunistas estarão na resistência. Por isso somos tão respeitados, até por gente que está ideologicamente muito distante de nós.»
«Estive na resistência de 1982 ao final de 1989 e fui ferido sete vezes», diz, sem conseguir esconder algum orgulho. Durante um período, recebeu formação militar superior na Crimeia, na antiga União Soviética. Actualmente, trabalha em Beirute, numa multinacional francesa de distribuição de medicamentos, após ter vivido mais de 15 anos em países como a Ucrânia, o Azerbaijão ou o Dubai. Como muitos outros combatentes comunistas, acabou por não ser incorporado em nenhuma das forças militares do Estado libanês.
Maurice Nohra, presidente do Conselho Nacional do Partido Comunista Libanês, conta mais tarde, durante um almoço no último dia do Congresso, que, além do desarmamento das forças combatentes, esse era um dos pontos principais do acordo de Taïf, que pôs fim à guerra civil, assinado em 1989 pelos Estados Unidos da América, a Arábia Saudita e a Síria. Na sequência deste acordo, o Partido foi desarmado e há cerca de 500 ex-combatentes comunistas à espera do cumprimento da segunda parte do estipulado.
Os militares, aliás, parecem estar em toda a parte, pelo menos no centro de Beirute, em barreiras nas estradas ou na vigilância à costa. Comentamos isto com um camarada libanês. Em resposta, recebemos um sorriso irónico: «Durante a ocupação israelita de 2006, ninguém os viu…»
Em poucos partidos comunistas do mundo o papel dos mártires será tão forte como no libanês. «Temos, na nossa história, mais de 1000 mártires, caídos tanto às mãos daqueles que, internamente, queriam dividir o Líbano, como dos ocupantes israelitas», lembra Maurice Nohra. O Partido foi, aliás, a força principal da resistência nos anos 80 e aquela que teve mais vítimas.
Quando essa invasão chegou ao Monte Líbano, recorda o dirigente comunista, «foram raptados mais de 40 quadros comunistas, entre os quais se encontrava um membro do Comité Central e cinco dirigentes provinciais. Nunca mais soubemos nada deles. Temos ainda camaradas nossos presos em Israel e há nove corpos que nunca regressaram.»
A sobrevivência de muitos ex-combatentes, alguns dos quais com ferimentos graves, bem como a das famílias dos mártires, é assegurada em grande parte pelos fundos do Partido. «As organizações provinciais do Partido pedem ajuda financeira para funcionários e para sedes e nós não conseguimos atender a todas as solicitações», explica Maurice Nohra.

No seu posto!

Na mais recente agressão israelita, em Julho de 2006, os comunistas estiveram ao lado da resistência, liderada agora pelo partido muçulmano xiita Hezbollah. Segundo conta Maurice Nohra, o Partido emitiu uma resolução que instava os comunistas a enfrentar os ocupantes, juntamente com as outras forças de resistência libanesas.
«O Partido foi desarmado e muitos dos nossos camaradas combateram com armas muito antigas, mas combateram arduamente», valoriza o dirigente. Treze comunistas, incluindo três membros do Politburo saído do 9.º Congresso, acabariam por tombar em recontros no Sul do Líbano e no Vale do Beqaa.
A dada altura, vêm à memória as declarações do secretário-geral do Partido Comunista Libanês, Khaled Hadadeh, feitas dois dias antes, na abertura do Congresso. Destacava então a importância de desenvolver a capacidade militar do Partido. Questionado sobre este assunto, o presidente do Conselho Nacional respondeu: «É um objectivo central. Mas não é fácil, dado o ambiente tenso que se vive no país e os nossos escassos recursos.»
Assunto polémico entre os comunistas libaneses é a relação com o Hezbollah. Maurice Nohra reconhece a existência de camaradas com «opiniões muito desfavoráveis relativamente a esse partido, sublinhando que é religioso, sectário e confessional». Contradições que, concorda, «são verdadeiras». Mas a direcção do partido islâmico «não fala assim» e ambas as organizações têm mantido contactos regulares.
Na direcção do Partido Comunista do Líbano, acrescentou, «não olhamos tanto para a ideologia do Hezbollah, mas para a sua política. E esta é resistir à ocupação de Israel e opor-se ao plano norte-americano para o Médio Oriente». Plano que, em sua opinião, começou há 18 anos, ao mesmo tempo que a União Soviética se desmembrava, vergada ao peso das capitulações e das traições. A primeira guerra do Golfo, em 1990, foi o prólogo.
Com o plano do «Grande Médio Oriente», os Estados Unidos pretendem controlar o petróleo e impedir qualquer unidade no mundo árabe, que concentra «300 milhões de pessoas em 14 milhões de quilómetros quadrados». E, para isso, têm de acabar com a resistência. No caso libanês, isto foi tentado recorrendo, por um lado, à agressão militar de Israel, e por outro, à acção dos seus aliados internos, reunidos em torno do bloco «14 de Março», no poder. Ambos falharam.
Se o plano norte-americano triunfar, prevê o dirigente comunista libanês, os EUA «passam a controlar a zona e os seus recursos, ficando numa posição excelente para pressionar a Europa e a China e cercar a Rússia». «É um confronto de importância essencial para o mundo», realça Maurice Nohra. E os comunistas escolheram o seu lugar, ao lado da resistência.

Ultrapassar barreiras e unir

À entrada do edifício da UNESCO, jovens de camisa branca e gravata vermelha recebem-nos calorosamente: «Bem-vindos, camaradas.» No átrio, os militantes conversam, sorriem, abraçam-se e saúdam-se com três beijos, na velha tradição árabe. A camaradagem entre comunistas parece igual em toda a parte do mundo.
Observando aquele convívio fraterno, entre gente de várias regiões e comunidades, quase não acreditamos quando nos dizem que este praticamente só ocorre no seio do Partido Comunista Libanês. A sociedade encontra-se profundamente dividida e essa divisão tem consagração legal e constitucional. No Líbano, todos têm de pertencer a uma confissão religiosa, inscrita inclusivamente no Bilhete de Identidade, – há 17 reconhecidas oficialmente – e é esta pertença que dita que portas serão abertas ou fechadas pela vida fora.
Para tudo há quotas: da política à diplomacia, passando pelos lugares na administração do Estado. Mesmo nas empresas privadas, a norma é que os patrões contratem trabalhadores da mesma confissão. Diz a lei que o cargo de presidente da República deve ser sempre assumido por um cristão maronita, o de primeiro-ministro por um muçulmano sunita e o de presidente do Parlamento por um muçulmano xiita. O mesmo para os chefes militares e dos serviços de segurança e outros altos cargos do Estado.
Em conversa com o editor Joseph Bou Akl e os advogados Albert Farhat e Elias Fadel, percebemos melhor o grau de divisão existente no país: «Normalmente, antes de se iniciar uma conversa, pergunta-se o nome do possível interlocutor, pois costuma ser suficiente para determinar a que comunidade pertence. Se restarem dúvidas, pergunta-se de onde vem. Cruzando ambas as informações, sabe-se com certeza se é xiita, sunita, maronita ou de qualquer outra confissão», esclarece o editor.
Albert Farhat conta-nos, em português, que o seu irmão Saïd chegou, nos anos 80, a ministro da Comunicação do Brasil, onde ambos nasceram. Logo a rádio da Falange (partido cristão maronita, fascista e apoiado por Israel) anunciou, em plena guerra civil, o sucesso deste libanês na diáspora. Mas só por um dia. Saïd, como Albert, eram de «outra» família Farhat, muçulmana xiita, e nunca mais o governante brasileiro teve a «honra» de ser falado naquela estação.
Todos estes contrastes são visíveis mesmo através das janelas dos automóveis em que circulamos. O sul de Beirute, com os seus prédios amontoados e degradados, as suas mesquitas toscas e os cartazes de apoio ao Hezbollah. E depois há o centro. Luxuoso, rico, ocidentalizado, turístico. Com cafés modernos, lojas caras, grandes igrejas e imponentes mesquitas, frequentado pelos mais ricos dos sunitas e dos maronitas. Parece que só nas movimentadas estradas que contornam Beirute todos se cruzam…

O país em risco

«Não se devia falar de religião como se de uma categoria política se tratasse. Mas no Líbano é assim», diz-nos um jovem militante do Partido Comunista Libanês. Este é um país «feudal e sectário» e mantê-lo assim «interessa aos senhores das comunidades, quaisquer que eles sejam». Em sua opinião, é esta a principal dificuldade que o Partido atravessa na sua luta pela construção de um Estado laico. É que se existisse tal Estado, «todos estes senhores feudais veriam os seus interesses postos em causa».
No palco do salão principal do edifício da UNESCO, por trás da mesa da presidência, num grande pano, lia-se «Rumo a uma governação nacional, democrática, secular e resistente.» Era o lema do Congresso e deixava transparecer a importância dada pelos comunistas libaneses à democratização do seu país, vital para a própria sobrevivência do Líbano como nação.
A alteração da lei eleitoral é uma das propostas centrais. Como afirmou o secretário-geral do Partido Comunista Libanês, Khaled Hadadeh, na sua intervenção no Congresso, «a actual lei agrava a divisão confessional entre os libaneses e aumenta o poder dos senhores das diferentes comunidades, que é maior com este sistema de pequenos círculos eleitorais do que com um único circulo, nacional».
«Estando conscientes das implicações regionais e internacionais destas eleições (legislativas, em Junho), o nosso partido apelou a outras forças para se unirem na oposição aos aliados dos Estados Unidos da América no país», prosseguiu Hadadeh. Mas sempre tendo presente que «precisamos manter a nossa independência».
O fim do carácter religioso e confessional do Estado libanês estava já contido no acordo de Taïf, que pôs fim à guerra civil. Este processo seria progressivo e realizado em duas fases. Uma primeira, mantendo a divisão entre cristãos e muçulmanos, mas equilibrando-a; e uma segunda, abolindo as divisões, criando o Estado laico, mantendo-se as comunidades representadas por um senado, sem influência nas principais decisões políticas.
Este segundo passo nunca foi dado e a divisão do país não só se mantém como se agrava. Entre os partidos religiosos, suportados quase todos por países estrangeiros, há os que querem introduzir modificações no sistema sectário para garantir mais força à sua comunidade, baseada no crescimento demográfico, diz-nos o mesmo jovem. Porém, são raras as forças políticas a defender a abolição deste sistema e a construção de um Estado laico.
Contudo, há cada vez mais gente, de todas as confissões, a reclamar o fim das divisões e a edificação de um Líbano unido e laico, confia o jovem: «Temos de chegar a essas pessoas.»